A Menina do Mar: uma guardiã do planeta que limpa a orla costeira para o “bem de todos”

Maria Inês tem 12 anos e vai no “mínimo” três vezes por semana recolher lixo da orla costeira na Atalhada. É um símbolo da determinação e da coragem necessária para salvar o planeta

Maria Inês desde cedo se preocupou com as questões ambientais © DL

O calendário dizia que era Primavera, mas o dia desenrolava-se sob um céu nublado cor de breu, que a pedaços deixava escorrer mantos de água fortes, mas efémeros. Ainda faltavam cinco minutos para a hora marcada quando chegamos à zona costeira da Atalhada: o local escolhido, inevitavelmente escolhido, por ser quase uma segunda casa da menina do mar.

A menina, esta, já lá estava, escalando decidida os calhaus mergulhados no mar e recolhendo todo o lixo que encontrava por entre aquela bruma espessa. “Ela quis vir mais cedo para aproveitar para recolher algum lixo”, começa por dizer a mãe, introduzindo-nos na rotina da filha.

A filha, Maria Inês, é a menina do mar. Tem 12 anos e estuda na Escola Secundária da Lagoa. Começou por ser notada por quem passa naquela zona costeira por ali estar, dia após dia, a recolher lixo. “Venho aqui no mínimo duas a três vezes por semana”, explica Maria Inês ao Diário da Lagoa, acrescentando que no Verão, por exemplo, chega a recolher o lixo da zona costeira da Atalhada duas vezes por dia, todos os dias.

“Inicialmente só fazíamos companhia, mas agora acabamos por ajudar a Maria Inês a apanhar o lixo da orla”, diz a mãe. Uma vez a mãe, outra o pai e às vezes os avós, Maria Inês obriga todos a agarrar aquela causa.

A quantidade de lixo recolhido não é fácil de definir com exatidão. “É sempre um saquinho desses cheio”, explica, apontando para um velhinho saco de pano azul, muitas vezes pequeno para a imensidão de lixo que facilmente se acumula entre as rochas e o mar. Ali encontra-se de tudo: “já encontrei sapatos, escovas de dentes, bonecas, muitas redes de pescas, baldes, garrafas, quase tudo de plástico, é raro o que não é, e também se encontra alguns pneus e cordas”.

No final, leva o lixo para casa, separa-o e coloca-o na reciclagem. Já é um hábito quotidiano daquela menina de 12 anos, que, cheia de certezas sobre o que quer, invulgar naquela idade, atira taxativamente: “comecei a recolher o lixo porque ou era assim ou não era. Não havia dois caminhos. Faço isso para o meu bem e para o bem de todos”.

“Montanhas de lixo”

Leva o seu saco de pano para recolher o lixo que encontra trazido pelo mar © DL

A veemente preocupação ambiental de Maria Inês começou há cerca de dois anos, quando estudava no quinto ano da escola Roberto Ivens, em Ponta Delgada. Um projeto de turma sobre a questões ambientais fez a diferença.

“Comecei a interessar-me por esses temas quando trabalhei na escola as questões ambientais, a poluição e a extinção de seres vivos”. Todos esses temas, dramáticos para a nossa vida no planeta e tantas vezes ignorados pela maioria, não passaram despercebidos para Maria Inês que ainda nem tinha dez anos. Começou por investigar sobre o assunto, com horas de vídeos na internet, e depois, com uma determinação hercúlea, passou a agir diretamente no seu território.

“Primeiro tive a ver muitos vídeos na internet sobre a poluição. Depois tive a recolher lixo pelas ruas, e só mais tarde, quando houve um temporal aqui é que comecei a limpar a orla costeira”, recorda Maria Inês, lembrando-se que aquele temporal provocou “montanhas e montanhas de lixo”, que levou para casa para reciclar.

Para uma mãe, não é fácil ver a filha menor decidida a limpar o lixo por todo o lado, assume Ana Caetano. “Preocupou-nos inicialmente porque ela começou por apanhar lixo na escola onde estava. Ela achava a escola muito suja e em vez de estar com os amigos isolava-se para apanhar lixo”, explica. Depois, Maria Inês não ficou só pela escola. Começou a recolher o lixo das ruas. “Para a mãe, inicialmente não foi fácil ver a filha a apanhar lixo nas ruas da Atalhada, depois conseguimos convencê-la a vir mais para a orla costeira”.

