“Aqui na Suécia pouca gente usa máscara”

Médica açoriana combate a pandemia num país com uma estratégia completamente diferente de Portugal. A profissional de saúde conta como se vive e como se trabalha num retângulo de exceções

Lisa Caiado Thorfinn é médica de urgência na Suécia há nove anos | FOTO DR

O coração está dividido entre Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, e a cidade de Linköping, no sul da Suécia. Desde 2005 que Lisa Caiado Thorfinn, 35 anos, só regressa à sua terra natal para as férias de verão, condição que comunicou logo ao marido um dia depois de ele a ter pedido em casamento. A açoriana é médica de urgência em Linköping há nove anos, no sul da Suécia. Está desde março na linha da frente do combate à covid-19 num país diferente em tudo: nunca decretou confinamentos obrigatórios e não multa ou penaliza quem não cumpre o que definem as autoridades de saúde. Desde o início da pandemia que tudo são recomendações e assim continuam.

DL: Como têm sido estes meses?
Difíceis. O verão foi melhor porque as coisas estavam mais calmas, não havia tantos contágios. Pelo que via nos outros países, pensei que era uma questão de dias e também vinha para casa com covid. Não sei se foi sorte mas ainda não fui infetada.

DL: Mas já fez vários testes, certo?
Sim porque o meu filho está no infantário. Aqui nunca houve nenhum confinamento e ele continua a ir para lá. E ele às vezes traz constipações e eu fico sempre constipada. Já aconteceu várias vezes ter ficado constipada, ir fazer o teste e foi sempre negativo.

DL: O que é mais difícil no seu trabalho?
É o medo que sentimos pelos doentes que estão em estado muito crítico. Alguns vêm cedo, há uns que ficam em casa e há os que vêm tarde com dificuldades respiratórias graves e dá-nos medo de telefonar para os familiares a dizer que a situação é crítica. Os doentes ficam no serviço de urgência um tempo limitado mas eu vou sempre ver os meus doentes, saber o que aconteceu, se estão bem.

DL: Os profissionais de saúde na Suécia também estão a ser massacrados com o excesso de trabalho provocado pela pandemia?
Sim. A situação agora está mais complicada do que antes do Natal. Apesar das pessoas se terem juntado menos, juntaram-se, por isso temos mais casos. E sempre que alguém fica doente é preciso outra pessoa ir fazer o turno. Tem sido uma data de turnos extra e horas extra e claro que as pessoas acusam o cansaço.

DL: A gestão da pandemia na Suécia e em Portugal é muito diferente. Que caminho é, na sua opinião, o mais adequado?
A minha opinião tem vindo a flutuar ao longo da pandemia. No início quando vi o resto do mundo a fazer confinamentos, pensei, ´nós aqui estamos malucos, devemos estar num filme, estão a fazer uma experiência para o resto do mundo ver´. Atualmente as coisas quase estão piores aí do que aqui. Aqui são tudo recomendações. Só desde a semana passada se começou a usar máscara nos transportes públicos nas horas de ponta, de manhã e ao fim da tarde, mas são tudo recomendações, quem não usar não vai ser corrido dali para fora. Aqui na Suécia pouca gente usa máscara, os suecos são muito de não obrigar as pessoas a nada. Até outubro ninguém usava máscara nem no supermercado, nem no banco, nem nos transportes, zero. Quando Portugal estava em confinamento antes do verão, fui ao parque com o meu filho, estava em Facetime com os meus pais e eles só diziam, ´vocês parece que estão noutro planeta´ porque o parque estava cheio de miúdos a brincar.

DL: Nós ontem, em Portugal, tivemos cerca de 10 mil novos casos. Vocês aí na Suécia registaram quantos?
A Suécia não divulga os números todos os dias. Na semana passada nem sei ao certo mas a Suécia sempre testou pouco e continua a testar pouco, portanto os números são baixos. Dos casos confirmados até hoje, Portugal e a Suécia estão com números semelhantes mas eu não acredito porque a Suécia tem muitos mais porque testamos poucos. Até ao verão só podíamos testar as pessoas que internávamos, os restantes doentes não testávamos.

DL: Qual é a justificação das autoridades de saúde para esse procedimento?
Eles nunca admitiram que a estratégia é a imunidade de grupo. Sempre disseram que não podiam fechar o país, pesa muito na economia, pesa muito na vida das crianças. Eles nunca admitiram que a estratégia era a imunidade de grupo mas eu acho que é. A Suécia tem uma estratégia completamente diferente.

DL: Tem acompanhado o controle da pandemia nos Açores?
Vou acompanhando os números no Facebook. Quantos mais casos são, mais difícil é identificar as cadeias de transmissão. Agora, aqui já nem se identificam as cadeias de transmissão, perde-se o controle.

DL: Acha que o descontrole numa ilha acaba por ser diferente do descontrole num continente?
Devia ser mais fácil o controle numa ilha porque estão isolados e quantos menos habitantes mais fácil é, é mais fácil apagar a chama.

DL: Então o que acha que está a falhar?
As pessoas não respeitam. Deviam estar em casa e não ligam nenhuma, algumas sabem que estão infetadas e vão para o café à mesma. Pessoas que se calhar têm sintomas e não dão sinal para serem testadas porque não querem as quarentenas e acho que isso também acaba por ser comum a todos os sítios.

DL: Já foi vacinada?
Não! A Suécia também está a ser diferente nisso. Tenho sido muito crítica nesse aspeto porque aqui só começaram a vacinar os lares de idosos e depois as pessoas que vivem em casa que têm apoio ao domicílio.

DL: Quando é que os profissionais de saúde deverão ser vacinados?
Agora, depois de fazermos um bocado de barulho, eles não avançaram nenhuma data para mas dizem que vão-nos vacinar mais cedo do que era previsto porque estão a ver que precisam de nós.

DL: Pensa regressar aos Açores e exercer medicina cá?
Para já, não. Sou casada com um sueco, ele tem cá a sua família, não fala português mas claro que tenho muitas saudades e as férias de verão são sempre aí. Aliás quando ele me pediu em casamento, aceitei logo mas no dia seguinte disse-lhe ´olha vivo na Suécia mas os meus verões são e serão sempre na ilha Terceira nos Açores´, e ele concordou logo e adora Portugal e as pessoas

DL: Os suecos e os açorianos são muito diferentes?
São. A cultura sueca é muito diferente, é mais fria, mais distanciada, não há aquele à vontade que nós temos. Tudo tem de ser muito combinado. Quando se combina um jantar para as 19 horas, às 19 em ponto eles estão a tocar à campainha, é tudo menos descontraído. As pessoas são mais rígidas e mais distantes.

DL: Que conselhos tem para quem lê?
Quem tem sintomas, por mínimos que sejam, não os ignore e vá-se testar. Está com dores de garganta mas ia à mercearia, não vá, fique logo em casa. Cada contacto que temos é um grande risco. E espero que as pessoas se vão vacinar. Porque se não, não têm legitimidade para se queixar. Já há milhões de pessoas em todo o mundo que levaram a vacina, a vacina é segura.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de fevereiro de 2021)

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