Cervejaria Lagoinha chega a vender 300 litros de cerveja por dia durante o verão

Localiza-se em Vila Franca do Campo mas o nome tem origem no concelho da Lagoa. A cerveja do Lagoinha é um fenómeno que atrai centenas de locais e turistas todo o ano

Cervejaria fica localizada na Rua da Igreja, em Água d´Alto @ DL

É na Rua da Igreja, em Água d’Alto, que se junta muita gente para beber a cerveja da Lagoinha. À primeira vista parece uma casa, não fosse a porta aberta para o entra e sai de clientes com as mãos cheias de finos.

O negócio já passou por três gerações da família Correia, mas nem sempre foi uma cervejaria. “Isso é do tempo do meu avô, que começou aqui como empregado de uma mercearia. Depois o patrão teve de emigrar e ele comprou-a”, explica Nuno Correia, que é quem gere atualmente o estabelecimento, em conjunto com o seu pai, Luís Correia.

Nuno Correia, terceira geração de gerência da Lagoinha © MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Foi no início dos anos 50 que o avô de Nuno, o senhor João Bento, adquiriu o imóvel. No entanto, só na década de 80, quando passou o negócio ao filho é que Luís converteu a mercearia em cervejaria. “A cerveja a pressão começou a aparecer e o meu pai introduziu-se nessa área”, esclarece Nuno.

A cervejaria passou a ser chamada de “A Lagoinha” por um cliente da época, que também frequentava uma tasca no centro de Vila Franca do Campo, onde se bebia vinho das pipas. “O proprietário dessa tasca, o senhor Custódio, era muito ciumento dos seus clientes e não gostava que eles fossem a outros sítios”, refere Nuno, acrescentando que “quando os seus clientes vieram cá pela primeira vez, o dono da tasca ficou muito ofendido”. A solução que encontraram para poderem ir à cervejaria foi dizer que “iam à Lagoinha”. “Assim, o senhor Custódio ficava a pensar que eles iam ao concelho da Lagoa, quando, na verdade, eles vinham era aqui beber cerveja e depois voltavam para lá para beber vinho”, conclui.

No verão chegam a vender 10 barris de cerveja em dias de fim de semana

Na Lagoinha, a máquina de finos não tem descanso. Embora durante o inverno o lucro seja muito menor, “no verão, num fim de semana bom, vendemos uns 10 barris de 30 litros por dia”, indica Nuno. Ou seja, 300 litros. Aqui com 65 cêntimos se bebe uma cerveja. “Compramos em grande quantidade ao fornecedor e, por isso, conseguimos vender barato, reconhece o proprietário, garantindo que enquanto “este preço der para pagar as contas e ainda sobrar é para manter”.

Cada fino custa 65 cêntimos @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Entre um fino e outro conseguem ouvir-se as conversas dos clientes com os funcionários. Chamam-lhes pelos nomes. “Fernando, tira-me mais um. Vando, faz-me o troco”. Vando confessa que, quando começou a trabalhar na cervejaria há ano e meio, o mais difícil foi decorar os preços dos produtos. Hoje em dia, sabe na ponta da língua o preço do fino, ao licor, da laranjada à kima, dos tremoços aos pistáchios.

Fernando, que já faz parte da casa há seis anos, diz adorar o que faz por conseguir estar com os amigos enquanto trabalha. “De uma forma ou de outra, os meus amigos vêm todos cá ter. Só que eles estão gastando e eu estou faturando”, brinca o funcionário, causando a gargalhada entre os amigos.

Fernando e Vando a servirem os clientes @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Clientes fiéis há várias décadas

Longe desta algazarra está um senhor ao fundo da Lagoinha, sentado frente à única mesa, a ler serenamente o seu jornal. É Eduino Simas, um dos clientes mais antigo do estabelecimento, que tem a rotina de todos os dias vir folhear a imprensa regional enquanto bebe um fino. “Venho cá desde o princípio dos anos 60. Ainda era mercearia e taberna, nem se chamava Lagoinha, era a Loja do João Bento”, recorda. O homem de 76 anos, descreve que antes, na zona onde está sentado, “havia uma adega e mais à frente uma cerca de galinhas”. Lembra-se que antigamente, “ainda nem havia estrada, vinha por caminhos de terra, para a loja, com amigos que infelizmente já faleceram”.

Do extremo do café, observa-o Duarte Fontes, outro cliente assíduo há mais de quatro décadas. “Venho todos os fins de semana com três ou quatro amigos. A partir das 17 horas estamos aqui, nem é preciso combinar, este é o ponto de encontro”, relata. A maior diferença que vai notando na Lagoinha é a “presença da juventude, que agora é dona disto”, o que vê com bons olhos, porque também as suas filhas frequentam o espaço “tendo total liberdade para fazerem o mesmo que o pai faz”.

Convívio de miúdos a graúdos

Ao sair da porta da cervejaria é precisamente um grupo de jovens, todos com menos de 20 anos, que anima quem por lá passa. Consigo trouxeram uma coluna de som, com cerca de um metro de altura, e à sua volta dançam e cantam, contagiando todos à sua volta. “Como agora não há festas é assim que aproveitamos”, afirmam. Segundo o grupo vilafranquense, “já é tradição vir à Lagoinha. O convívio e o espaço são muito bons e os finos são baratos”.

Grupo de jovens que anima os restantes clientes com música e dança @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Perto deste grupo reúne-se outro, um pouco mais velho, que vai cantarolando as músicas pimba que passam. Nuno, Maria, Ana e Duarte são de Ponta Delgada mas, quando vêm a uma praia do concelho, aproveitam para terminar o dia onde “a cerveja é boa, o pôr do sol é muito bonito e o ambiente animado”, mencionam enquanto comem tremoços.

Outro conjunto de amigas teve a mesma ideia. Depois de um banho na Caloura deslocam-se a Água d’Alto, porque “a água do mar refresca por fora e a cerveja da Lagoinha refresca por dentro”, riem as quatro mulheres sentadas no adro da igreja. Para elas, “cervejas há muitas, mas como a do Lagoinha não há mais nenhuma”. No verão é “um dos pontos de referência para nos juntarmos a beber. O convívio aqui é muito bom, porque a zona envolvente é espaçosa”.

Adeptos da Lagoinha espalham-se pela escadaria da igreja @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

O segredo da cerveja é estar ao lado da igreja

Muitos são os palpites em torno do segredo desta cerveja. Paula, uma das mulheres deste grupo de amigas, sugere que “por ser tão boa, fresca e leve deve vir de vários barris interligados entre si, o que depois dá um produto final cheio de gás e de pressão que não encontramos à venda em mais nenhum sítio”. Contudo, para o proprietário da cervejaria, o único segredo é “estar aqui ao lado da igreja, ficando abençoada por Deus. Acho mesmo que estamos protegidos por esta força divina. O resto do trabalho nós fazemos”.

É pela fama desta cerveja que cada vez mais turistas a vêm provar. Sara, natural de Ponta Delgada, não quis perder a oportunidade de trazer à Lagoinha o amigo Ivan, de Peniche, que está de férias em São Miguel. “É a melhor cerveja da ilha, a que aguenta mais tempo fresquinha e viva. Seria uma pena se ele não experimentasse”, insiste Sara, enquanto segura a cadela Laika, que trouxe consigo, e que cativa a atenção de todos os que se aproximam para a acariciar.

Sara a dar a conhecer a Ivan a “melhor cerveja da ilha”, na companhia da sua cadela @ MARIA LEONOR BICUDO/ DL

Maria Leonor Bicudo

Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2021

Categorias: Reportagem

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