A “Esperança” que resiste para manter viva a arte da tipografia

A tipografia Esperança é a única da Lagoa e um espaço histórico do concelho. A pandemia só veio agravar ainda mais as dificuldades do negócio mas o proprietário não desiste

Única tipografia da Lagoa tem mais de meio século e é um símbolo de história e resistência / FOTO DL

A rua tem o nome de estrada da Relvinha, em Santa Cruz, Lagoa. Num bucólico bairro de casas, destaca-se a velhinha escola primária do Plano dos Centenários. Ao lado, no número 13, desponta uma casa, aparentemente igual a todas as outras. Essa casa está sempre de porta aberta. Percebe-se depois que é uma oficina. Na parte da frente, há televisões por todo o lado, dando nota que ali se reparam as caixinhas mágicas.
Mas a verdadeira magia, a tipográfica, acontece na parte de trás. É que nas traseiras da casa as funções não se limitam a reparar. Estendem-se a criar. A dar vida ao papel. É ali a casa da tipografia Esperança, a única tipografia da Lagoa e um espaço histórico do concelho.
cas.

Mas a verdadeira magia, a tipográfica, acontece na parte de trás. É que nas traseiras da casa as funções não se limitam a reparar. Estendem-se a criar. A dar vida ao papel. É ali a casa da tipografia Esperança, a única tipografia da Lagoa e um espaço histórico do concelho.

“Esta tipografia já é muito antiga. Eu ainda não consegui determinar quando é que nasceu. O meu sogro comprou a um senhor, José Leandro, que era funcionário da câmara, em 1966”, explica João Pacheco, proprietário, que conduz o Diário da Lagoa numa visita guiada ao espaço. A tipografia não é muito grande, mas nem por isso a visita é dispensável: ali, em cada canto, há histórias para contar. Histórias que fazem a história da Tipografia, uma arte ameaçada, mas que naquele espaço encontra um bastião de resistência.

Na Esperança há o cheiro da tinta, que deixa marcas nas mesas e torna os dedos escuros. Há o ruído industrial, vindo das várias máquinas que ali se acomodam, negras e robustas, evocando a nostalgia de um outro tempo, um tempo analógico, que corria apenas no físico, no palpável, onde os calos nos dedos não eram resultado de um scrol permanente do meio virtual.

Delmiro Luz (à esq.) e o proprietário João Pacheco (à dir.) consultam as primeiras edições do Diário da Lagoa impressas pela tipografia Esperança / FOTO DL

A tipografia Esperança mudou-se para o espaço atual em 1972. Antes estava numa “casa ali mais à frente”, próximo do porto dos carneiros. João Pacheco ficou responsável pelo espaço em 2001 quando o sogro, Altino Resendes, faleceu. Até então, o atual proprietário estava na parte da frente, uma vez que a sua “área” são as televisões. Ou melhor: era. “Depois de meu sogro falecer eu é que dei continuidade a isso”. Ficou assim assegurada a continuação de uma história, que se cruza com a deste jornal. Desde a primeira edição, em outubro de 2014, até junho de 2016, o Diário da Lagoa foi impresso na tipografia Esperança. Foi ali que tudo começou, numa relação umbilical entre a única tipografia e o único jornal do concelho, que leva João Pacheco a guardar religiosamente todas as edições do DL e que a nós nos enche de orgulho – e de Esperança.

Gavetas com história

Cada gaveta corresponde a um tipo de letra diferente com dezenas de pequenos chumbos / FOTO DL

Entre a maquinaria, há duas Heidelberg, nome de cidade alemã que é também uma marca incontornável na produção de máquinas gráficas. Uma delas é a mais antiga do estaminé. A pergunta sobre a idade leva João Pacheco a refletir. Face ao silêncio, surge a resposta. “Mais de cinquenta anos.

Eu vim para aqui em 1983 e ela já trabalhava aí há muitos anos”, responde do outro lado da tipografia Delmiro Luz, que continuou a ultimar a confeção de um calendário de parede com a delicadeza de quem cria artesanato. Delmiro começou a trabalhar aos 17 anos como aprendiz, atualmente é o mestre tipógrafo da Esperança.

