Alunos sem autonomia impedidos de frequentar a natação na vila de Água de Pau porque pais não podem entrar nos balneários

Restrições em São Miguel levaram Clube Desportivo Escolar de Água de Pau a manter a equipa de natação no Faial, com aulas à distância, para poder treinar. No Campeonato
Regional de Longa Distância três atletas do clube sagraram-se campeões dos Açores

© DL

Pedro Pereira dá a cara e a voz pelo Clube Escolar Desportivo de Água de Pau (CEDAP), nas vitórias e nas dificuldades que a instituição enfrenta. Enquanto presidente do CEDAP com dezenas de inscritos, diz não compreender como na freguesia, as regras em vigor ainda são as mesmas, implementadas, no início da pandemia. As crianças sem autonomia para se vestirem e despirem sozinhas não podem, pura e simplesmente praticar natação, porque segundo as diretivas regionais, os pais não estão autorizados a entrar nos balneários. E nem podem sequer esperar pelos filhos no interior da escola. Fazem-no ao frio e à chuva, cá fora. E os exemplos não se ficam por aqui, explicou-os na conversa com o Diário da Lagoa. Nomeia os danos que a pandemia tem causado ao desporto mas também fala do percurso dos atletas da natação e de outras modalidades do clube. Para conseguirem treinar duas vezes por dia, mantendo as aulas à distância, 17 atletas do CEDAP estão na ilha do Faial desde meados do mês passado apenas e só para poderem continuar a treinar sem restrições e rumar aos nacionais.

DL: Como está a correr esta experiência inédita no Faial?
A 13 de março sofremos um baque valente que foi este confinamento. Nessa altura tínhamos acabado de participar no regional de categorias onde a nossa equipa tinha conquistado 41 medalhas no campeonato regional de categorias. Com o primeiro confinamento, paramos até 1 de julho de 2020. Não paramos durante o verão, setembro, outubro e em novembro fomos obrigados a parar. Tendo em conta que a nossa base de treino é Rabo de Peixe, a história das cercas privou-nos completamente da nossa piscina lá até à data da participação no regional de categorias. Apesar disso, estes miúdos conseguiram atingir o patamar nacional colocando quatro atletas em nacionais com uma prova feita na Praia da Vitória.

DL: Como a situação epidemiológica é mais favorável nas outras ilhas optaram por manter os atletas no Faial.
Sim porque temos provas nacionais a cumprir. A equipa está no Faial com grande apoio por parte dos pais porque eles também entendem que o nosso projeto é positivo. Os resultados transmitem que estes jovens conseguem ir muito mais longe daquilo que é a esfera regional, que já está conquistada. Este ano conseguimos mais medalhas que o ano passado, já conseguimos 46 medalhas desde janeiro neste regional. Temos três campeões regionais a nadar três quilómetros pela primeira vez na RAA, nas provas de fundo.

DL: Mesmo longe de casa eles estão motivados?
A receção no Faial tem sido fantástica a começar pela Secundária Manuel de Arriaga que amavelmente nos pôs à vontade. Fornece-nos a alimentação à hora de almoço, colocou salas, computadores à nossa disposição para que os nossos alunos tivessem as melhores condições para realizar o ensino à distância. A junta de freguesia providenciou o apoio necessário para a equipa ficar alojada, temos uma padaria que vai levar o pão para o pequeno almoço, temos os locais a apoiar a equipa, a receção não podia ter sido melhor. E os miúdos, com este apoio todo, a treinar duas vezes por dia, a fazer o que gostam, numa piscina com oito pistas que não existe em São Miguel, estão felicíssimos. Também estão a fazer visitas à ilha, está a ser a cereja no topo do bolo para eles.

DL: Foi já depois de estarem lá no Faial que decidiram que a equipa ficaria a treinar lá?
Sim. Regressar a São Miguel era deitar fora todo o trabalho que já estava feito.

DL: As restrições têm afetado muito o desporto em São Miguel?
Todas as atividades têm sido muito prejudicadas devido à pandemia. A nossa escola de natação está a menos de metade do que é a nossa realidade, a nossa equipa de voleibol praticamente não tem treinado porque a Lagoa tem sido uma zona bastante prejudicada. Mas nada disso nos impede de projetar projetos para o futuro. Posso-lhe dizer em primeira mão que nós vamos abrir a primeira equipa de triatlo federado na região.
Na escola de natação estamos a falar de uma redução de 70 por cento. Temos agora 24 atletas quando o ano passado tínhamos 150 a 180 atletas, é incrível. Nenhum pai que tenha um filho de seis anos que não seja autónomo a vestir, pode ter natação, pelo menos em Água de Pau.

DL: Porquê?
Porque é entendimento dos serviços de desporto de São Miguel que o miúdo ou é autónomo e consegue vestir-se e despir-se sozinho ou não pode frequentar a natação porque os pais não podem entrar no balneário. Tenho uma mãe e uma avó com um miúdo hiperativo. Por prescrição médica, foi mandado, obrigatoriamente, fazer duas modalidades. O miúdo gosta de natação e futebol. Futebol tem, natação também. Tem sete anos e não se consegue vestir e despir sozinho. Ele vai e vem no autocarro, a mãe ou a avó chegam à piscina de Água de Pau e nós professores cometemos uma atrocidade que é ajudar a criança para que esta criança tenha acesso a uma pequena normalidade. No entanto, a mãe ou a avó ficam do lado de fora do edifício a apanhar chuva porque não podem ficar na sala de espera, à espera. Isto são pequenos exemplos desta pandemia. Podemos ir ao supermercado mas não podemos ter uma pessoa num hall de entrada, quieta sem se mexer, à espera que o professor desça de outro piso superior para vir entregar a criança e ela ir à vida dela. São pequenas atrocidades que não são entendidas e também lhe confesso que me custa muito aceitar que esta realidade seja levada para este extremo. Não é normal, é muito mau.

DL: Mas quando é que essas restrições vão ser reavaliadas?
A adequação da regra depende da interpretação dela. O mais caricato desta história toda é que no Aquafit os pais podem ir aos balneários. Inclusive já dei a chave do meu carro à senhora para ela ir para lá e esperar. Estas pequenas guerras são mais desgastantes do que pôr uma equipa a treinar no Faial ou na Madeira. Não conseguimos resolver esta situação desumana. Estamos a falar de saúde mental e de saúde física porque isto vai trazer muitas sequelas. Estas regras não são do conhecimento da maior parte das pessoas. Já tentámos por diversas vezes chegar a um bom senso mas as pessoas entendem que a bandeira da saúde pública vale para tudo. Houve uma transição de Governo, estas regras foram impostas pelo Governo anterior e espero que quando houver oportunidade, alguém o faça, e que sejam alteradas.

DL: O novo Governo ainda não reviu estas regras?
Não. Mais de um ano depois do início da pandemia elas não fazem sentido.

Sara Sousa Oliveira

Entrevista publicada na edição impressa de maio de 2021

Categorias: Entrevista

Deixe o seu comentário