Aumento de casos de saúde mental leva CDIJA a abrir clínica na Lagoa

Centro de especialidades psicoterapêuticas de crianças e jovens já acompanha mais de 140 famílias no concelho. Procura por consultas é cada vez maior

Nova clínica localiza-se junto à praça do Rosário © DL

Falar de saúde mental nunca terá sido tão importante como agora tendo em conta todas as restrições, confinamentos e imposições pandémicas, e a Lagoa não é exceção. O número de casos que necessitam de acompanhamento especializado, no que toca à saúde mental, aumenta todos os dias. Por isso, o CDJIA – Centro de Desenvolvimento Infanto-Juvenil dos Açores, decidiu abrir um novo polo na freguesia do Rosário, na cidade da Lagoa, inaugurado no passado dia 12 de novembro. “Temos sede em Ponta Delgada e tínhamos imensas famílias aqui da Lagoa que não tinham hipóteses financeiras de irem a Ponta Delgada e simultaneamente manter um acompanhamento com uma periodicidade regular”, começa por explicar João Pedro Lopes, responsável pelo polo lagoense. No total, segundo o neuropsicólogo, há “140 famílias afetadas por variados problemas de saúde mental” sendo os mais comuns os problemas de “neurodesenvolvimento e outros de um âmbito mais comportamental que pode ser muito mais associado a questões familiares”, explica.

Pilar Mota, psicóloga clínica e da saúde e diretora-geral do CDIJA refere, como sendo frequentes no concelho, “problemas de comportamento” que levam a que “haja uma desmotivação escolar, uma falta de estimulação e problemas de aprendizagem”.

Em declarações ao Diário da Lagoa (DL), a responsável do organismo explica que a clínica da Lagoa tem “seis gabinetes” e mesmo assim “vamos ter de trabalhar aos sábados e aumentar porque a procura tem sido imensa”, revela, num dos gabinetes do espaço, minutos antes da inauguração.

Pilar Mota tem acompanhado o crescimento do CDIJA e garante que “as famílias inicialmente estranham” quando são sinalizadas para terem acompanhamento. Mas “quando começam a sentir que há um trabalho de facilitador” onde se começam a ver resultados nos filhos e nos relacionamentos dentro da família depois até “acaba por haver muita dependência, há uma necessidade de passar para follow up [acompanhamento]”.

Carla Araújo, pedopsiquiátrica, lembra a importância da “intervenção em rede” tendo exemplos de sucesso de crianças que acompanha desde que começou a trabalhar no CDIJA, em 2014, e “vê-se uma evolução enorme”, assegura. A médica tem presenciado um aumento de casos de ansiedade e depressão fruto da pandemia e do isolamento que a mesma trouxe. No caso das crianças, João Pedro Lopes explica que “no regresso às escolas e aos grupos de contactos com os pares, notaram-se realmente muitas diferenças ao nível da ansiedade, inclusive de crianças que nunca a tiveram”.

No caso dos transtornos do espetro do autismo na Lagoa, “diagnosticados temos talvez uns 15 dos tais 140” acompanhados pelo CDIJA no concelho “e esta taxa tem sido bastante maior ao longo dos anos” já que, explica o neuropsicólogo, existe uma sensibilidade cada vez maior das famílias e da própria comunidade para identificar e sinalizar os casos.

Questionada sobre a disponibilidade financeira dos lagoenses para aceder a este tipo de serviços, a diretora-geral do CDIJA explica que a clínica tem acordos com diferentes seguradoras e que existe uma rede de sinalização articulada com as diferentes entidades públicas que permite ajudar as famílias mais carenciadas, beneficiando, a maioria dos casos, dos tratamentos comparticipados.

O CDIJA nasceu em 2008 e já está presente em três ilhas dos Açores. Conta com dezenas de profissionais ligados à psicologia, psicomotricidade, terapia da fala, musicoterapia e terapia ocupacional direcionada para crianças e jovens, que, desde o mês passado, também estão disponíveis na Lagoa.

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2021

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