“A qualquer hora do mundo podemos vir para cá”

Fazem aquilo que muito poucos estariam dispostos a fazer e, na morte, quase nada os surpreende. Como é ser coveiro em tempo de pandemia?

Paulo Fragoso (à esq.) e Paulo Vital (à dir.) são os dois coveiros do cemitério municipal / FOTO DL

No maior cemitério do concelho da Lagoa, Paulo Vital, 42 anos, conhecido por todos como “Malassada”, e Paulo Fragoso, 38, não coincidem na idade mas coincidem no nome próprio, na naturalidade – são os dois de Santa Cruz – na leveza com que encaram o trabalho que têm de fazer, e não só. São os dois coveiros no cemitério da freguesia onde cresceram. Ambos passam há vários meses pela pandemia – já lá iremos.

Desde pequenos que ambos se habituaram a lidar com um tema que costuma afastar até os mais curiosos. E a naturalidade com que falam daquilo que fazem, fá-los recuar, sem esforço, à infância.

Cemitério municipal fica localizado na freguesia de Santa Cruz / FOTO DL

“Fui criado aqui dentro, desde pequenino. Quando morria um melro, eu cortava as cortinas da minha avó, cobria o melro e fazia os prantos, velava e tudo”, começa por contar, a rir, Paulo Vital. As memórias do colega também passam pelo espaço que é agora o seu local de trabalho. “Eu também fui criado aqui com os donos destas terras à volta. Tinha um cão ali e eu vinha por aqui dentro e saltava a parede, portanto, muitas vezes, em pequenino eu via o que se estava a passar aqui, às vezes punha-me em cima das paredes a ver abrir as covas”, recorda Paulo Fragoso.

Paulo Fragoso, coveiro há sete anos, termina a abertura de uma cova / FOTO DL

Para Paulo Vital, as memórias vão ainda mais longe. Volta a falar do quão chateada ficava a avó, por ficar sem cortinas, que também cortava para fazer gravatas. Era com pedaços de pano, “enrolados ao pescoço” que prestava a sua homenagem a quem partia. “Quando morria alguém em casa eu era o primeiro a entrar lá dentro”, garante Vital. Quando a carreta – carro de duas rodas que servia para transportar os caixões – estava à porta de alguém, Paulo Vital já sabia ao que ia: “eu estava sempre a ver onde estava a carreta, para ir lá, tinha uns sete ou oito anos”.

Paulo Fragoso é coveiro há sete anos enquanto Paulo Vital assume as mesmas funções há 13. Ambos trabalham em equipa e cada um já conhece bem aquilo que faz melhor. “Eu sou mais dos pormenores”, atira Fragoso, já quase a terminar de abrir uma cova. “Agora temos de fazer uma ´prumada´ [técnica que permite garantir a verticalidade do terreno]. Esta está super difícil, está super diagonal mas é o retoque da sabedoria que a faz endireitar”, garante Fragoso: “se não estiver completamente vertical o caixão não entra”.

Apesar do árduo trabalho a boa disposição está sempre presente / FOTO DL

Entre uma e outra tarefa, a boa disposição entre os dois é constante, estejam a fazer o que estiverem. “Ele pensa que está guarnecendo paredes”, diz a rir Paulo Vital: “oh ele está pondo gel no cabelo, estás vendo?”, nota, depois de ter visto o colega a pôr água no cabelo, numa fonte próxima da campa onde estão a trabalhar.

É um trabalho difícil? “Não!”, respondem os dois em uníssono e com toda a convicção que têm. Vão para casa a pensar no que viram? A resposta é de novo um simultâneo “não!”, novamente convicto. “A gente vai para casa mas é a pensar nos vivos, quem está morto não mexe com ninguém”, garante Vital que acaba por lamentar: “é um trabalho que deveria ser mais bem pago”. O desabafo é completado por Fragoso: “a qualquer hora do mundo podemos vir para cá”, completa Fragoso.

