Bento, a peça-chave de um trabalho invisível no Operário

É roupeiro do clube lagoense há 25 anos. O Diário da Lagoa quis saber quem é e o que faz alguém que todos conhecem mas cujo trabalho passa muitas vezes despercebido

Bento Martins tem 52 anos e é sempre o primeiro a chegar e o último a sair © DL

Chegámos ao campo João Gualberto Borges Arruda, na freguesia do Rosário, na Lagoa, por volta da uma da tarde de uma terça-feira de agosto. Bento Martins, 52 anos, já lavava o equipamento de treino e de jogo do plantel principal do Operário para o treino do dia seguinte. Àquela hora apenas ouvem-se as ondas do mar e as cinco máquinas da lavandaria a trabalhar. Bento cresceu na Lagoa e é colaborador do Operário há 25 anos. Trabalha ao som do seu rádio antigo, que repousa numa das prateleiras da lavandaria, por baixo da fotografia da filha que afixou na parede. “Esta é a minha casa, gosto muito do que faço”, começa por contar.

João Ventura, 27 anos, é jogador do Operário e esteve na formação do clube durante mais de dez anos. Em conversa com o Diário Lagoa (DL) não tem dúvidas de que Bento é a alma do clube e “um autêntico fabril”.

O extremo direito diz que “o Bento é uma pessoa especial, gosta de fazer partidas aos novos jogadores, e de certa forma ele influencia a nossa performance de uma forma positiva”.

Mas o que faz exatamente o roupeiro de um clube de futebol?

Bento é o primeiro a chegar e isso implica vir logo de manhã durante toda a semana e, ao fim de semana, nos dias em que há jogo. Depois de abrir os portões e ligar as luzes dos diferentes espaços, o roupeiro do Operário dedica-se a preparar cada um dos cestos vermelhos, numerados, que os jogadores levam depois para o balneário. Em cada um está o equipamento que foi lavado, cuidado, seco e passado a ferro pelo roupeiro fabril no dia anterior. São dezenas de peças de roupa, todos os dias, que passam pelas máquinas de lavar e secar do clube lagoense. Tem sete irmãos e começou a trabalhar aos 14 como carpinteiro: “as mamãs e os papás não tinham dinheiro e tínhamos de trabalhar”, conta Bento. Trabalhou na discoteca “Cheers”, na Atalhada, “até encontrar uma coisa melhor e encontrei o Operário”. Desde então “o gosto pelo clube” fê-lo ficar ligado ao futebol lagoense, uma ligação sobretudo “pelas pessoas”.

O trabalho multiplica-se até tarde. “Ontem recebi cestos à meia-noite”, conta. Bento é o primeiro a chegar e o último a sair. Só depois do jogo ou dos treinos, e de todos abandonarem os balneários é que Bento também pode ir descansar. Garante que trabalho, nunca lhe falta: “trato de tudo sozinho, veteranos, seniores, juvenis, juniores”. Na conversa que foi tendo com o DL, mostrou que “quem tem gosto vai a Roma”, brinca: “vocês sabem muito bem aquilo que eu faço”, diz citando as conversas que tem com quem faz parte do clube lagoense.

Após o habitual treino matinal, ouvem-se os pitons no cimento que liga o campo aos balneários e a respiração ofegante dos jogadores que, depois da prática desportiva, alinham-se à vez para realizar o que se segue: tratamentos musculares, tomar duche e dar a roupa a Bento que trata de a pôr como nova para mais uma partida. À hora a que entramos na lavandaria onde se encontram diretores desportivos, massagistas e outros colaboradores do clube com os olhos rasgados de sorrir. Felizes porque fazem o que gostam mas também por estarem uns com os outros, num ambiente profissional mas, simultaneamente, tão familiar.

Outro papel importante que Bento tem é a interação que cria e o “bom ambiente”, descrito por todos, sobretudo com os jogadores. Daniel tem 28 anos é um dos que integra o plantel sénior. Conhece Bento há 14 anos e diz que ele tem um papel fundamental de integração: “quando vêm jogadores novos ele integra-os muito bem, normalmente com brincadeiras e partidas” diz em tom de gargalhada.

Gonçalo Silva, hoje com 23 anos, é um dos ex-jogadores do Clube Operário Desportivo e conta que o roupeiro da equipa é “uma pessoa muito divertida que gosta muito de ajudar os outros e que é muito trabalhador”. Quem priva com ele conta que é uma referência, que os “ajuda em tudo”.

Como em todas as estruturas existe uma hierarquia mas, na maioria das vezes, não há rótulos e a igualdade prevalece. Até mesmo o diretor desportivo do escalão sénior, Wivisson André, 44 anos, confessa: “o Bento é mesmo o símbolo do clube. Já passei por muitos clubes e é um profissional como nunca vi. Vamos preservá-lo até onde pudermos, para além do bom profissional que é, é um excelente amigo”.

O desporto tem um papel central no desenvolvimento das crianças. Atualmente o Operário tem 80 crianças e jovens nos seus escalões de formação, que vão desde os traquinas aos juniores, uma faixa etária que vai desde os 5 aos 17 anos.

A ligação de Bento aos mais jovens começa cedo e muitas vezes prolonga-se por anos. O roupeiro do Operário diz mesmo: “criei muitas crianças aqui”.

Com os números da obesidade infantil a aumentarem, onde nos Açores uma em cada em três crianças tem peso a mais, a atividade física assume um papel essencial na promoção da saúde e no desenvolvimento dos mais jovens.

O Clube Operário Desportivo desde muito cedo aposta nas suas camadas jovens. Com sede no Rosário, foi fundado em 1948 tendo como princípios a promoção do fairplay dentro e fora de campo, o respeito mútuo e a responsabilidade.

Em declarações ao DL, a direção do clube diz que existe “uma responsabilidade social principalmente com as crianças da zona local” sendo necessário motivá-las e “mostrar-lhes que existem uma imensidão de oportunidades, mas que é necessário trabalhar por elas”. E em suma, Bento lembra que, como em tudo na vida, “a gente tem de ter gosto nisto”.

Sofia Magalhães
com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de setembro de 2021

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