A origem pré-concelhia dos topónimos lagoenses. Protagonistas e particularidades dos Remédios, Santa Cruz e Nossa Senhora do Rosário

Igor Espínola de França
Coordenador de Educação e Cultura
Câmara Municipal de Lagoa

A 11 de Abril de 1522, a elevação de Lagoa a Vila constitui um reconhecimento do esforço civilizacional, que há muito vinha sendo empreendido nesse território. O processo de ocupação foi liderado pelo capitão do donatário das ilhas de Santa Maria e São Miguel, Gonçalo Velho Cabral, em representação do infante D. Henrique, donatário e grão-mestre da Ordem de Cristo, instituição responsável pelo povoamento e exploração das ilhas redescobertas no Atlântico. Iniciado pelo extremo sudeste da ilha, no início da década de quarenta do século XV, os primeiros povoadores fixam-se na Povoação Velha, e a partir daí empreendem uma progressiva ocupação da ilha. Em 1460, quando morrem ambos aqueles protagonistas, a diligência de humanização micaelense é incipiente, aspecto ao qual não terá sido indiferente o facto de se tratar de uma ilha com um historial geológico mais dinâmico do que a de Santa Maria, onde o incremento de povoadores se encontrava mais atrasado. Contudo, em 1522 estavam já estabelecidas comunidades nos lugares dos Remédios, Santa Cruz e Rosário (Porto dos Carneiros), cujos topónimos perduraram até aos nossos dias.

1) Delimitação corresponde à Dada de Pedro Velho. 2) Ermida de Nossa Senhora dos Remédios. 3) Vulcão.

Gaspar Frutuoso informa-nos que Gonçalo Velho ambicionava deixar como seus herdeiros nas capitanias os seus sobrinhos maternos, Nuno Velho de Travassos e Pedro Velho de Travassos, respectivamente como capitães de Santa Maria e São Miguel, (Frutuoso, Livro IV, capítulo III, página 14), ilhas onde efectivamente se fixaram. Contudo, a sucessão veio a recair sobre um seu outro sobrinho, João Soares de Albergaria. Nuno e Pedro, filhos de Violante Velho Cabral e Diogo Gonçalves de Travassos, veador e escrivão da puridade do infante D. Pedro, duque de Coimbra, parecem ter sido prejudicados pela proximidade de seu pai àquele príncipe. Efectivamente, as tensões entre o rei D. Afonso V e o seu tio e regente D. Pedro culminarão na batalha de Alfarrobeira, ocorrida a 20.5.1449, contenda em que faleceram o regente e Diogo Gonçalves de Travassos. Neste contexto parece admissível que o infante D. Henrique, que apoiara o partido do sobrinho, tenha beneficiado um outro familiar do seu capitão, embora não associado à facção derrotada. Certo é que Pedro Velho veio fixar-se no lugar que hoje conhecemos como Remédios, possivelmente antes do falecimento do tio. O seu assento de terra foi uma grande dada de sesmaria, do mar (terras baixas) à serra (terras altas), de modo a garantir a complementaridade entre áreas cultivadas, pastos e florestas, necessária à viabilidade da exploração agrícola. Frutuoso refere que Pedro Velho construiu junto da sua casa uma ermida que invocou a Nossa Senhora dos Remédios (que estava concluída a 19.11.1511, data em que fez testamento), erguida a meio da sua dada, informação que nos permite reconstituir os seus limites sul e norte. A extrema poente é claramente definida pela Grota de João Luís (João Luís Cabral, 6.º neto de Pedro Velho, e administrador da terça vinculada a 24.1.1556 por sua tia tetravó Filipa Travassos, neta de Pedro Velho). A ausência de acidentes físicos a nascente dificulta a reconstituição desse limite, pelo que o desenho proposto é hipotético, e baseado na configuração do cadastro hoje existente. A fixação deste povoador, acompanhado de familiares e outros indivíduos, e a construção da ermida que “empresta” o seu nome ao lugar, antecede a criação do concelho e garante um ininterrupto processo de humanização num lugar interior, característica incomum no processo de povoamento linear ao longo da orla costeira, que caracteriza o ocorrido em São Miguel.

