A Receita Química para a Felicidade

Rafael Teixeira
Psicólogo

Imagine que a comunidade científica internacional lançaria no mercado uma nova pilula – a “pilula da felicidade”, capaz de produzir instantaneamente a emoção alegria e eliminar definitivamente estados de valência emocional negativa. Imagine que esta “pílula da felicidade” estaria disponível, neste momento, em qualquer superfície comercial com um custo equivalente ao de uma garrafa de água com 25 centilitros. Será que compraria?

A questão foi lançada pelos investigadores Power e Dalgleish (2016), na obra Cognition and Emotion – from order to disorder. Num dos estudos de investigação, 68% das pessoas inquiridas responderam que comprariam a “pílula da felicidade”, eliminando para todo o sempre emoções e sentimentos negativos de tristeza. E você, teria a coragem?

De acordo com os especialistas (Power & Dalgleish, 2016), é normal sentirmo-nos atraídos pela existência de algo semelhante, pois estamos naturalmente programados para elaborar movimentos rumo à obtenção de prazer, saúde e bem-estar. Por outro lado, também é igualmente comum, que os estados de valência emocional negativa como a tristeza, apatia, repulsa, irritabilidade, aborrecimento, nervosismo ou sensação de falta de energia sejam frequentemente conotados de modo negativo e, por isso, alvo de rejeição, tentativas de eliminação pouco adaptativas e fuga por parte da maioria das pessoas.

Relembro-lhe que precisamos da emoção tristeza para sobre (Viver) em toda a nossa plenitude. O sofrimento faz parte da experiência de Ser humano e, como tal, é necessária para um processo contínuo de adaptação, transformação e crescimento.

Felizmente, não existe uma receita estandardizada para a felicidade, nem tão pouco uma “pilula mágica”, mas há um modo fácil e natural de estimular a química da alegria no nosso cérebro. Ou, por outras palavras, de promover as reações químicas ligadas à transmissão de dopamina, serotonina, oxitocina e endorfinas no sistema nervoso, fazendo com que as tristezas na vida de todos os dias sejam mais bem suportadas.

A receita química para a felicidade contém ingredientes simples, baratos e acessíveis no mercado relacional e socioemocional da nossa vida. Para um aumento da dopamina no cérebro, procure realizar exercício físico e comemorar as suas conquistas diárias; o incremento da oxitocina pode ser conseguido através das práticas de meditar e rezar, de atos de generosidade gentil ou, simplesmente, de abraçar alguém; agradecer todos os dias, desfrutar da natureza e recordar momentos especiais podem estimular a produção de serotonina; já as endorfinas podem ser facilmente despertadas através dos nossos hobbies e de gargalhadas com os(as) amigos(as) – estas são apenas algumas estratégias práticas de autocuidado promotoras da felicidade e bem-estar que pode tentar introduzir no seu dia-a-dia.

Como diria Eugénia Brito Raimundo (2021), “somos nós os protagonistas de qualquer mudança que possamos desejar. Posso não poder alterar as caraterísticas da situação, mas tenho controlo sobre a forma como a perspetivo”. Eu sou o protagonista da minha felicidade!

Artigo de opinião publicado na edição impressa de outubro de 2021

Categorias: Opinião

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