A longa e profunda crise dos guias turísticos continua sem fim à vista: “as previsões são baixas, são péssimas”

Os guias turísticos da Lagoa, tal como em toda a região, estão a atravessar profundas dificuldades, numa atividade com uma paragem em torno dos 100%. Estão previstos apoios regionais, mas as expetativas continuam negras

Guias dizem que paragem é total e só têm serviços muitos esporádicos © ALEXANDRE CORREIA

Miguel Correia é guia há onze anos, mas está ligado ao turismo desde muito cedo. Aos 19 anos já trabalhava no hotel Bahia Palace, em Água d’Alto, e mais tarde trocou Santa Cruz, na Lagoa, onde vivia, pela França. Na terra da Torre Eiffel, aprendeu muito daquilo que sabe sobre o ramo do turismo, tendo trabalhado na indústria dos cruzeiros, em especial dos cruzeiros da Disney, que reúnem gente de todo o mundo.

Voltou mais tarde à Lagoa e foi viver para o Rosário. Em 2010, abriu a sua empresa, Azores Dream Tours, com sede em Água de Pau, com o intuito de mostrar a ilha aos turistas. Agora, sem atividade, diz que nunca viu uma crise assim. “Isso agora é ir tentando sobreviver. Desde há cinco anos para cá que ia batendo recordes, pessoalmente, ou seja, o ano seguinte era sempre melhor, até chegar a 2020. Aí, só para dar um exemplo, em abril, só em duas semanas, perdi quase 20 mil euros. Só em duas semanas”, começa por dizer ao Diário da Lagoa (DL).

As declarações de Miguel Correia metem a nu a profunda crise dos guias turísticos da Lagoa. A pandemia da covid-19 gerou uma crise económica e social mundial praticamente sem precedentes. Entre aqueles que ficaram sem laborar e outros que viram as suas receitas cair a pique, a classe dos guias turísticos foi, certamente, uma das mais afetadas pela crise. É que para eles não dá para reduzir horários ou limitar o número de clientes, como procuraram fazer outras atividades comerciais. Para eles, sem turistas, não há negócio: não quebra de atividade, há paragem praticamente total. “Isso está completamente parado, está muito mal. Está parado a 99,9%, só temos coisas esporádicas”, afirma Miguel Correia, assinalando que a última vez que teve um serviço foi em fevereiro – “mas também posso lhe dizer que em janeiro trabalhei um dia e que em fevereiro trabalhei um dia”, acrescenta. Perante uma crise tão delicada, que obrigou a mudanças drásticas na vida comum, não é fácil manter o negócio vivo. Nesse esforço hercúleo, procura-se abdicar de alguns investimentos. “O ano passado vendi três viaturas. Ou seja, de cinco viaturas vendi três e podia-lhe enumerar montes de casos assim aqui na Lagoa”.

O relato de Miguel Correia é corroborado pelos de outros guias. O responsável da IgoAzores, empresa com sede no Cabouco fala de uma “situação dramática”: “a situação é de estagnação, o turismo é a área mais afetada, independente de confinamentos ou desconfinamentos, nós dependemos é do comércio internacional”, afirma João Correia. Mais do que palavras, os números espelham a crise: João Correia teve o último cliente em 2020 – e foi o único daquele ano. “É a paragem total”.

A IgoAzores dependia de um “contexto diferente”, não sendo tão vocacionada para os habituais passeios turísticos e visitas guiadas. Têm como ramo de especialidade a “organização de viagens de grupos grandes”. Desde há “quatro, cinco anos”, organizavam anualmente uma colónia de férias de jovens franceses, que trazia duzentas crianças para ficar um mês na ilha, onde a Lagoa era a “aposta principal”.

Também organizavam o “acompanhamento de grupos de parapente”, que vinham sobretudo da Bélgica e da Suíça, para voar pelo céu dos Açores. Foi “outra atividade aniquilada pela pandemia”. “Isso era uma outra forma de mostrar a ilha”, diz. E tudo isso foi devastado pela pandemia da covid-19.

O futuro não agoira nada de bom

Outro guia, Roberto Sousa, dedicou-se ao turismo em janeiro de 2015, depois de ter estado um ano e três meses a viver no Canadá. O turismo surgiu porque a política roubou-lhe o emprego: “fui presidente da junta de freguesia de Água de Pau e dediquei-me tanto que perdi a minha vida profissional que era comerciante”. Foi assim que criou a São Miguel Tours, para aproveitar o rumo crescente do turismo regional, sentido após a liberalização do espaço aéreo em 2015. Agora, tal como os colegas, a quebra é “praticamente de 100%”, mas, este ano “terá de ser forçosamente melhor que o ano passado”. “A partir de maio devemos ter algum trabalho, o suficiente para nos alimentar”, afirma, ressalvando, contudo, que também esperava melhorias no verão passado que não chegaram a acontecer.

Mas, para melhorar, Roberto tem a receita: é preciso apostar nos “mercados que dão dinheiro”. E exemplifica: o mercado nacional é bom, tal como o inglês e o alemão, mas os melhores são o norte-americano e canadiano. “Os italianos, espanhóis, suecos, finlandeses, nórdicos, podem ficar em casa que não fazem falta nenhuma, podes meter isso mesmo assim no jornal”. Em suma: “só melhoramos se sabemos o que estamos a fazer”, atira.

Para apoiar nessa crise, a Câmara da Lagoa lançou uma medida, ‘Roteiros da minha terra’, dedicada aos residentes. “Fui eu até que propus isso em nome dos meus colegas”, explica Miguel Correia, defendendo a importância do apoio, mas que não serve, nem pouco mais ou menos, para fazer esquecer as dificuldades. “É uma iniciativa com mérito, tudo o que vier é bem-vindo”, explica, avançado que os guias já receberam o apoio.

Também a nível regional foi aprovado na Assembleia Regional uma medida de apoio aos guias turísticos, que teve a aprovação do PAN (responsável pela iniciativa), do BE, do PS e da Iniciativa Liberal. “O apoio ainda não está definido, mas é muito positivo porque prevê que os guias recebam um salário mínimo durante pelo menos um semestre”, explica ao DL Paulo Bettencourt, presidente da AGITA, Associação de Guias de Informação Turística dos Açores, assinalando ainda a necessidade de o executivo regional promover formações. “A nossa formação até agora é a autoformação”.

Um apoio que servirá como balão de oxigénio numa retoma onde a única certeza é imprevisibilidade. Isto porque as poucas pessoas que viajam procuram evitar os guias e “basicamente um trabalho de um guia é com grupos” – e grupos é palavra proibida em período de pandemia.

Em tempos, as expectativas para 2021 foram “muito altas”, norteadas pela esperança em torno da vacinação. Agora, segundo Paulo Bettencourt, o cenário enegreceu. “Tendo em conta que vacinação no nosso principal mercado, que é o mercado da União Europeia, está muito atrasada, as previsões são baixas, são péssimas”. Os guias turísticos vão continuar numa longa travessia por uma crise sem precedentes.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2021

Categorias: Reportagem

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