A Insustentável Leveza do Ser

© LIDIA MENESES

A frase vai roubar o título ao célebre romance do escritor checo Milan Kundera. Cada uma das personagens, atuantes de um triângulo amoroso, experimenta à sua maneira, o peso insustentável que baliza a vida, em permanente exercício de reconhecer a opressão dos seus desejos e de tentar amenizá-la. É um livro inquietante, pois faz-nos ponderar assuntos que não gostamos de aprofundar. O livro fala sobre o sentido da vida ou melhor, sobre o peso e a leveza da mesma. Nele, amar pode ser um fardo pesado. Ter compaixão, ser sensível, também. O artista, como exemplo, é um amoroso incurável, sofre por amor a tudo que vê e nem sempre consegue digerir essa comoção. Não há nada mais pesado do que a compaixão. A dor sentida com alguém, por alguém, multiplicada pela imaginação, prolongada em mil ecos. Assim atuam os artistas nas suas telas. O artista sente tudo. É pesado, mas faz-nos sentir. Porém,  “aquele que quer permanentemente chegar mais alto deve esperar que um dia será invadido pela vertigem.” Indagamos, portanto, se estamos preparados para essa leveza do ser. O que ela significa? Desprendimento? Alguém quer, realmente, estar assim tão leve? Se, por um lado a frase- A Insustentável Leveza do Ser- remete para a leveza do ser, logo a contradiz com o facto de ser insustentável, portanto, ser e viver não tem nada de leve. É, até, bastante pesado, o tal fardo de viver, principalmente para quem decide morrer. Não é por acaso que falo sobre este elefante na sala de porcelana. Afinal, pensar na morte faz parte da vida, filosofar sobre o término da vida, também faz parte do ser. O livro alerta, também, para que nenhum ser humano tente responder ao porquê de viver, ao porquê de morrer, pois não há nenhuma verdade grandiosa. Só conhecemos a vida vivendo-a, e não há nada de leve nisto. A vida é difícil- simples- é um milagre para uns e uma tragédia para outros. Vincent Van Gogh afirmava: “Na vida de um artista, a morte pode não ser a coisa mais difícil!”. Em contraste, no livro de Paulo Coelho “Verónica decide Morrer”, a protagonista resiste a um suicídio falhado, mas, devido a um problema cardíaco, apenas terá uma semana de vida. É então, que ela se agarra à mesma e decide dar-lhe um outro rumo, enfrentando os seus problemas e medos e realizando os seus desejos. Estar perto da morte fê-la, portanto, renascer e, também, lutar por si mesma, pelos seus desejos. Todos compreendemos este fulgor de viver, após a experiência de uma dor excruciante.

Decidir morrer é um ato sem retorno, com implicações enormes nos sobreviventes (família, amigos, colegas de trabalho). Há um círculo de pessoas que são afetadas quando alguém decide morrer. Segundo a psiquiatra Ana Matos Pires, “entre 2019 e 2022, houve um aumento de comportamentos suicidas, muito em reação ao aumento da sintomatologia da patologia depressiva”. Ora, eu chamo-lhe falta de empatia, que me perdoem a sinceridade. Sabem…? A falta de afabilidade e gentileza, sobretudo, características altruístas que agora perecem. Há que, por isso, mudar atitudes quanto à saúde mental. A prevenção do suicídio é um assunto que nos diz respeito a todos enquanto sociedade. Por isso não olhem de lado à tristeza, não virem esta página. 

Há quatro tipos de suicídio, segundo o sociólogo Emile Durkheim, 1897. Há o egoísta: sentimento de não pertença, socialmente desintegrado, falta de sentido pela vida, apatia, melancolia e depressão. O altruísta: absorvidos pelas crenças de um grupo. O anónimo: confusão moral, distúrbios sociais e económicos dramáticos e o fatalista: pessoa excessivamente regulada com futuros impiedosamente bloqueados, paixões estranguladas por disciplina opressiva. Não me atrevo a dar exemplos precisos para cada um dos casos, porque cada caso tem os seus espinhos e muitas vezes nunca chegam ao conhecimento do público. São conhecidos, contudo, só para referir alguns, os suicídios:  da imperatriz Cleópatra, do DJ Avicii, da escritora Virgínia Woolf, do pintor Van Gogh, do músico Kurt Cobain, do ator Heath Ledger, da atriz Marilyn Monroe, do ator Robin Williams, do ativista Abbie Hoffman e do presidente do Chile, Salvador Allende.

