Aeroporto não olha a meios…

Manuel Rodrigues
Professor

“Quando se chega ao Aeroporto de Ponta Delgada, encontramos duas opções de estacionamento. O P1 dedicado a estacionamento de curta duração e o P2 para estacionamentos de média ou longa permanência”. Esta é a informação que consta na própria página Web do nosso aeroporto. Mais informa o site que no “curbside das Partidas existe o Kiss&Fly, uma área especialmente reservada para paragens rápidas, sem custos até dez minutos”. Ora, é precisamente aqui que reside o problema! Tudo está radicalmente organizado, com o percurso fortemente armadilhado por pilaretes, para nos encurralar em direção ao último parque de estacionamento, sem que haja um único espaço gratuito! Qualquer um se sente extorquido. Passa-me cada coisa pela cabeça!…

Por acaso, já sentiram a sensação de viver em manada? Então vão ao nosso João Paulo II. Estacionem, na berma lateral, para além da faixa de rodagem da via de acesso ao aeroporto, garantindo que nunca perturbam o trânsito, nem colocam em causa qualquer segurança rodoviária, enquanto o avião não aterra, para não gastarem os 10 minutos destinados ao tal beijinho. É um desafio deveras hilariante.

Não é que isto me faz lembrar algo comum nas nossas pastagens. Qualquer turista poderá observar os nossos cães de fila a conduzir as vacas na mudança de pasto, mordendo-as nas canelas. Pois, no aeroporto, quando o turista parte desta ilha do arcanjo, habitada por um povo acaçapado, poderá recordar a encenação. Observa o aperto nos pneus emanado por pirilampos azuis, fiéis a quem lhes paga. E lá vamos nós para o curral, revoltados, mas calados e conformados, à boa maneira deste povo, que tudo consente. Gostava de ver esta situação na ilha de Jesus! E conheço bem os inúmeros lugares de estacionamento gratuito que por lá abundam, e bem, em redor daquele aeroporto…

E há mais, e pior! Chegados ao parque de estacionamento destinado ao beijo antes da partida, denominado por P1, aquele que se situa mesmo em frente à aerogare, podemos vivenciar uma grande desumanidade. Já experimentaram ir sozinhos levar um familiar ao aeroporto, ou ir buscar, tanto faz, que tenha mobilidade reduzida? Antes, treinem a condução de uma cadeira de rodas com toda a perícia, para a eventualidade de apanharem um dia chuvoso, o que é muito frequente nestas ilhas de bruma. É que não podemos deixar ou recolher o familiar à porta da aerogare, mesmo que esteja a chover, é uma regalia reservada aos transportes públicos e outras exceções bem conhecidas. Como somos, sempre, encaminhados para o dito parque, só nos resta uma hipótese. Das coberturas destinadas ao serviço MyWay, disponíveis no parque das partidas, temos de impulsionar a cadeira rodas, a caminho do check-in, segurar o guarda-chuva e acelerar, sem derrapar. Mas a onde estamos? Ninguém vê isto? Quando proclamamos uma sociedade inclusiva, a direção do Aeroporto de Ponta Delgada oferece maratonas desumanas aos que têm mobilidade reduzida. E como se não bastasse a falta de respeito, ainda colocam no seu site “mais perto, só se estacionasse na pista”?

Por que razão somos encurralados para parques de estacionamento pagos a peso de ouro, sem alternativa gratuita, construídos em terrenos que eram da Região e que foram graciosamente cedidos à ANA? Até quando vamos sentir a mão no bolso, quando nos deslocamos ao aeroporto?

É caso para dizer que, no aeroporto de Ponta Delgada, não se pode beijar de graça, se o abraço for demorado.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de maio de 2022

Categorias: Opinião

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