A pandemia fez aumentar o número de animais abandonados na Lagoa? “Antes pelo contrário”

O veterinário municipal frisa que o número de animais abandonados não aumentou e que devido à pandemia até se sentiu um ligeiro aumento nas adoções. Este mês arranca uma nova campanha de esterilização

Carlos Mota, Miguel Amaral, Sara Tostões, Mário Vaz e Leandro Ponte são os responsáveis por cuidar diáriamente de Anette (aqui na companhia de Sara) e de todos os animais do CRO © DL

Ao longo dos últimos meses, um conjunto de notícias revelou que o abandono de animais aumentou em várias zonas do país, uma consequência paralela das profundas fraturas sociais provocadas pela pandemia da covid-19.

Pode ainda ser cedo para cantar vitória, uma vez que há até quem diga que os efeitos mais dramáticos da crise ainda estão por vir, mas na Lagoa, ao contrário do que aconteceu em tantos outros territórios, não se registou um aumento do número de animais abandonados. É o que diz o veterinário municipal, Miguel Balacó Amaral.

“Temi que nos períodos de confinamento houvesse um aumento grande de animais abandonados. Felizmente, aqui na Lagoa, só para falar da Lagoa, não tenho essa perceção, antes pelo contrário”, afirma em declarações ao Diário da Lagoa (DL).

Apesar de ser difícil de quantificar, a perceção de quem está no terreno revela que a pandemia até levou muita a gente a procurar um animal de companhia. Consequências do teletrabalho, que motivou um estilo de vida mais sedentário e transformou os lares domésticos no principal espaço do dia a dia.

“Houve pessoas que por estarem tanto tempo em casa ou em teletrabalho passaram a trabalhar de casa, talvez por isso tenham tido a necessidade de arranjar um animal de companhia, mas isso sou eu a especular”, afirma, acrescentando, também, que “talvez a presença” dos filhos em casa possa ter motivado a procura por um animal.
Este aumento da procura terá consequência ou será um epifenómeno? Só o futuro o dirá. “Se agora vamos ter o reverso da medalha e agora as pessoas vão aparecer a dizer que já não querem e não podem manter o animal? Não sei dizer. Tenho algum receio disso também”, reconhece o responsável.

Mas enquanto o futuro pós-pandémico – apesar de cada vez mais próximo – continuar imprevisível, já existem alguns fenómenos diferentes do habitual registados nos últimos meses. Um deles: muita gente tem recorrido ao Centro de Recolha Oficial de animais da Lagoa (CRO) por se estar a mudar para uma habitação mais pequena. “Estão a passar de uma habitação com condições para ter animais de companhia e vão para apartamentos mais pequenos ou para quartos de familiares, onde não têm condições para terem o animal de companhia que tinham antes”, explica.

Se as razões para tal fenómeno podem ser explicadas pelas circunstâncias económicas, existem outras tendências “muito mais estranhas”, para as quais é difícil encontrar uma justificação, reconhece o veterinário municipal. “Outro fenómeno que tenho notado, esse já estranho um bocado, é que continua a haver interesse na adoção de determinados canídeos, cães de algumas raças mais pequenas, e ao contrário do que eu esperava tem sido muito difícil a adoção de gatos”.

 

Um canil cheio com 73 animais

Miguel Balocó Amaral lembra também que desde o início da pandemia da covid-19 a Câmara Municipal de Lagoa lançou um programa que assegurava o alojamento provisório a animais de companhia no caso de doença, incapacidade ou isolamento, dos donos. Um recurso que, “felizmente”, não chegou a ser solicitado.

Para Balocó Amaral, o facto de a Lagoa não ter registado um aumento do número de animais abandonados não é mera coincidência: é resultado das políticas seguidas nos últimos anos no concelho. Indo a números: em 2020 entraram no canil da Lagoa 97 animais. Nos anos de 2017 e 2018, o número de entradas foi superior a 500. “Importa destacar as sucessivas campanhas massivas que temos feito, quer de identificação animal, quer de castração de animais, temos intervido muito a montante”.

Palavra do homem que é veterinário municipal do concelho desde 2004 – com um pequeno interregno entre 2012 e 2013, período, onde, ainda assim, continuou a apoiar as políticas animais no município. Um exemplo concreto espelhado pelos dados é o número de animais esterilizados no último ano, superior a 650. “O ano passado nós castramos 653 animais, isso era mais ou menos o número de animais que iam parar ao canil em 2004, 2005 e 2006”.
Em 2021, as castrações já abrangeram cerca de 280 animais. Números registados ainda antes do lançamento de uma nova campanha de esterilização, que vai arrancar “garantidamente” em setembro. Após a campanha, o veterinário municipal prevê que o número deste ano seja semelhante ao do ano passado.

“Este ano vai pelo mesmo caminho do ano passado: vamos intervir em 600 ou 700 animais, o que é muito significativo num concelho com perto de 15 mil pessoas”, assinala, explicando a importância de manter o acompanhamento dos animais domésticos: “os animais sendo identificados, vacinados e esterilizados não vão ter reproduções indesejadas”. Um trabalho sustentando ao longo de anos, defende, e que tem acompanhado a “diferença gigantesca” da postura da sociedade em relação aos animais – “para o bem e para o mal”.

“Não há termos de comparação em relação a tudo: à própria postura das populações, dos detentores dos animais e à evolução dos serviços oficiais”, diz, recordando que quando assumiu o cargo pela primeira vez “não existia canil municipal devidamente licenciado”.

Outra diferença reside no abate dos animais de companhia ou errantes, que atualmente já é proibido, uma “questão que já não se coloca” em “nenhum canil da ilha de São Miguel”, assegura.

Também se sente diferença no número de animais recolhidos da via pública. Há uns anos “muito poucos animais eram reclamados pelos detentores”, pelo que a maioria acabava abatida. Agora, a “situação evoluiu muitíssimo”.

“Nós de milhares de animais recolhidos da via pública passamos para dezenas. Eu tenho o canil cheio, mas é porque o canil é finito. Situações em que os animais não são reclamados são muito poucas e muito poucos são os animais não identificados”. Atualmente, o canil da Lagoa tem 73 animais: 52 cães e 21 gatos.

Ainda assim, Miguel Balocó Amaral, que rejeita “fundamentalismos”, advoga que “há muito para fazer” quanto ao bem-estar animal. A começar pelas pessoas que “despejam” os animais no canil e que pensam que um animal “pode estar acorrentando a uma corrente de meio metro apesar de ter o prato cheio de comida”.

“O que é que ainda falta fazer? É fazer com que o centro de recolha não fosse necessário. Já viu a evolução civilizacional que significaria?”. A questão fica no ar: porque o sonho, mesmo que utópico, comanda a vida.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2021

Categorias: Reportagem

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