78 crianças têm aulas de circo social num projeto inédito que já está a dar frutos na Lagoa

Motivar os alunos através das artes circenses integra projeto nacional e decorre nas cinco freguesias do concelho. Crianças esperam ansiosamente pelo dia em que o circo vai até elas, todas as semanas

Projeto inovador já está a ter resultados nas crianças da Lagoa © DL

“Quando a minha professora falou nisto eu todos os dias perguntava a ela, ‘qual é o dia? qual é o dia, professora?’ e a minha professora disse: ‘é na sexta-feira’”. O relato é de Juliana Elbiana, 12 anos, que, num misto de ansiedade e entusiasmo, explica como se transformaram por completo as suas sextas-feiras à tarde. Porque é este o dia em que os dois professores da 9’Circos – Associação de Artes Circenses dos Açores, Frederico Melo e Luís Reis, vão à escola Escola Básica Integrada de Água de Pau para a tão aguardada aula de artes circenses e o Diário da Lagoa (DL) foi acompanhar uma delas. 

A chamada sala de receção do pré-escolar da escola de Água de Pau, depressa ganhou vida. Os alunos de duas turmas de Educação Especial começaram a interação e as conversas. Numa caixa transparente, Frederico Melo e Luís Reis colocaram tudo aquilo com que iriam trabalhar com os alunos: lenços coloridos, bolas, diablos e massas coloridas de malabarismo — estruturas alongadas de plástico — que servem para lançar para o ar. 

Mas antes de avançarem para o material, os alunos ouvem, encostados à parede, e em fila as perguntas de Frederico. “Quem é que ajuda os pais em casa? A fazer o quê?”. E seguem-se um rol de respostas: lavar a louça, varrer a casa, arrumar o quarto, colocar o lixo na rua, tratar dos animais. “O objetivo dos nossos projetos ligados ao circo social é trabalhar as competências do foro pessoal e social, saber ser, saber estar, o gosto pelo conhecimento e aprendizagem”, explica o presidente da Associação 9’Circos ao DL. Frederico Melo diz que as artes circenses são apenas “uma desculpa” para trabalhar outras coisas como “a persistência, o foco, a concentração e a memória”, só para nomear alguns. 

“Há muitos conflitos entre eles e estávamos um pouco apreensivas mas aqui é impecável”

Frederico Melo é o presidente da 9’Circos e Luís Reis já trabalhou com artes circenses em França, Bélgica, Hong Kong, Macau, Taiwan e em São Tomé e Príncipe © DL

Depois de uma abordagem mais informal, mas sempre com teor educativo e formativo como matriz, cada aluno escolheu aquilo com que mais se identifica. A maioria escolheu trabalhar com diablos, onde são utilizados dois paus ligados por um fio e duas semiesferas invertidas e unidas que oscilam conforme a vontade de quem o manipula. Mas Tiago Almeida, 11 anos, não larga os três lenços que foi buscar à caixa transparente. E é vê-lo durante longos minutos seguidos a colocá-los aos três no ar, apanhando-os um a um, tentando sempre não deixar cair nenhum. É difícil mantê-los no ar? Perguntámos. “Não”, respondeu logo, “é preciso ter concentração e jeito”. Logo depois perguntámos se ele gostava de ali estar. Não hesitou na resposta: “sim, a gente esforça-se muito para conseguir uma coisa e vamos conseguindo”, garante. 

Uma das duas professoras que também fazem a aula de circo com os alunos diz-se surpreendida com os resultados que já se notam. “Eu fiquei impressionada, eles são miúdos de duas turmas diferentes, com muitos problemas de comportamento, que se davam muito mal, há muitos conflitos entre eles e estávamos um pouco apreensivas mas aqui é impecável, eles dão-se super bem, respeitam as regras” assegura Elsa Ferreira. É professora há 28 anos. O balanço que faz do circo social, na escola de Água de Pau, é francamente positivo. “Eles têm muita dificuldade tanto em dirigir a atenção como em ter um período de concentração mais alargado. O facto deles estarem a manipular as bolas implica ter que trabalhar a parte da coordenação e depois tem que se ter uma capacidade de concentração porque se não, a bola cai. Com estes miúdos eu pensei, vai ser terrível porque dentro da sala com qualquer barulho eles distraem-se. Mas eles quando estão a fazer isto abstraem-se completamente do resto e estão super concentrados”, garante Elsa Ferreira. Prova disso, a persistência de Juliana Elbiana com as bolas que escolheu para lançar. “Quando consigo fazer as atividades sinto-me alegre”, garante a aluna. Já o professor responsável pela atividade da 9’Circos, garante que há frustração. Tentar, falhar e recomeçar é uma constante com praticamente tudo o que implique as artes circenses. Isso mesmo confirma um dos responsáveis pelo projeto.

“criatividade que eles têm
muito dentro deles
e que ainda não foi castrada
é o que mais me surpreende”


Luís Reis também capta, e muito, a atenção dos mais novos, dentro da sala onde decorre a aula. Com uma linguagem simples, descomplicada e próxima dos alunos, vai indicando como se faz este ou aquele truque. Já trabalhou com artes circenses em França, Bélgica, Hong Kong, Macau, Taiwan e em São Tomé e Príncipe. “Nós trazemos circo às crianças, trazemos uma parte de espectáculo, de diversão, entretenimento mas eu acho que o que é mais interessante com estas aulas de circo acaba por ser utilizar um lado que é engraçado mas ao mesmo tempo trazendo autoestima a estas crianças, solidariedade, compaixão, amizade, criação de laços”, assegura o professor. A mesma orientação sugere Albertina Oliveira. Para a vereadora da Câmara Municipal de Lagoa, parceira do projeto, “através da parte lúdica, as crianças adquirem competências muito mais facilmente e de forma mais motivadora para as crianças para a parte escolar”: 

Cinco turmas, previamente sinalizadas, dos cinco concelhos estão integradas no projeto BPI Fundação “la Caixa” Infância. Segundo a informação no site do projeto, “o Prémio Infância tem por objetivo promover projetos a executar em território nacional destinados a romper o círculo de pobreza, empoderando a infância, a adolescência e potenciando a família como eixo da ação socieducativa”. O projeto que envolve as 78 crianças da Lagoa, liderado pela Associação 9’Circos, foi um dos 22 escolhidos dos 140 candidatos a nível nacional. Arrancou em fevereiro passado e dura um ano. A boa notícia é que, caso continue a dar frutos, poderá mesmo continuar a fazer a diferença na vida de ainda mais crianças: “temos um conjunto de ações no âmbito da educação não formal. De acordo com a avaliação do que for sendo feito, vamos vendo”, assegura a vereadora.

Tiago Almeida tem 11 anos e é aluno na escola de Água de Pau © DL

Um dos mentores da 9’Circos – Associação de Artes Circenses dos Açores, já percorreu outros concelhos levando o circo social até outros públicos. Perguntámos-lhe o que mais o impressiona nestas crianças. A resposta: “criatividade que eles têm muito dentro deles e que ainda não foi castrada é o que mais me surpreende”. E é sendo criativo que se desbrava caminho rumo ao universo dos sonhos onde nada é impossível.

Sara Sousa Oliveira

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2022

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