Alojamentos Locais na Lagoa estão vazios e cheios de dúvidas quanto a este ano

Os alojamentos locais na Lagoa – e na restante região – aguardam ansiosamente pelos turistas. Chegou-se a olhar para 2021 com otimismo, mas a esperança cai a cada dia que passa

Número de dormidas na região em 2020 foi o mais baixo dos últimos anos / FOTO CORTESIA AL GRAVIANA

Praticamente encostado ao complexo das piscinas municipais, o Graviana apresenta uma paisagem que se estende sobre o atlântico em comunhão com a costa sul da ilha de São Miguel. É um alojamento local de charme – dir-se-á de acordo a terminologia comercial contemporânea –, que apresenta três quartos: o pedra negra, o pedra azul e o pedra lima. Estão todos sem hóspedes. A última reserva foi em setembro.

“O meu espaço agora está fechado. Não está bloqueado nas plataformas, mas não tem tido reservas. A última reserva foi em setembro, inícios de setembro, só por aí dá para ter uma ideia”, explica ao Diário da Lagoa Fátima Sobrinho, a proprietária do espaço.

Não é novidade: a pandemia da covid-19 paralisou a vida coletiva e entre os diversos setores afetados, atingiu particularmente o do turismo. Sem aviões repletos de turistas ansiosos por descobrir as maravilhas do arquipélago açoriano, não há hóspedes a entrar nos alojamentos locais.

O Graviana é um desses casos. Fátima Sobrinho é micaelense, natural da Lomba da Maia, mas vive atualmente em Lisboa. Em 2018 decidiu investir na Lagoa, terra de que o “marido gosta muito”, onde tem “muitos amigos” e passa “muito tempo” quando regressa à ilha-mãe. Abriu um alojamento “diferente”, de “charme”. No primeiro ano, em 2018, só teve a licença de Alojamento Local em agosto, pelo que não deu para preparar a época: “no início, em agosto, setembro, ninguém nos conhecia, mas, mesmo assim, ainda deu qualquer coisinha”, recorda.

O ano seguinte, 2019, a orquestra já tocou a outro ritmo. Foi um “ano muito bom”. “No ano seguinte, pensei que as pessoas não nos conheciam ainda e que não iria ser nada de especial, mas não. Sobretudo em julho, agosto e setembro foi muito bom. Tive uma boa faturação”, afirma a empresária, destacando o grande fluxo de americanos que acorreram ao seu espaço. Aquele era também o tempo áureo do turismo açoriano, setor que desde 2015 – ano da liberalização do espaço aéreo – se estava a consolidar como um dos motores da economia regional. Mas a pandemia tudo levou e deitou por terra aquele que seria o melhor ano de sempre em termos turísticos. “Antes da covid-19, já tinha março e abril com marcações que no ano antes não tinha. Já estava a ficar compostinho, mas foi tudo abaixo”, afirma Fátima Sobrinho, que agora tem o Graviana a “zeros”.

Estando o ponto de partida baixo, a expectativa é que 2021 seja melhor do que o fatídico ano de 2020. Diz a proprietária que “não vai ser nada que se pareça com anos anteriores”, mas a esperança é que seja “muito melhor”, não devido aos primeiros meses do ano, mas sobretudo aos meses de julho e agosto. “Esperemos que isso realmente corra tudo muito melhor, porque para quem vive disso, é muito triste”, explica Fátima Sobrinho, ressalvando que tem “outros negócios”, mas que “a continuar assim não será fácil” continuar a contornar o prejuízo do alojamento.

Também a Casa do Cruzeiro, na zona da Atalhada, próxima da zona balnear, estava em constante evolução até ao abalo da pandemia. Abriu em 2016 e teve “sempre uma evolução muito boa”, apesar de em 2019 já terem praticado preços mais baixos “devido ao aumento da concorrência”: “mas vínhamos sempre em crescendo”, aponta o responsável pelo alojamento, Milton Medeiros.

Com a pandemia, choveram cancelamentos, logo a partir de março para os meses de julho e agosto, naquele que era suposto ser um “excelente ano”. “O turismo praticamente acabou”. A expressão “praticamente” é utilizada porque nos meses do Verão, Milton Medeiros ainda conseguiu amealhar alguns turistas. Como alguns continentais ainda escolheram São Miguel para passar as férias de Verão, a Casa do Cruzeiro ainda manteve a taxa de ocupação em torno dos 80%. A taxa elevada numa época de crise esconde um reverso da medalha: só foi conseguida “praticando os preços a metade”.

“Deixei de trabalhar com as plataformas e o único turismo que tivemos foi o turismo do continente, que não tem um poder de compra tão elevado quanto os turistas vindos de destinos estrangeiros”. Após o verão, a ocupação baixou. Em setembro, outubro e novembro, a taxa esteve em 50% com “preços muitos baixos”. Foi só mesmo para ver se dava para pagar as prestações, como a TV por cabo e algumas despesas e com sacrifício tem-se conseguido”, assinala.

Agora, a pandemia obrigou-o a uma ginástica no negócio e a uma mudança de arrendamento. Apostou no arrendamento a médio prazo, que o irá ocupar durante o mês de janeiro e início de fevereiro. “Tive de optar, não pelo turismo, mas por outro tipo de arrendamento a médio prazo. Estamos ocupados com as empresas que estão nas obras do hospital novo”, avança, referindo-se à construção do Hospital Internacional dos Açores, localizado no Tecnoparque.

Apesar da boia de salvação, as previsões não são as melhores para os primeiros tempos de 2021. “Até pode ser que melhore no Verão, mas a partir de fevereiro vai ser complicado, tal como março que vai ser um mês mau e por aí afora”.

O que esperar de 2021?

O cenário vivido na Lagoa, onde escasseiam os turistas e abundam as camas vazias, é idêntico ao resto da ilha e da região. Os números não deixam margem para dúvidas: o número de dormidas registado no arquipélago em 2020 (822 mil) é o mais baixo desde 2002. Em 2019, tinha existido mais de três milhões de dormidas.

Segundo o presidente da ALA (Associação de Alojamento Local dos Açores), Rui Correia, os números do alojamento local “são muito maus” em todos os concelhos da região. “Já não sabíamos o que era ter uma época baixa tão má e os problemas é que as perspetivas de futuro são muito más também”, afirma ao DL.

Em tempos, olhou-se para 2021 com esperança. Agora, a realidade começa a enegrecer o cenário: “neste momento já começamos a pensar que se calhar 2021 será igual a 2020 e vamos ver se não será pior”. Para justificar, Rui Correia salienta a tendência registada na Europa, com os potenciais turistas a adiar as viagens à espera de serem vacinados contra a covid-19 para poderem “viajar com maiores condições de segurança”. Esse adiamento poderá ser um problema para os indicadores turísticos na região. “Aquela que é faixa etária e os grupos que viajam mais para os Açores, como as famílias, só vão ser vacinados já em cima do Verão e, portanto, será difícil serem vacinados a tempo e horas para virem para cá”, explica. Afinal, parece que o ano novo não resolve os velhos problemas.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de fevereiro de 2021)

Categorias: Reportagem

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