As “roupas” não são minhas

João Ponte
Padre

Para os cristãos, estes dias primaveris são marcados pela alegria pascal que brota da ressurreição de Cristo. Cada Páscoa traz consigo uma primavera de oportunidades e renascimentos. Em cada ser há uma esperança de vida nova que acontece e que transforma vidas e ambientes. Embora os dias sejam cinzentos, há que partilhar ânimo, para que a Páscoa continue a acontecer em cada um de nós e a Primavera seja o estado de alma de quem acredita ser possível a construção de um mundo de autêntica liberdade, jamais limitada por uma Pandemia.

Nestes dias feriais da Páscoa, ao ler os textos bíblicos propostos para as Celebrações, deparei-me com uma figura interessante, por quem nutri grande empatia: Nicodemos. O seu nome refere-se a um ancião, Mestre da Sabedoria, mas que, durante a noite, sai do seu conforto para se encontrar com Jesus. Embora a sua atitude me tivesse impressionado, deixa-me perplexo o conselho que Jesus dá a um homem com experiência. Nada mais, nada menos do que: Tu tens de nascer de novo. Por incrível que pareça, Nicodemos não recua, apenas questiona: como?

Sabemos que o mundo não voltará a ser igual após esta Pandemia, porém há um imperativo que temos de acolher: Tu tens de nascer de novo. Duas vezes somos recém-nascidos: quando nascemos do ventre de nossa mãe e quando morremos. Nascer de novo significa tomar consciência de que não sou totalmente puro, pois todas as “roupas” que me cobrem, não são minhas, mas emprestadas.

Uma coisa me assemelha nos extremos da vida: a nudez. Nasci nu e nu morrerei. Todas as “roupas” que me cobrem ao longo da vida foram partilhadas pelo outro que se cobriu também de vestes que não eram suas. Sinalizemos as primeiras “roupas” com que nos vestiram: talvez o leite materno, um beijo envolvido de amor, um abraço repleto de calor humano ou não. No outro extremo da vida, os gestos são muito semelhantes, pois tornar-me-ei totalmente dependente de quem tiver a coragem de cuidar de mim. Seremos vestidos com os últimos beijos e abraços ou talvez não. Na verdade, há quem morra nu e assim permaneça sem ninguém que o vista com uma lágrima de amor.

Ao longo da vida sou revestido com as mais variadas “roupas”, com aquelas que facilmente se rasgam, mas também com boas roupas de marca. Eu sou o produto final de tudo o que foi partilhado. Creio que quem quiser se cobrir a si mesmo, ou seja, viver em função de si sem olhar os outros, acabará por se tornar muito pobre. A sua riqueza não renderá qualquer juro. O exercício a praticar é o de se deixar vestir e vestir o outro. Por exemplo, um professor sem alunos com quem irá partilhar o seu saber? Um pai sem filhos como irá exercer a sua paternidade? Há que nascer de novo na visão da própria vida.

Quando o ódio e a vingança me invadem e o meu orgulho me impede de reconhecer o outro como meu semelhante, é porque já me esqueci de que sou um recém-nascido em toda a Obra criada. Nessas alturas, por incrível que pareça, estou nu e posso provocar a nudez dos meus semelhantes. Há uma marca de excelência que impede esses rasgões profundos. Chama-se Amor. É mais cara, mas mais resistente e dura uma vida inteira. Vale a pena apostar em roupa de boa marca. E não nos esqueçamos que devemos escolher para os outros o que gostaríamos que nos dessem a nós. É preciso nascer de novo.

Artigo de opinião publicado na edição impressa de maio de 2021

Categorias: Opinião

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