Rodrigo Afonso documenta-se nas Saudades da Terra, vindo na primeira leva de povoadores, em companhia de Gonçalo Vaz Botelho, (navegador que teria encontrado grande número de carneiros na baía que depois ficou conhecida como Porto dos Carneiros). Sabemos que este Rodrigo Afonso era natural de Faro, e que foi cavaleiro de África, no tempo do rei D. Afonso V, (Frutuoso, L. IV, XX, pág. 86), monarca que empreende um ciclo de expansão africana delimitado pelas conquistas de Alcácer Ceguer, em 1458, e de Arzila, em 1471. A referência do cronista ao facto deste povoador ter integrado o grupo dos primeiros aqui chegados parece favorecer um assentamento imediatamente posterior à conquista daquela primeira praça, ou seja, a cerca de quinze anos do assentamento inicial na Povoação Velha, e ainda no exercício da capitania de Gonçalo Velho. É também Frutuoso a informar-nos que Rodrigo Afonso recebeu uma dada de quinze moios de terra em Rabo de Peixe. Estes dados referem-se certamente a um homem jovem, que mais tarde se documenta no Arquivo dos Açores (XIII, pág. 344), em 1492, a dotar a sua filha Branca Rodrigues para casar. À semelhança de outros povoadores que integram a elite terratenente, Rodrigo Afonso fará uma grande doação à igreja, certamente com o propósito de garantir o perdão pelas faltas terrenas, e assim alcançar o paraíso para a sua alma imortal. Esta doação, referida pelo padre João José Tavares, consistiu em sessenta e dois alqueires e meio de terra em Rabo de Peixe, terras que ficaram conhecidas como “de Santa Cruz”, e que foram doadas à fábrica da igreja que depois viria a ser a Matriz da Lagoa (Tavares, pág. 101).  Trata-se de uma dádiva reveladora da percepção da centralidade que o território onde nasceu a Lagoa tinha à época no contexto micaelense, para um homem cuja base fundiária mais relevante estava em Rabo de Peixe, cujos descendentes se fixaram nessa localidade, mas também em Vila Franca, Ribeira Grande, e Ponta Delgada. Outro aspecto importante é a escolha de Santa Cruz para invocação da igreja, porque Rodrigo Afonso é referido como tendo sido feito cavaleiro em África. É muito provável que sendo a Ordem de Cristo, a instituição responsável pelo povoamento das ilhas, este grau de cavalaria corresponda à sua integração naquela, o que bem poderia ter determinado a sua afeição pela igreja que dotou tão generosamente.

Por Frutuoso sabemos que Álvaro Lopes, do Vulcão ou dos Remédios, veio da Madeira no tempo do capitão João Rodrigues da Câmara, pelo que a fixação deste povoador pode ser delimitada entre 1497 e 1502, período em que aquele capitão do donatário exerceu o cargo. Dele recebeu uma importante dada de sesmaria do mar à serra junto àquela que pertenceu a Pedro Velho, (Frutuoso, L. IV, XX, pág. 89). A linha de separação entre as duas parcelas era a aludida Grota de João Luís, sendo o seu limite sul “um pico não muito alto, à maneira de lomba” onde foi depois erguida a forca, que veio a ser “instrumento de justiça da mesma vila” da Lagoa, elevação que se alonga para sul da Quinta da Quintã. A parcela desenvolvia-se para norte até à cumeeira da ilha, incorporando o “Vulcão” elevação onde ainda hoje existe a Quinta com essa designação, propriedade em que, no século passado, existiu a fábrica de espadana. Nas palavras do cronista Álvaro Lopes passou aí alguns anos solteiro, tendo-se depois casado e deixado muita descendência. Descendentes do seu filho primogénito administraram o vínculo da Grota, constituído por catorze alqueires de terra e vinha na “Grota da Lagoa”, que podemos identificar com a antedita, fronteira entre as duas dadas, propriedade que se manteve nessa linha genealógica até ao século XIX. No seu testamento aberto a 12.6.1545 declara ter construído a ermida de Santa Maria do Rosário, templo erguido a norte do Porto dos Carneiros, no local onde hoje existe a igreja paroquial de Nossa Senhora do Rosário, que determinou o nome atribuído à freguesia criada a 5.4.1593.

Assim, estes três topónimos ancestrais do que viria a ser o concelho de Lagoa referenciam importantes marcos territoriais, que se identificaram com os primeiros templos construídos nas suas jurisdições, sendo os dois primeiros anteriores à criação do concelho, e o terceiro antecedente da elevação do lugar a freguesia.

Crónica publicada na edição impressa de maio de 2022

Categorias: Opinião

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