“A tropa a mim deu-me tudo”

O barbeiro lagoense que esteve 6 meses em missão no Kosovo ocupa os dias a fazer o que aprendeu no quartel

Em 2006 o barbeiro lagoense integrou a missão de paz portuguesa enviada para o Kosovo
Foto DL

O som da máquina de cortar cabelo é ininterrupto na conversa entre Filipe Martins, de 37 anos, e os clientes na pequena barbearia junto ao mar, perto do campo do Operário, na freguesia do Rosário. No interior, não faltam os primeiros desenhos feitos pelos filhos colados nas paredes e os cachecóis de várias cores: “são todos oferecidos, todos, uns são de amigos, outros são de jogadores”, conta o barbeiro que se formou na tropa e que segue de perto o futebol. “Sou benfiquista a cem por cento, gosto muito de futebol, mas não discuto com ninguém por causa do futebol”, garante.

“Os homens no Kosovo disparavam por tudo e por nada”
Filipe, mais conhecido por Martins, nasceu a poucos metros do local onde trabalha há 10 anos. Do bairro dos pescadores, na Lagoa, saiu há 14 anos para o quartel dos Arrifes onde se fez militar e de onde partiu para o continente para uma força de intervenção rápida em Santa Margarida, perto de Tancos, no centro do país. “Tinha vindo uma nota para o exército a pedir militares para ingressar numa força internacional. Ninguém queria ir porque era uma tropa muito rígida”, conta, mas Filipe Martins e outros quatro açorianos decidiram arriscar. Em 2006 fez parte do grupo de 400 militares que deixou Portugal e foi em missão de paz para o Kosovo, numa altura em que o país tinha saído da
guerra há 7 anos.

“Era preciso alguém para ajudar a cortar o cabelo aos recrutas”
Na península balcânica, a coluna portuguesa onde Filipe Martins esteve 6 meses, era responsável pelo patrulhamento das áreas consideradas mais perigosas. O barbeiro conta que, apesar da missão ser de paz, nem tudo foi fácil: “passei os meus sustos, os homens no Kosovo disparavam por tudo e por nada, tínhamos de estar sempre atentos, a fazer revistas a pessoas, carros porque havia muito contrabando de armas”. Mas aquilo que mais marcou Filipe foi mesmo o que viu nas ruas onde “as carroças” circulavam lado a lado com os carros de alta cilindrada. “O mais difícil foi ver a miséria, as diferenças sociais que havia naquele país com zonas onde havia gente com muito dinheiro e outras zonas com crianças com muita fome”, conta. Depois de deixar o Kosovo, Filipe Martins regressa a casa mas é nos Arrifes que aprende o que sabe fazer. “O senhor Barroso, o barbeiro da tropa, tinha sido operado e era preciso alguém para ajudar a cortar o cabelo aos recrutas”, começa por contar Filipe, explicando que os grupos eram compostos por 50 a 70 elementos.

“Todos os dias há histórias novas”
“Um bocado por brincadeira, começaram por dizer «vai o Martins, vai o Martins», e assim foi, fiquei a gostar e comecei a aprender com ele”, conta. Depois ainda foi tirar um curso profissional e ficou como barbeiro da tropa e mesmo depois de deixar a vida militar, regressava como avençado porque não havia ninguém que fizesse o que faz. “A tropa a mim deu-me tudo, ensinou-me a ser homem, a ser um bom cidadão, deu-me a oportunidade de crescer como pessoa, ensinou-me a minha profissão”, explica o barbeiro que diz só ter a agradecer o percurso que teve.

“Há pessoas a quem corto o cabelo de graça porque sei que precisam”
Na barbearia onde passa em média 12 horas por dia, sabe de tudo. “As notícias ainda não estão acabando de sair e eu aqui já sei. Todos os dias há histórias novas, todos os dias”, diz enquanto não pára de cortar o cabelo a Artur Botelho. O jovem de 27 anos vai todas as semanas à barbearia Martins: “venho aqui há vários anos e desde o início que conheço o senhor Martins, tenho confiança nele e ele já sabe como eu gosto”. Artur nem precisou dizer que corte queria e o mesmo acontece com vários clientes que procuram Filipe Martins. “Eu tenho clientes de Nordeste, Maia, de todo o lado, isto passa a ser uma família, vamos desabafando uns com os outros e todos os dias eu aprendo”, conta o barbeiro.

Há 5 anos que Francisco Couto vem do Livramento à barbearia Martins: “gosto muito de vir pescar para esta zona e uma vez vi o senhor Martins, gostei do trabalho dele, é bem feito, e desde então que venho sempre aqui”.
As conversas com Filipe são uma constante no pequeno espaço onde os clientes ficam sentados em dois bancos, à espera da sua vez. “Há sempre gente que desabafa sobre as suas vidas, há conselhos que eu gosto de dar aos mais novos para eles seguirem”, explica o barbeiro que mantém o mesmo preço desde que abriu a barbearia. Cobra 2,5 euros por um corte de cabelo e não pretende aumentar o preço: “apesar de ser barato há pessoas a quem corto o cabelo de graça porque sei que precisam, famílias com vários filhos, sei que aquele dinheiro lhes vai fazer falta”, explica o barbeiro que garante sentir-se bem fazendo o que gosta e, sempre que pode, ajudando quem precisa.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de março de 2020)

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