A oligarquia de Putin

Roberto Medeiros

Por que Vladimir Putin se tornou tão poderoso? Além das ideias nacionalistas, do discurso de uma “grande Rússia” e da repressão à oposição e à mídia independente, ele e seus antecessores tiveram ao longo dos anos o apoio dos chamados oligarcas: homens que passaram a dividir o controle da riqueza russa após o fim da união soviética nos anos 90.

A Rússia que agora ressurge, embora tenha recuperado o seu poderio militar, está ideologicamente falida. Vladimir Putin é, sem dúvida, popular tanto na Rússia como em diversos movimentos de direita em vários pontos do mundo, mas falta-lhe uma mundividência global que possa apelar a portugueses desempregados, brasileiros desiludidos ou estudantes dos EUA sonhadores.

A Rússia oferece um modelo alternativo à democracia, mas o seu modelo não é uma ideologia política coerente. É, isso sim, uma prática política em que um grupo de oligarcas monopoliza a maior parte da riqueza e do poder do país, e depois usa o seu controlo dos meios de comunicação para esconder as suas atividades e consolidar a sua autoridade.

A democracia baseia-se no princípio de que é possível enganar toda a gente em alguns momentos, ou enganar algumas pessoas a todo o momento, mas não é possível enganar toda a gente a todo o momento. Se um governo for corrupto e não melhorar a vida das pessoas, um número suficiente de cidadãos acabará por se aperceber disso e trocará o governo por outro.

Mas na Rússia de Putin o controlo dos meios de comunicação por parte do governo mina a lógica, porque impede os cidadãos de se aperceberem da verdade. Através da sua monopolização dos media, a oligarquia russa vigente pode culpar repetidamente os outros pelos seus fracassos e desviar as atenções para ameaças externas, reais ou imaginadas. É o que está a acontecer no momento.

A Rússia repete todos os dias e desde o dia 24 de fevereiro – a ameaça imaginada – que o motivo de Putin para a investida militar na Ucrânia prende-se com, “acabar com o genocídio contra russos” em duas áreas – as que ele, reconheceu como independentes da Ucrânia (Donetsk e Luhanski), além de “desmilitarizar e desnazificar” o país. Por mais que se possa explicar as reivindicações de Putin, nada justifica uma saída não diplomática entre as nações. Faz todo o sentido a Rússia não querer militares e misseis em suas fronteiras com a Ucrânia e nem a Nato, mas nada justifica uma guerra. Quem sofre é o povo. Por isso Joe Biden o apelida de carniceiro por crimes de guerra e genocídio pela destruição da Ucrânia e morte do seu povo.

Quando se vive sob o jugo de uma oligarquia destas, ao fabricar uma infindável sequência de crises, uma oligarquia corrupta consegue prolongar o seu domínio indefinidamente. Putin alterou uma lei que o vai permitir liderar a Rússia até 2035.

Ao contrário de outras ideologias que anunciam orgulhosamente a sua visão, as oligarquias instaladas, nas suas atividades, tendem a usar outras ideologias como disfarce. Assim, a Rússia finge ser uma democracia (e não uma autocracia), e os seus líderes proclamam fidelidade aos valores do nacionalismo russo e do cristianismo ortodoxo em vez da oligarquia.

 A extrema direita francesa de Marie Le Pen pode depender da ajuda russa e manifestar a sua admiração por Putin, mas mesmo os seus eleitores não gostariam de viver num país que seguisse o modelo russo – um país com corrupção endêmica, mau funcionamento dos serviços, sem justiça verdadeiramente dita e uma desigualdade galopante.

Segundo algumas estimativas a Rússia é um dos países mais desiguais do mundo com 87 por cento da riqueza concentrada nas mãos dos dez por cento mais ricos. Quantos apoiantes querem imitar este padrão de distribuição de riqueza, em França, de Maria Le Pen, e em Portugal, do PCP de Jerónimo de Sousa e Chega de André Ventura?

Os seres humanos votam sem pensar. Nas minhas viagens pelo mundo, encontrei várias pessoas em vários países que queriam e emigraram para os EUA, Canadá, Austrália, Bermuda, Alemanha e França. Conheci alguns que queriam mudar-se para a China ou o Japão. Mas ainda estou para encontrar alguém que sonhe emigrar para a Rússia.

Categorias: Opinião

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