Paulo Vital diz que não houve nenhuma morte confirmada por covid-19 / FOTO DL

Pandemia não trouxe grandes mudanças

Apesar do mundo ter dado uma volta de 180 graus com a covid-19, a todos os níveis, o dia-a-dia dos dois coveiros de Santa Cruz não teve grandes alterações. Para além da máscara, que passaram a ter de usar, e da redução do número de pessoas por funeral, que estão “limitados a 20 pessoas”, garante Paulo Vital, a pandemia não veio mexer muito com aquilo que os dois já faziam no cemitério. “Há mais de um mês que não temos tido muitas mortes, o trabalho mantém-se igual ao que já tínhamos”, garante Paulo Vital. “Já enterramos suspeitas de covid-19”, explica Fragoso, mas ainda nenhuma morte confirmada pela doença [até à data de fecho desta edição]. Mas estão preparados para o fazer. Em caso de morte por covid-19, ambos têm, num anexo do cemitério, fatos de proteção individual, conhecidos como EPI´s que terão de utilizar para enterrar a vítima. Nesse caso, terão de seguir um protocolo de segurança definido em articulação com as autoridades locais e de saúde.

O único dia mais simpático, desde que começou a pandemia, acabou por ser o passado Dia de Todos os Santos, 1 de novembro de 2020. Enquanto volta a remexer na terra, com a ajuda de um sacho, Vital conta: “recebemos 500 euros de gorjetas nesse dia, mesmo com a crise não foi ruim, para o ano não há”. Mas o outro Paulo, Fragoso , garante que sempre que são recompensados por alguém, dividem o valor pelos dois.

Paulo Fragoso tem tatuado num dos braços o rosto do filho de 5 anos / FOTO DL

Cemitério recebe visitantes todos os dias

Para além da manutenção habitual que requerem as mais de 700 covas do cemitério de Santa Cruz, alguns particulares pedem-lhes ajuda. “Fora de horas fazemos os ´garetos´, montamos pedras, pequenos trabalhos que nos pedem, a gente faz”, conta Fragoso que tem, tatuado, num dos braços o rosto do filho de 5 anos. Quando lhe perguntámos se ainda lhe custa assistir ao sofrimento de quem se despede de quem parte, Fragoso responde que não. “Não podemos trabalhar a pensar no sofrimento dos outros, ver as pessoas chorar já não nos afeta”, diz o coveiro. Mas, ainda há casos e casos, e quando são crianças, “toca-nos porque elas tinham a vida pela frente”, garante Fragoso.

Os dois funcionários do cemitério de Santa Cruz podem abrir cada cova a cada sete anos. Garantem que já nada do que encontram os impressiona. “Estamos habituados, isto é tudo normal para a gente”, assegura Paulo Vital, enquanto alerta um visitante: “senhor, tem que pôr a máscara”.

Todos os dias, várias pessoas fazem questão de visitar quem ali têm. “Temos um senhor que vem todos os dias, fins de semana, feriados, dias santos. Vem trazer uma velinha à campa da esposa, às vezes até vem duas vezes por dia. O que vem de mais longe, todos os dias é um senhor da Atalhada”, conta Fragoso.

O trabalho que desempenham é essencial na vida e na morte / FOTO DL

A convicção e a leveza com que os dois coveiros trabalham e cumprem as tarefas que têm definidas para o dia são o exemplo de quem gosta verdadeiramente do que faz. O trabalho de fim de linha que desempenham não tem hora marcada e é essencial na vida e na morte. Podem ser chamados às nove da manhã como à meia noite ou às três da manhã. Não se queixam disso nem lamentam a profissão que acreditam, lhes escolheu. E, se dúvidas restassem sobre o amor e o brio que os dois têm pelo que lhes passa pelas mãos, numa das árvores da canada que desemboca no cemitério, mora um exemplo que salta à vista. No interior de um dos troncos está a imagem de Nossa Senhora de Lurdes. A ideia e o trabalho foi de Fragoso: “isto começou a apodrecer e numa tarde peguei no escopo e comecei a cavar”. À pequena gruta juntou a imagem e umas flores . “Sou muito criativo, faço coisas do outro mundo!”, garante. Mas a obra de arte ainda não foi dada por terminada. “Falta o acrílico” para proteger a pequena imagem da chuva. Até lá, ele e Paulo, vão continuar a adicionar a leveza e boa disposição que os caracterizam, ao trabalho, essencial mas muitas vezes invisível que não lhes pesa os dias.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2021)

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