A pandemia retirou-lhe liberdade?

A opinião de seis cidadãos que vivem ou trabalham na Lagoa

Nuno Benevides
31 anos, administrativo

“Sim, quando as coisas pioram temos de nos privar das pessoas que gostamos. Quando as coisas estão melhores, fazemos uma visitas com cuidados mas com a vacinação acho que vai correr melhor. Ficámos privados de tudo durante muito tempo, da família, de momentos ao ar livre, das brincadeiras que fazíamos, a parte social ficou de lado. Em termos laborais, há o teletrabalho que é um bocadinho pior, não é a mesma coisa trabalhar em casa do que estar no nosso posto de trabalho.”


Irene Silva
78 anos, reformada

“Eu vou fazer 79 anos e estou muito fechada em casa, estou sozinha, sou viúva e não tenho ninguém. Tenho um filho que não está cá e tenho uma outra filha que está em Lisboa. A pandemia deixou-me muito em baixo. Fui seguida por uma psicóloga, gostei muito e arranjaram-me um centro de dia no Cabouco mas fechou tudo outra vez, não sei quando é que o centro vai abrir, quando abrir estou pronta para sair de casa. Esta pandemia limitou-me em tudo e fez-me muito mal, tenho fibromialgia, tenho osteoporose, estou sempre nos médicos, centro de saúde e é complicado fazer tudo agora e com estas máscaras é ainda pior.”


António Reis
26 anos, vendedor

“Retirou-nos autonomia, retirou-nos liberdade em família. Num passeio ao ar livre há sempre aquele receio de quantas pessoas vão estar. Tenho uma filha com um ano e meio e ela cresceu no confinamento. Ela tem quase tanto tempo de vida quanto a pandemia. Não foi nada fácil, principalmente para a minha mulher nos primeiros meses em que isto era um inimigo novo e agora vamos aprendendo a lidar com ele. As crianças ficaram muito privadas da liberdade. Felizmente temos um quintal que para ela é bom. Só há um mês, quando tirei férias, é que ela conheceu a praia, quando antes ir à praia era uma coisa comum e normal ainda antes de um ano de vida. Há sempre aquele receio se existe alguém infetado se tem o vírus ou não, não é fácil.”


Renata Vale de Medeiros
31 anos, repositora

“Sim, em tudo: sair, criar a minha filha, estar com a família. Tenho uma bebé de dois anos e ela passou muito tempo em casa com esta pandemia, ela não convive com a família, não sai para certos sítios. Há sempre medo de sair com ela, sei lá quando é que ela vai levar a vacina, será que a vacina é suficientemente boa para nos proteger? Trabalhar de máscara também é terrível, no início usávamos também viseiras. Todo o dia com máscara é péssimo, até a liberdade para respirar mudou, a qualidade da pele mudou, tudo.”


Nuno Maiato
44 anos, padre

“Não, não me tirou liberdade nenhuma. Trouxe-me muitos constrangimentos mas para me retirar a liberdade teria de não fazer sentido aquilo que eu deixei de fazer. Livremente eu aceitei as limitações que me foram apresentadas. Tudo o que deixei de fazer foi por amor, por respeito aos outros e isso não mexeu na minha liberdade, trouxe-me dissabores mas a minha liberdade ficou intacta. Obviamente que foram colocados novos limites mas a liberdade é mais do que isto. É aquela velha história de alguém que mesmo numa cadeia se sente livre e é isto que acho que aconteceu, a todos os níveis, também espiritual. Recordo-me de um bispo de um país asiático que levou muitos anos preso por uma questão de liberdade religiosa mas ele celebrava missa todos os dias, espiritualmente, na cadeia. Pessoalmente, vejo a liberdade para além destes limites visíveis que temos na nossa vida.”


Sílvia Correia
42 anos, técnica de ação educativa

“Alguma. No nosso dia a dia o que fazíamos e dávamos como adquirido não conseguimos fazer por precaução e para o bem de todos mas sinto que há coisas que não fazemos mesmo. Não socializamos como queríamos. Transmitir afetos, que é tão bom, transmitimos de outra forma, com distância e isso privou-nos de muita coisa. A liberdade de circulação ficou diferente. Tem de haver uma consciencialização das pessoas e se houver isso estamo-nos a privar por um bom motivo. Não é bom mas é para o bem de todos. O que mais me custou talvez tenha sido não estar com a família, principalmente com os mais idosos que precisam cada vez mais de companhia, da nossa presença, custou-me a mim e custou-lhes a eles.”

Vox Pop na edição impressa de junho de 2021

Categorias: Opinião

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