É verdade que há uma grande probabilidade de artistas se suicidarem. Poderia dizer-se que os artistas tendem a diferenciar-se da norma, de várias formas, e as pessoas que são diferentes são muitas vezes ostracizadas por certas sociedades. Mas, por incrível que pareça, a maior taxa de suicídio, em termos de profissão, acontece não entre os artistas, mas entre os médicos. A maior parte das pessoas com alto nível de inteligência tem dificuldade em lidar com a frustração e, por isso, a sensação de inutilidade é muito difícil de deglutir. Muitos preferem encontrar a paz, no alívio da dor. Em Ponta Delgada, há uma escola com o nome de um grande poeta e filósofo português que decidiu morrer de modo violento, com 2 tiros na cabeça, num banco de jardim junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança. Era o talentoso e apreciado Antero de Quental. Muitos poderiam pensar que foi a sua mudança do continente para a ilha o que o transtornou, ou os seus ideiais, por ser filósofo, por ser poeta? Mas Antero sofria de um distúrbio bipolar, tinha tido tuberculose da qual nunca chegou a recuperar totalmente e sofria de incessantes dores de estômago. A dor mental tem, também, origem na dor física, a que moi a todas as horas, a que apaga o sorriso, a vontade e a energia. Todos os artistas levam o seu último trabalho para a sua última morada, ou seja, a si mesmos, ao seu habilidoso corpo, que também definhou, que também amou, que também foi humilhado e tocado e que criou. Por isso, os artistas parecem estar sempre numa grande azáfama. Estão com pressa de deixar registado o amor pela vida, como a veem, para que não se esqueçam, nem do seu espírito, nem de como esse espírito via essa vida carnal. Na mesma medida, a arte é uma ação contra a morte, porque precede o artista que a criou. Portanto, não me parece que a qualidade do pensador, do artista ou do criador seja a razão da sua fatal decisão de encontrar a morte. Mais uma vez, culpo o amor ou a falta dele, culpo a trapaça de achar melhor ser amado do que amar, como motivo. Acima de tudo, amar alguém e a si próprio.

Geograficamente a Lituânia é o país com a maior taxa de suicídio, 31,9%  e a Albânia tem a menor, 6,3%. As maiores taxas ocorrem em países com condições económicas, sociais e culturais diversas. Os países com as maiores taxas são os de clima frio e que fizeram parte da antiga URSS. Em 2019, 1 suicídio ocorria a cada 40 segundos com menores de 45 anos. É a segunda principal causa de morte entre os jovens. Provoca mais mortes do que a malária, cancro da mama ou mesmo as guerras e os homicídios. Em termos globais, são 1,8% mais frequentes entre homens do que entre mulheres. O caso é tão grave que o Facebook removeu 26 milhões de conteúdos de ódio e 2,5 milhões de conteúdos sobre suicídio e mutilação.

Enfim, que escolha mórbida de tema para o início de um mês como o de maio, quando uma grande parte da população do planeta terra celebra o seu aniversário, um mês dedicado especialmente à Virgem Maria. Maio vem do latim Maya, mãe do deus Hermes, identificada na mitologia romana como a deusa da fertilidade, cujos festivais eram celebrados neste mês. É o mês da Primavera no hemisfério norte, do desabrochar das flores, do início de muitos amores e, também, infelizmente, de muitas alergias ao pólen. Na astrologia começa com o signo de Touro e termina com o signo de Gémeos. Falemos antes do amor. Falo do amor cru e realista como os de Kundera. Ele defendia o amor desinteressado, o que não arranjava razão para ser achado, o que se processa por mera devoção e acaso. Gostar porque sim. Para este autor, se o amor não é louco, ele não é nada. Precisamos, então, de estar apaixonados pela humanidade. Os mais velhos lembram-se deste amor insustentável, o amor que nos causa vertigem, o amor que nos enleva e nos mata, mas que os fez viver. O amor pelos outros, com tudo o que há neles e sobre eles, inclusive as sombras. Antes havia paciência, hoje há segundos até um bip ressoar, de um qualquer tijolo tecnológico. Não é por acaso que os mais velhos têm vindo a alertar: perdemos as maneiras. Sejamos gentis e leves, aspiremos a essa insustentável leveza do ser, tão exigente mas tão necessária. Sejamos subtis nos modos, doces nas expressões, cândidos nos gestos. É grande o poder das pequenas ações do quotidiano. Uma meiguice na mão, mesmo sem sentido – do nada – uma mensagem no tabelier do carro, uma flor junto à almofada, um rebuçado na mala. Da próxima vez que estiverem colados a um ecrã, qualquer, lembrem-se de procurar o seguinte: 100 aleatórios atos de gentileza. Tais atos de amor permitem-nos transformar um dia pesado, num dia leve. É o que nos faz continuar, não uma qualquer razão grandíloqua que justifique o facto de merecermos estar vivos. A seguir a ler isto, abrace alguém, pode salvar uma vida. E, sobretudo, não se esqueça de si mesmo, é revolucionário. Pode encontrar-me no Instagram, em: @lidiamenesesdesign

Ilustração e texto de Lidia Meneses

Artigo publicado na edição impressa de maio de 2022

Categorias: Opinião

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