Começou a ir então para a zona próxima do mar na Atalhada – e nunca mais parou. Nem mesmo quando o tempo está mais agreste. À pergunta sobre se a chuva e o vento forte não a fazem preferir ficar em casa, Maria Inês responde com uma clareza que até intimida: “não, porque é nesses dias que o mar está mais agitado e que por isso vai existir mais lixo”. Mais: diz nunca se sentir cansada, a não ser naquele período em que limpava a escola. “Só me senti cansada quando apanhava lixo na escola todos os dias e todos intervalos, aí já ficava aborrecida com as pessoas”.

Nós até insistimos, mas Maria Inês não desarmou. Pergunta: não preferias ficar em casa a ver youtubers em vez de apanhares lixo? “Não, isso não vai beneficiar nada no meu futuro, nem é uma coisa que me interesse, nem me vai dar armas para o meu futuro”.

Pensar de “forma global”

Maria Inês quer mudar o mundo e tem o sonho de ir a África © DL

Uma força de vontade assim só é parada quando obrigada. Como aquando da primeira vaga da pandemia da covid-19. “Aí tivemos de agir e impedir mesmo que ela viesse apanhar lixo porque estávamos todos confinados em casa”. Mais próximo do Verão de 2020, face à insistência, os pais lá deixaram-na retomar a recolha, mediante a condição de não apanhar máscaras e lenços de papel.

A vontade da Menina do Mar é contagiante. Um contágio que pode ser mais ou menos voluntário: “tivemos de mudar vários hábitos lá em casa por causa dela”, assume a mãe, entre risos. É que Maria Inês bem não é só a menina do mar, é uma protetora convicta da natureza. Uma guardiã do planeta, que resiste heroicamente ao consumismo selvagem e à inconsciência ambiental que marcam as sociedades modernas.

“Ela não se limita a apanhar o lixo propriamente dito. Também nos limita muito lá em casa. Está sempre a dizer que não precisa de roupas novas, por exemplo. Ela pensa de forma global nos recursos do planeta”, aponta a mãe. “Claro, se as minhas sapatilhas ainda estão boas para que queria outras?”, atira Maria Inês.

Como consequência, lá em casa passaram a fazer a compostagem, enterrando as frutas e legumes no quintal. Tudo a cargo de Maria Inês. “A verdade é que nós sentimos uma diferença enorme, agora no final da semana só temos um saquinho pequeno de lixo”, reconhece Ana Caetano.

Agora, a mais recente novidade de Inês é cobrar – literalmente – a quem toma uma medida prejudicial ao ambiente. “Aquele que não cumpre, um euro. Tenho um garrafão para encher. Por exemplo, é de dia e alguém acende a luz da casa de banho, um euro. Ou quando o meu pai faz café e não desliga da corrente, mais um euro”, exemplifica.

No final, o dinheiro será para doar a instituições ou para Maria Inês ir a África. Isto porque, para o futuro, a Menina do Mar já tem dois objetivos: um é ir fazer voluntariado para um campo de refugiados no continente africano; o outro é ser bióloga. “Nós somos a geração futura e nós é que temos de tratar da nossa casa”.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição imprensa de maio de 2021

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. Rog 15 Maio, 2021, 19:31

    Sem palavras, mas com um enorme respeito pela determinação da Maria Inês e vergonha de mim próprio por não ter a sua força. Que grande lição.
    Façam chegar esta reportagem (muito bem escrita) ao PR e ONU. Afinal os adultos também conseguem mudar, como conseguiram os pais da Maria Inês.

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  2. ANA MATOS 15 Maio, 2021, 18:18

    Querida Maria Inês
    É lindo e muito louvável o que fazes, pela tua dedicação ao Planeta que é a casa de todos nós.
    Numa sociedade em que o TER é mais valioso do que o SER, és um exemplo a seguir.
    Desejo que os teus sonhos venham a ser realidade.
    Bjs
    Ana

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  3. Jorge Rosa 15 Maio, 2021, 17:54

    Muito bem, Maria Inês. Um exemplo para os adultos!
    Quanto aos políticos, esses não te darão nenhuma medalha, pois os nossos verdadeiros heróis nacionais, não as recebem.

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