Apaixonado pelo rally tem mais de mil miniaturas de carros e constrói os cenários das provas

Lagoense alimenta a coleção há mais de vinte anos. O valor que já investiu em material daria para comprar um carro à escala real

Paulo Tavares constrói os próprios carros dedicando horas a cada um MARIA LEONOR BICUDO / DL

É no segundo piso da sua casa em Santa Cruz que começa o mundo em miniatura de Paulo Tavares, 37 anos, bancário, casado e pai da Maria e do Francisco ambos gémeos de 4 anos.

Com um sorriso de orgulho bem vincado nos lábios, Paulo liga as luzes das estantes de vidro que cobrem duas das quatro paredes da sua ampla sala. Nestas estantes estão expostas as quase 1100 miniaturas da coleção que começou aos 13 anos.

Além de colecionador, o lagoense é também modelista, ou seja, construtor das próprias miniaturas. Entre comprar e construir, a resposta é rápida: “prefiro construir porque consigo alcançar um maior detalhe do que as miniaturas que adquiro no mercado”. Ainda se recorda que foi em 1997 que montou o seu primeiro carro, um Ferrari de Fórmula 1 do Michael Schumacher. A partir daí, nunca mais parou.

Material vem de diferentes países
A escala escolhida por Paulo para a sua coleção foi a 1:43, que significa que as miniaturas são 43 vezes mais pequenas que os carros em ponto real. Cabe na perfeição na palma da mão da Maria que, quando apanha o pai distraído, agarra na miniatura e leva-a consigo. Paulo optou por esta escala por oferecer maior disponibilidade de modelos no mercado, no entanto não existem lojas da especialidade na região. “A maior dificuldade é reunir o material necessário para construir as miniaturas”, revela Paulo. Algumas peças manda vir de Portugal Continental, outras de Itália, Espanha e Alemanha.

Enquanto enumera o que traz um kit completo de um carro é interrompido pelo filho Francisco ao ver o logotipo da marca: “Pai, é um Volkswagen”, repete a criança aos pulos. O pai, envaidecido pelos dotes do menino de apenas 4 anos, aponta para outro logotipo ao que, sem hesitação, o filho responde: “é um Mitsubishi, igual ao do avô”.

Sobre a mesa da sua oficina, o colecionador abre a caixa do Volkswagen que tem por montar e espalha as mini-peças: carroçaria, vidros, espelhos, faróis, limpa pingas, jantes, pneus, volante e até o escape. Depois, quando o carro estiver montado, “é preciso lixar, tirar os defeitos usando massas, dar um primário e pintar e, só quando estiver seco, colocar a decoração e pintar os pormenores como os frisos dos vidros”, descreve o modelista. Entre o emprego e o passatempo, Paulo reserva todos os dias tempo para se dedicar às miniaturas. Com o som de fundo das notícias, senta-se na oficina nem que seja para tratar de uma pintura. “Por vezes, quando o carro tem uma cor mais específica, como um azul metalizado, eu próprio misturo as tintas para conseguir a cor mais aproximada da realidade”, admite o lagoense, abrindo a gaveta dos frasquinhos de distintas cores que compõem o seu repositório.

Cada carro é 43 vezes mais pequeno que o modelo real MARIA LEONOR BICUDO / DL

Cada carro demora 20 horas a fazer
Como o foco da coleção do Paulo são os carros de rally, é muito difícil encontrar decorações alusivas ao Rally Açores à venda. Por isso, é ele quem produz graficamente os decalques dos carros. Depois de impresso em papel próprio, o colecionador recorta as aplicações, coloca em água e ao retirar desune do papel uma película muito fina que, com a ajuda de pinça e secador, cola no carro. Pelas contas de Paulo, uma miniatura exige cerca de 20 horas de mão de obra, sem contabilizar o tempo de secagem, para ficar concluída. É um trabalho moroso e minucioso, mas “dá gosto sentar-me e fazer uma miniatura do princípio ao fim, em vez de ir à loja comprar ”, confessa.

Ao darmos lentamente a volta à sala revestida de expositores, o modelista indica como ordenou os carros. Em algumas prateleiras, estão dispostos por marcas, noutras por pilotos como Valentino Rossi e Ken Block. Enquanto outras estantes são destinadas a carros de pilotos que participaram em rallies específicos, como o da Madeira, o de Portugal, o Dakar e o Safari. Há também espaço reservado ao Rally Açores, o tema preferido do colecionador, com especial destaque para o vencedor açoriano de 2016, Ricardo Moura no seu Ford Fiesta R5. Os vencedores estão alinhados do mais antigo (o Fiat 1500 do Luís Toste Rego de 1965) ao mais recente (o Skoda Fabia R5 do Lucas Habaj de 2019). Ultimamente, Paulo tem vindo a dedicar-se à construção não só do carro vencedor, mas dos três que chegam ao pódio.

Noutra prateleira estão fixados os carros de pilotos açorianos que correram com o patrocínio da marca Açores e ainda os de pilotos estrangeiros que participaram no Rally Açores, nomeadamente o russo Lukyanuk, cuja miniatura está exposta em cima de parte do disco de travão do carro com que participou e bateu. E, no cantinho de uma prateleira, podemos observar as miniaturas dos três carros que o lagoense já teve: um Renault Clio de 2 lugares (com o detalhe da matrícula, da rede atrás dos bancos e das jantes escuras), um Opel e um BMW.

Miniaturas em várias vitrines ocupam o piso inteiro de uma casa MARIA LEONOR BICUDO / DL

Coleção dava para comprar carro real
Para conservar a sua prezada coleção, Paulo tem principalmente o cuidado de manter as miniaturas fechadas nos expositores para não apanharem pó e humidade. Ao fim de alguns anos, retira todos os carros para fora e limpa-os cuidadosamente com pincel e cotonete.

Ao olhar à volta, na sala que ocupa todo um segundo piso, surge a questão: quanto dinheiro está investido nestas centenas de miniaturas? Cada kit pode atingir os 80 euros mas Paulo recusa-se a fazer as contas do já gastou: “é das tais coisas que nem vale a pena pensar, mas tenho consciência que deve rondar um valor que dava para comprar um carro à escala real”, reconhece rindo, enquanto coça a cabeça.

E como a paixão pelo rally é tão grande, além dos carros, coleciona os chamados dioramas. Paulo escolhe os sítios mais emblemáticos e reprodu-los através de uma estrutura em pasta de papel e materiais naturais para fazer os pisos, as árvores, os arbustos, o cascalho. Foi assim que criou os dioramas do salto da Super Especial Marques e do pódio nas Portas da Cidade. Embora consiga simular diferentes ambientes, desde as dunas do Rally Dakar à neve do Rally de Monte Carlo, Paulo tem um objetivo: “quero descobrir novas técnicas e aperfeiçoá-las para fazer outros trabalhos, como efeitos de água e sujidade nos carros”. A imaginação é o limite.

Sara Sousa Oliveira com Maria Leonor Bicudo

(Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2020)

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. Fernando Lima 17 Dezembro, 2020, 20:37

    Muito bem. Linda coleção. Parabéns !
    Também coleciono ralis e outros temas, mas em 1/18.
    Quando for a S. Miguel vou ver se consigo uma visita, pois do mesmo modo se vier à Terceira, tenho todo o gosto em mostrar a minha.

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  2. Leonardo 17 Dezembro, 2020, 18:06

    Paulo Tavares tem facebook? Sou do Brasil e tambem coleciono miniaturas de rally

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