Além da geografia que nos delimita

Clife Botelho
Diretor

É um caderno de memórias, um diário de registos do dia a dia, é assim o Diário da Lagoa (DL) e foi esse o propósito da sua fundação em 2014. As pessoas perguntam-se porque se chama diário se o jornal lhes chega às mãos apenas uma vez por mês. Respondo que “é de facto diário mas online”, já que no papel a conversa desta publicação periódica, que aguarda pelo primeiro dia de cada mês para contar as suas histórias, é outra, é de conteúdo mensal próprio e único.

O jornalismo de proximidade dá voz às histórias do meio local. Dá a conhecer o que é típico e ao mesmo tempo intemporal e que, apesar de local, tem interesse para uma audiência global. O que importa, sem necessidade de alimentar egos, é o conteúdo que se valoriza em si mesmo. Para esse efeito, a equipa do DL é que decide o que publicar, quando e como, sem intenção de desvalorizar o que não considera notícia. Há inevitavelmente critérios jornalísticos com os quais nos definimos e que agora defendo como diretor.

Com o coração escolhi a Lagoa para viver, construir e realizar os meus sonhos. Sinto, por isso, o entusiasmo pelo privilégio de poder representar e orientar este jornal que muito quero perpetuar no tempo.

Em 1937, o jornal A Semana publicou a sua última edição e a Lagoa permaneceu sem uma publicação própria durante 77 anos, antes de chegar o DL. Demasiado tempo que pelo meio viu uma ditadura. Atualmente, num tempo em que a liberdade está de novo limitada, agora devido à pandemia, regressaria um período de trevas à imprensa local se o intuito não fosse trabalhar para que o DL tenha vida longa. O Diário da Lagoa enriquece a cidade, o concelho e os Açores enquanto voz ativa, independente e livre, e quem não compreende a importância deste facto, não sabe para que serve o jornalismo. Por isso este novo ciclo exige coragem para enfrentar novos desafios e obstáculos.

Mas há que relembrar que o jornalista, mesmo que perca a viabilidade de todos os seus sonhos, só precisa de uma caneta. Não é por acaso que a imprensa ganhou o cunho, e é de facto vulgarmente conhecida como o quarto poder, aquele que faz o escrutínio de todos os outros, procurando e vasculhando, em liberdade, nos quartos “onde moram mais perguntas do que respostas”, como bem referiu a ex-diretora do DL, Sara Sousa Oliveira, no seu último editorial.

Regemo-nos pelo equilíbrio, pluralismo de opinião e pelas notícias que contam. E este diário, que não é diário, é isso mesmo: notícias que contam.

Tranquilizem-se por isso e não esperem menos do que foi feito até aqui. Continuaremos com a nossa convicta dedicação em prol de uma verdadeira comunidade. Apesar deste jornal ainda só ter capacidade para se projetar um mês de cada vez na edição impressa, porque sobrevivemos com pouco, tinta e paixão pelo que fazemos é o que não nos falta.

Na verdade é um projeto com sede na Lagoa que, no fundo, procura nada mais do que a partir desta cidade e concelho, abrir as portas ao mundo para contribuir para a defesa dos princípios da democracia e das liberdades universais.

Acredito profundamente que este é um projeto que se diferencia e não se deixa limitar pela sua dimensão. Continuaremos desta forma a dar voz a uma comunidade que vai muito além da geografia que nos delimita.

Editorial publicado na edição impressa de julho de 2021

Categorias: Opinião

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