A liberdade tem muitos quartos

Sara Sousa Oliveira
Diretora

Sempre gostei mais de ouvir do que de falar. Não é bom nem mau mas isso acabou por se espelhar nas últimas 18 edições do Diário da Lagoa (DL). Tentei sempre colocar as pessoas a falar delas e do que as rodeia e a escrever pouco enquanto diretora. Não que ache que os diretores não devam opinar nos jornais sobre o que se passa à sua volta, mas porque poucas vezes quis virar o foco para mim em detrimento de uma notícia ou de um outro artigo de opinião.

Aqui chegados, é hora de olhar para trás para seguir em frente. O tempo passa e não para. É tão óbvio isto mas tão subtil na forma como se desenrola no próprio tempo que entretanto, pensei e construí uma série de jornais do zero sempre com a preciosa e pequena equipa que o mantêm vivo e o fazem crescer e bem, todos os dias.

Liderar um jornal local não é um passeio na praia. Não esperava que fosse, mas com uma pandemia pelo meio e a necessidade que todos tivemos de nos reinventar, a missão tornou-se ainda mais acutilante. Fico feliz quando olho para trás e vejo que foi possível prosseguir com o jornal — adquirido por uma empresa privada com base na Lagoa — e contar as histórias que contámos. Fomos criticados e ainda bem, porque crescemos com isso. Fui atacada, e ainda bem também, porque os ataques inócuos e estéreis, tornam-nos mais fortes e dizem muito mais sobre quem os faz do que sobre quem deles é alvo. E é também através deles que a liberdade existe. Ela tem várias formas e assume muitos nomes.

Nesta viagem, onde a liberdade foi a minha maior companheira, as coisas boas foram infinitamente maiores que as coisas más. E quando sabemos que a procura pelos nossos jornais, nos locais onde os deixamos, se esfuma em poucas horas, aí temos a certeza de que é este o caminho que devemos continuar a cimentar, dando voz às pessoas, aos projetos e às instituições que enriquecem a comunidade, mostrando, simultaneamente que o outro lado da moeda existe e não é sonegado.

18 edições depois decido deixar a direção editorial do DL com um enorme sentimento de gratidão e tranquilidade. Não fizemos tudo e há ainda muito a fazer por isso é que o jornal vai continuar.

Nos próximos meses outros desafios ir-se-ão somar aos meus dias. Continuarei a ser correspondente da SIC e do jornal Expresso nos Açores e vou manter a minha colaboração com o DL mas sem funções de direção. Esse cargo vai ser assumido por alguém que já faz parte do jornal. Estou certa de que o DL fica bem entregue e irá continuar a crescer dentro e fora do nome que carrega.

Nesta edição decidimos falar de liberdade porque ela não pertence só a abril e porque ela deve ser sagrada, “inteira e limpa”, como escreveu Sophia de Mello Breyner. Convidámos o cartoonista açoriano António Pedroso a ocupar boa parte da capa de junho, mostrando-nos o que fez a pandemia à nossa liberdade. E a ela dedicamos várias páginas desta edição. Numa altura em que nos vimos privados das liberdades mais básicas em nome da saúde pública e do vírus que tomou conta de um planeta inteiro, não nos podemos demitir da nossa responsabilidade: continuar a lembrar que a democracia não se pode escrever sem um dos pilares que a suporta. A liberdade tem muitos quartos. E num dos mais bonitos e poderosos moram mais perguntas do que respostas.

Editorial publicado na edição impressa de junho de 2021

Categorias: Opinião

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