Cabouco tem a única empresa do país que produz a substância astaxantina extraída de microalgas

Em todo o mundo há apenas 12 empresas dedicadas a este tipo de produção. A substância, transformada em suplemento alimentar, foi lançada no mercado em plena pandemia

Maria Helena Pereira da Silva e Gonçalo Mota (na foto), junto com Luís Teves, criaram empresa em 2007 mas só este ano conseguiram entrar no mercado SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

As paredes brancas que remetem, sem hesitar, para aquilo que parece ser apenas mais uma empresa no meio de tantas, esconde um mundo difícil de imaginar, no coração do parque industrial dos Portões Vermelhos, na Lagoa.

Depois de passar uma pequena porta, quem chega, encontra um cenário que quase toca a ficção: filas e filas de várias dezenas de reatores – tubos altos de vidro transparente – com um líquido de cor verde no interior, e que já estão patenteados. Em cada um, desenvolve-se o ouro negro desta empresa de biotecnologia: as microalgas que, a partir daqui, se abriram ao mundo em plena pandemia.

Maria Helena Pereira da Silva é economista e antiga professora na Universidade dos Açores (UAc). Escolheu os Açores para viver há 37 anos. “Em 2007 criámos esta empresa, a Algicel, na altura o grande objetivo que o Gonçalo Mota e o Luís Teves tinham era a investigação acerca da produção à escala industrial da microalga de água doce, a ´haematococcus pluvialis´”, começa por explicar a também sócia da empresa. Maria Helena diz que foi preciso muita persistência e muita resiliência para levar por adiante um projeto desta dimensão e desta natureza que só em abril passado, chegou ao mercado.

Numa primeira fase as microalgas são verdes e só mais tarde passam para a cor vermelha. SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

O nome complicado que proferiu, ´haematococcus pluvialis´, é a base do produto final desta empresa – e já lá vamos – mas a origem de tudo o que a vista alcança, nos 10 mil metros de reatores interiores e exteriores, veio de um charco, na freguesia de Santo António, em Ponta Delgada. “Um litro de água tem centenas de espécies de microalgas, fungos, bactérias e é preciso isolar a microalga que nós queremos para não ficar contaminada com nenhum outro ser e isso é um processo longo e exigente”, começa por explicar Gonçalo Mota, engenheiro agro-industrial e sócio da Algicel. Depois de identificada e isolada a microalga de água doce que procuravam, e que tem características únicas nos Açores, seguiu-se um longo processo de investigação que durou três anos com a Universidade dos Açores em articulação com a Direção Regional da Ciência e Tecnologia. Depois de muita pesquisa, os três sócios encontram os terrenos onde se instalaram no Cabouco, por terem as características que procuravam, e por estarem longe de fontes de poluição tendo iniciado a construção do espaço em 2018.

Reatores instalados no exterior estão expostos à luz solar para que as microalgas possam completar o seu processo de crescimento SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

Portões Vermelhos guardam biblioteca de microalgas
Depois de terem ido à fonte, na poderosa mãe natureza, aquilo que agora acontece dentro das paredes desta empresa já não depende diretamente dela. “Nós não vamos buscar as microalgas a lado nenhum, não fazemos colheita de microalgas é uma ideia errada que passa aí”, sublinha Gonçalo Mota. O autor do projeto, junto com Luís Teves, engenheiro de produção industrial, lideram uma equipa de oito pessoas ligadas às biotecnologia, dedicadas a cem por cento ao projeto. “A partir de uma biblioteca de microalgas vamos reproduzindo, a partir da mesma base, o que queremos”, explica Gonçalo Mota ao Diário da Lagoa.

O processo, complexo, demorou vários anos até ficar concluído. “O que nós fazemos aqui é inocular [propagar] em reatores de dimensões crescentes a microalga em meio aquático. Ela tem um metabolismo semelhante ao de uma planta. Nos diferentes reatores ela vai passando das várias fases”.
Estas microalgas, de onde se quer extrair a substância astaxantina – conhecida mundialmente por inúmeros benefícios para a saúde – começam por crescer dentro de portas, fora da luz do sol, e estão num meio aquático verde. “Ela numa primeira fase é verde com um determinado tipo de morfologia. Quando elas já estão suficientemente maduras, fazemos a transferência do interior para os reatores que estão no exterior que são vermelhos e têm uma morfologia muito diferente”, explica o engenheiro agro-industrial.

Astaxantina desidratada é um pó vermelho que depois vai para a Alemanha para, através de um óleo, ser transformado em cápsulas SARA SOUSA OLIVEIRA / DL

Em todo o mundo só existem 12 empresas que produzem astaxantina
No espaço exterior, e com a ajuda da fotossíntese provocada pelos raios solares, várias dezenas de outros reatores albergam muitos milhões de microalgas, com várias tonalidades de vermelho, e na fase final do desenvolvimento.

As microalgas são sempre microscópicas. São do tamanho da décima parte de um milímetro e terminam o seu ciclo um pouco maior.
Depois de completado o seu ciclo de crescimento, que demora um mês, segue-se a extração da matéria prima trabalhada na Lagoa. “No final, deixamos de ter clorofila e passamos a ter astaxantina”, sublinha Gonçalo Mota, uma substância com dez vez mais antioxidantes e que, em todo o país, só é produzida nesta empresa instalada na Lagoa. Em todo o mundo apenas 12 empresas se dedicam à extração desta potente microalga, transformada em suplemento alimentar.

Na reta final do processo, “a água é centrifugada e conseguimos uma massa com a consistência de um iogurte líquido que é sujeito a um processo de altas pressões para que seja possível extrair a astaxantina que está no seu interior. Esta biomassa é desidratada e depois o pó é embalado em vácuo”. Da Lagoa, o pó vermelho segue para a Alemanha onde é extraído um óleo que dá origem às cápsulas do suplemento alimentar da Algicel, o Azora, que volta para os Açores, onde está à venda, mas o objetivo é chegar ainda mais longe.

De acordo com Maria Helena Pereira da Silva, o investimento total ronda os dois milhões de euros. A empresa instalada nos Portões Vermelhos tem capacidade para produzir duas toneladas de biomassa por ano, o que dá para 150 mil frascos de suplemento.

Apesar de um quilo de astaxantina, em estado puro, custar 100 mil euros, os proveitos de todo o investimento deverão demorar a chegar: “isto é como plantar uma floresta, vamos ter retorno depois de muitos anos mas o que nos define é a nossa resiliência”, sublinha a sócia-gerente da empresa. Atualmente, o produto final pode ser encontrado em farmácias e parafarmácias dos Açores e do continente mas o objetivo é chegar a outras paragens. Em curso, estão conversações para que o suplemento produzido com uma estirpe única de microalgas açorianas possa ser exportado, numa primeira fase, para Espanha e Polónia. França, Luxemburgo e Alemanha também estão dentro da equação que a pandemia e as restrições de circulação mundiais, vieram atrasar. Mas a estrada, da Lagoa até ao resto do mundo, está lançada e a distância é cada vez mais curta.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2020)

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. nilza pacheco 14 Fevereiro, 2021, 17:22

    Pergunto onde comprar, vivo no norte de continente, Porto
    Grata

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