A criação do tal calendário é interrompida. Quando se fala em máquinas antigas, é preciso mostrar a jóia da casa. Uma jóia pequena, mas rara. Delmiro foi buscar e pôs a trabalhar uma pequena máquina de impressão manual. Quase que parece de brincar. “Aí há uns anos estiveram aqui especialistas e tipógrafos de todo o mundo e ficaram encantados com essa máquina. Nunca tinha visto algo assim, porque uma coisa desse tamanho não é fácil de encontrar em tipografia”, explica João Pacheco, referindo-se ao encontro de impressores tipográficos que decorreu em 2019 e que trouxe gente de todo o mundo até à ilha. É uma máquina de impressão como as outras, mas em ponto pequeno. E ainda trabalha – isto aqui é um museu vivo. No círculo superior – que quase parece um resplendor – esfrega-se a tinta. Depois, dá-se à manivela, é gerado um ruído maquinal – sinal da criação -, e nasce a impressão.

A máquina está em cima de um longo balcão de madeira já gasta. As gavetinhas antigas guardam outras preciosidades: estão ali dezenas de símbolos em chumbo, que funcionavam como carimbos para a impressão. Há o símbolo do PS, do antigo Banco Comercial dos Açores, do Operário, do PDA, dos gelados Cara-Alegre e do cine-lagoense. “Esse era para os cartazes que exibiam no cinema durante a semana”, explica João Pacheco sobre o último.

Na gaveta acima, mais relíquias. Chapas de zinco, uma tecnologia mais recente, também com diversos emblemas, símbolos, logótipos das produções que ali se faziam. Com gavetas repletas de preciosidades, é natural agudizar-se a curiosidade quanto aos outros armários que ali povoam.

Única tipografia do concelho faz calendários, convites, panfletos, autocolantes e cartões com máquinas históricas / FOTO DL

“Desse lado, temos vários chumbos”, responde o proprietário de forma modesta à curiosidade. Vários, não. São centenas e centenas de chumbos e o mesmo é dizer de carateres: letras, maiúsculas, minúsculas, acentos, tudo em diferentes tamanhos e tipos. “Cada gaveta é uma fonte”, explica João Pacheco. São muitas as estantes presentes. Cada estante está cheia de gavetas. Cada gaveta está dividida em vários quadradinhos de madeira. Cada quadrinho tem dezenas de chumbos, equivalente a todas as letras do alfabeto. “Isto à vista desarmada são apenas bocadinhos de chumbo, mas cada um é uma letra diferente”, assinala o gerente, realçando a dimensão hercúlea de trabalhar com aquele sistema. “Imagine fazer um jornal assim. Cada letra é um chumbo, era preciso compor letra a letra e estando o serviço pronto era desmanchar e pôr tudo no seu lugar”.

Nos dias que correm, os chumbos já só servem, praticamente, para evocar a história da tipografia, porque muito do trabalho é feito pelo digital ou por outros sistemas tipográficos mais recentes.

A Esperança que resiste

Delmiro Luz é mestre tipógrafo / FOTO DL

O gerente assegura que fazem de “tudo um pouco”: faturas e recibos, folhas timbradas, convites, panfletos e autocolantes. “Muito serviço variado”, essencialmente para “pequenos clientes”. “Mas estamos abertos a propostas”, ressalva.

Essa abertura fê-los atingir um público que João Pacheco nunca pensou alcançar. Nos últimos anos – os áureos do turismo regional – foram muitos os turistas que foram à Esperança imprimir “mapas, viagens e fotografias”. “Aparecia aí muito turista, que viam na internet e chegavam aqui com o GPS. Era engraçado, é uma coisa que eu não contava”.

Agora, com a pandemia, os turistas deixaram de ir. Foi só mais um revés num negócio que se arrasta há anos numa crise impingida pelo progresso. É que o trabalho feito em tipografia tem “outra qualidade” e, por isso, “outro preço”, impossível de concorrer com a produção em grande escala ou com a impressão doméstica.

“Isso está muito mau, muito quebrado, passou tudo a ser feito por computador, informatizado. A pessoa já não precisa de fazer um impresso, o computador já faz o impresso em casa do cliente”. Por agora, o ofício vai resistindo, sem saber bem o que o futuro trará. Uma coisa é sempre certa: a Esperança, essa, será sempre a última a morrer.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2021)

Categorias: Reportagem

Deixe o seu comentário