Bruno França assume a presidência da Associação de Judo do Arquipélago dos Açores

Organismo pretende aumentar número de praticantes da modalidade e criar centros de treino regionais para potenciar o rendimento dos atletas açorianos dentro e fora do tapete

Bruno França é sargento do Exército e dirige também o Judolag – Judo Clube de Lagoa © DL

É natural da Lagoa, tem 42 anos e 30 deles são dedicados a uma das suas grandes paixões: o judo. Fala com entusiasmo de tudo o que envolve a modalidade que ajuda a impulsionar todos os dias. É responsável pelo Judolag – Judo Clube de Lagoa e sargento do Exército no quartel general da Zona Militar dos Açores. É o judo que lhe ocupa boa parte do tempo.

No final do ano passado, Bruno França assumiu a presidência da Associação de Judo do Arquipélago dos Açores (AJAA) onde exercia as funções de vogal e onde já fazia caminho até chegar ao topo da direção da associação. Garante que quer continuar a aumentar a qualidade e a quantidade de atletas que abraçam a modalidade que continua a ser um parente pobre do desporto regional. Mesmo sem grande visibilidade mediática, o judo açoriano vai deixando marcas ao mais alto nível nas competições regionais, nacionais e até internacionais.

DL: Como surgiu o convite para integrar a AJAA?
Já há mais de 10 anos que surgiu esse convite e essa semente foi colocada pelo anterior presidente da Associação de Judo dos Açores. Fiz parte da AJAA durante muitos anos, depois houve ali um interregno por algumas diferenças que tivemos e depois voltei. Como vogal estive seis anos.

DL: Quais são os seus principais objetivos para a associação?
Antes havia duas associações nos Açores: a Associação de Judo do Arquipélago dos Açores e a Associação de Judo da Ilha Terceira e agora uniu-se tudo. Desta forma, o nosso principal objetivo foi criar uma associação que fosse transversal a todos os clubes e conseguimos fazer isso porque os órgãos sociais têm elementos de quase todos os clubes, toda a gente se sente representada de forma transparente e toda a gente faz parte do processo de decisão desta nova associação.

DL: Querem levar o judo ainda mais longe?
É muito difícil porque o judo açoriano já atingiu um patamar muito bom. Temos atletas em projetos olímpicos, atletas de alto rendimento. Mas com a nossa descontinuidade territorial estamos a perder um pouco de pedalada porque a nível nacional, eles estão a evoluir forte. Eles têm uma carrinha ou alugam um autocarro e vão a provas nacionais e têm muito mais variedade e gente para poder evoluir. Nós, com a nossa descontinuidade estamos a ficar um pouco para trás. O que está a acontecer agora? Estamos a criar uma dinâmica, estamos a criar um projeto com o novo diretor técnico que honra os pergaminhos do antigo. O nosso novo diretor técnico é o André Soares, foi um atleta de alto rendimento que fez o circuito internacional, formado em educação física e especializou-se em judo, é de São Jorge.

DL: Que projetos têm em mãos?
Queremos criar centros de treino regionais. Vamos criar uma pré-seleção dos melhores dos melhores atletas e dar os apoios para conseguirmos ir a a mais provas, a mais estágios mesmo a nível regional em várias ilhas. Se houver possibilidade ou um atleta que necessite e que tenha ambição de treinar e ser apoiado, mesmo em termos de escola, pode ser colocado no centro de treinos de São Jorge a custo zero. Esse atleta será apoiado com um médico, um nutricionista, alimentação e apoio na escola com um tutor escolar. Podemos começar já com miúdos a partir dos 13 anos.

DL: Isso inclui a possibilidade de qualquer atleta de qualquer ilha poder aceder a esse programa?
Sim, das ilhas todas. Existe o centro de treinos de São Jorge mas não nos vamos cingir só a esse. Iremos fazer estágios também na Terceira e São Miguel. Estes apoios são dirigidos a jovens atletas regionais com algum talento ou com potencial de dar um salto para a excelência nacional.

DL: Que apoios contam ter?
Temos os apoios regionais, que existem. É tudo novo, não sabemos se será suficiente ou não. Não gostamos de megalomanias e não queremos apresentar um projeto demasiadamente ambicioso onde depois os resultados serão zero. Não deveremos confundir desporto social com desporto de alto rendimento ou mesmo de competição, olímpico, são coisas completamente diferentes. O desporto olímpico exige outro tipo de sacrifícios e apoios. Todo o desporto tem de ser apoiado mas tem de haver uma diferenciação entre quem quer fazer manutenção e os atletas que treinam mais do que uma vez por dia e têm outros planos.

DL: Quantos atletas estão abrangidos pela AJAA?
A associação tem neste momento cerca de 1300 atletas em três ilhas: São Miguel, Terceira e São Jorge. É o total de federados no arquipélago. O objetivo é aumentar esse número. Somos das modalidades com maior número de atletas federados, mesmo não sendo uma modalidade muito conhecida. Um dos nossos objetivos é melhorar a nossa dinâmica e promover a nossa imagem, era o que estávamos a falhar um pouco. É rara a modalidade que consegue o que conseguimos a nível internacional, de projetos olímpicos, de alto rendimento.

DL: Quantos atletas de alto rendimento têm?
Dois. Baixámos um pouco por causa da pandemia, com atletas que entraram em fim de ciclo. Há uns anos dos oito atletas masculinos a nível nacional apurados para o campeonato de judo no Rio de Janeiro, quatro eram dos Açores. Se pegássemos nisso, comunicação social incluída, – que também pode não ter conhecimento – seria diferente. É preciso fazer esse trabalho. Se dos oito nacionais, quatro eram dos Açores, alguma coisa fizemos de bom.

DL: De que forma a pandemia afetou a modalidade na região?
Afetou muito. Estamos a tentar manter a dinâmica. Desde o primeiro dia de confinamento continuamos a dar aulas diariamente via zoom, redes sociais, a criar desafios pais e filhos mas infelizmente perdemos atletas. Sempre que temos uma reabertura, retomamos os treinos, não há contacto, o que é muito difícil no judo.

DL: Ainda treinam sem contacto físico?
Ainda. Houve uma altura em que, na situação de baixo risco, começamos a treinar com contacto físico mas sempre que vem uma nova vaga temos de descansar. Treinamos agora sem máscara e sem contacto físico. Criámos uns quadrados únicos, cada um traz a sua máscara até ao quadrado, desinfeta as mãos, tem controle de temperatura e faz o seu treino no quadrado. Sempre que um atleta termina o seu treino, ele próprio desinfeta o seu quadrado, deixamos 10 minutos a arejar. Os treinos são mais curtos. Criamos um sistema de provas online com desafios, com prémios para motivar, a nível Açores.

DL: Numa altura em que as pessoas se movem menos e estão mais em casa, o desporto é ainda mais importante?
É fundamental. Costumo dizer que uma esponja quando está encharcada se quisermos absorver mais alguma coisa já não absorvemos nada. Se as crianças estiverem só a estudar e a olhar para os livros ficam saturadas e não conseguem absorver mais nada. O desporto é o que faz espremer a esponja para conseguir absorver mais alguma coisa. Se não libertarmos as nossas energias, as dopaminas que fazem libertar a boa disposição no nosso cérebro, não conseguimos absorver mais nada.

Sara Sousa Oliveira

Entrevista publicada na edição impressa de junho de 2021

Categorias: Entrevista

Deixe o seu comentário