“As bandas continuam a ser o parente pobre da cultura nos Açores”

Filarmónicas relatam vários problemas que condicionam sobrevivência das bandas. Direção regional da Cultura admite excesso de burocracia e diz que vai simplificar um dos apoios

Maioria das bandas continua sem serviços marcados © DL

São o escape de muitos jovens, pais, avós e até netos. As filarmónicas aliam o gosto pela música, à perpetuação de tradições e eventos culturais espalhados pelas nove ilhas dos Açores.

Com a paragem dos serviços, que já caminha para os quase dois anos, a que pandemia obrigou, muitas sentem que ficaram entregues à sua sorte. A luz ao fundo do túnel são os apoios públicos.

A filarmónica Lira do Rosário, da Lagoa, é uma das que disse ao Diário da Lagoa (DL) continuar à espera das verbas. “Eles tinham dito que iam dar 10 mil euros e esse apoio até hoje não chegou, no âmbito da covid. Não tivemos feedback nenhum, nem sim nem não”, lamenta o presidente da filarmónica, Paulo Cordeiro. Graça Andrade considera que os apoios envolvem “muita burocracia”. A presidente da filarmónica Fraternidade Rural, de Água de Pau, garante que chegou “a mandar tudo direitinho mas depois pediram muita coisa e acabamos por desistir. Temos vivido com o subsídio da câmara, mais nada”, lamenta.

Já o presidente da filarmónica Estrela D´Alva, de Santa Cruz, tal como o colega do Rosário, diz continuar à espera do apoio extraordinário no âmbito da covid-19, prometido às filarmónicas que se candidatassem ao fundo.

A Filarmónica Sociedade Musical Sagrado Coração de Jesus, do Faial da Terra, foi das que preencheu tudo, entregou todos os documentos e já obteve resposta: não tem direito ao apoio. “No nosso caso, como o apoio da câmara subiu e fez com que se ultrapassasse o que faturamos em 2019, não tivemos direito”, lamenta o maestro e tesoureiro da banda. João Resendes vai ainda mais longe:“as bandas continuam a ser o parente pobre da cultura nos Açores”.

O presidente da Banda de Santa Cruz explica que o que tem mantido a filarmónica acaba por ser “algum apoio da câmara municipal e também da junta de freguesia”. A banda liderada por João Arruda foi uma das que teve problemas com o programa SOREFIL – Programa de Apoio às Sociedades Recreativas e Filarmónicas da Região Autónoma dos Açores. “Mais de um ano depois chegou o contrato para assinarmos que não tinha nada haver com a candidatura que fizemos”, explica. “Nós pedimos fardas e veio apoio para outras coisas que, nós não estávamos a dizer que não precisássemos, mas a primeira necessidade era o fardamento”, lamenta.

A banda do Faial da Terra vai receber, através do SOREFIL, cerca de 3100 euros, valor que na opinião de João Resendes, é insuficiente. “As bandas não tocam com canas da Índia, nem tocam com latas”, ironiza, e dá um exemplo: “nós compramos três instrumentos: uma tuba, um trombone e um saxofone e os três custaram 6.695,42 euros”.

Outro dos problemas apontados é a desadequação do valor que recebem para as várias despesas. E o responsável do Faial da Terra, volta a dar outro exemplo: “todos os anos digo que gasto cerca de 300 euros de água e luz e dão-me 517. Como é que essas alminhas me dão esse valor? Todos os anos tenho que devolver 217 euros”. João Resendes defende que, para além de simplificar as candidaturas deveria existir uma plataforma online com os dados das diferentes sociedades para uma maior simplificação dos processos.

Falta de fardas é o principal problema

A pandemia trouxe uma série de constrangimentos e um deles prende-se com a redução do tempo de vida das fardas. “Com o fardamento é o caos”, começa por explicar Paulo Cordeiro. O responsável da Banda Lira do Rosário explica que “as pessoas engordaram, nestes dois anos e vai ser um problema grave se não tivermos apoios”, uma situação elencada também pela banda de Santa Cruz.

O DL confrontou a Direção regional da Cultura (DRC) com os factos apresentados pelas várias filarmónicas. Por escrito, o diretor regional da Cultura nega atrasos: “ a atribuição do apoio extraordinário [no âmbito da covid-19] não está atrasada. Já estão a ser efetuados os respetivos pagamentos” explicando que “em vez dos normais dois conjuntos de apoios, [a Direção regional da Cultura] teve de processar seis conjuntos de apoios. Exigiu um esforço hercúleo. Mas foi conseguido”, assegura.

Quanto à complexidade das candidaturas, Ricardo Tavares admite, ao DL, que é preciso descomplicar. Para o próximo ano está prevista uma revisão do SOREFIL para “simplificar os procedimentos das candidaturas” e atribuir “uma verba-base para todas as filarmónicas que comprovem atividade”.

Quanto à questão do fardamento, o responsável explica que “não é possível, considerada a disponibilidade financeira, financiar o fardamento da totalidade dos elementos” tendo sido estipulado que a DRC atribui “um valor equivalente à aquisição de seis fardas completas” para as bandas que queiram adquirir fardamento totalmente novo.

Caso surjam problemas nas candidaturas, o diretor regional da Cultura pede que sejam reportados à tutela para correção.

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2021

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