A arte bonecreira da Lagoa e as estratégias para a sua preservação

Igor Espínola de França
Coordenador de Educação e Cultura da CML

A modelagem de figuras de presépio nos Açores foi, certamente, promovida por influência da Ordem dos Franciscanos, que tinham uma grande devoção pelo culto da Natividade, tendo São Francisco de Assis sido o responsável pela construção do primeiro presépio em Greccio, no ano de 1223. De facto, foi esse instituto religioso que acompanhou os primeiros povoadores açorianos, com a incumbência de lhes conferir formação espiritual, bem como em Álgebra e em primeiras letras.

No concelho de Lagoa a construção da sua casa conventual de Santo António terá, seguramente, constituído um fator decisivo para a implementação daquele culto, que a modelagem de figuras de presépio materializa e sustenta. Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1832, esta prática parece ter-se difundido na população, mas é na sequência da abertura das fábricas de cerâmica, Vieira em 1862 e Leite em 1872, que se criam condições favoráveis para o aperfeiçoamento das figuras, que passam a ser produzidas com recurso a moldes de gesso. Nesse período, alguns dos ceramistas que ali trabalhavam abriram em suas casas pequenas oficinas onde, em horário extralaboral, criavam figuras de presépio, com a intenção de aumentarem os seus rendimentos. A articulação desta atividade com o movimento regionalista do século XIX culminaria, no século XX – com o apoio, e influência, da elite intelectual micaelense onde se destacaram figuras como Armando Côrtes-Rodrigues, Domingos Rebelo e Carreiro da Costa, – na afirmação de uma verdadeira arte popular, idiossincrática da Lagoa, cujo figurado representa quadros bíblicos, em convivência com quadros regionalistas evocativos de atividades quotidianas do mundo rural. Nesse processo desempenhou papel de relevo Luís da Luz Gouveia, quer pela qualidade das figuras que produziu, quer pela persistência no recrutamento e, ainda, no exemplo que constituiu para os ceramistas bonecreiros mais novos.

Ciente da relevância desta atividade a Câmara Municipal de Lagoa tem investido, desde a década de oitenta do século passado, na preservação da arte bonecreira, promovendo o seu estudo. Este esforço pioneiro foi desenvolvido em parceria com a Universidade dos Açores e coordenado pelo investigador Rui de Sousa Martins, tendo permitido, nomeadamente, organizar uma coleção e identificar as autorias de muitas figuras imbuídas de particularidades estilísticas. A criação do Museu de Lagoa-Açores constituiu uma oportunidade para que parte dessa coleção fosse exposta com carácter duradouro, no seu Núcleo Museológico do Presépio concluído em 2019, e intencionalmente localizado no antigo convento franciscano.

O Museu disponibiliza, também, a mufla da sua oficina para a cozedura das figuras produzidas pelos bonecreiros, e a sua loja para a venda das mesmas, bem como mantém online a Rota Bonecreira que mapeia os últimos cinco lagoenses que exercem a atividade, divulgando a sua obra e os seus contatos.

Dando continuidade a todas estas ações, que visam garantir o prosseguimento da produção artesanal das figuras de presépio típicas do concelho, a autarquia celebrou este ano parcerias com as escolas Básicas Integradas de Lagoa e Água de Pau, e com a Escola Secundária de Lagoa, tendo arrancado no corrente ano letivo o projeto “Novos Bonecreiros”, com o qual se pretende despertar na população o gosto pela atividade. Nesse sentido, foi concebido um manual pedagógico com informação sobre as regras e técnicas da arte, acompanhado de vídeos explicativos, e dada formação certificada aos docentes das áreas artísticas. Esta ação, que facultará o contato de toda a comunidade estudantil do concelho com a arte bonecreira, vai ser conjugada, no início do próximo ano civil, com a formação aberta à população em geral, completando uma estratégia abrangente que visa perpetuar esta particular forma de arte, que justifica o epíteto de “cidade presépio” atribuído à Lagoa.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de novembro de 2021

Categorias: Opinião

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