Coisas da vida: década após década, dia após dia, tudo piora

Mário Rui Pacheco
Economista e empresário

Segundo os últimos dados da Eurostat, os jovens portugueses são dos que mais adiam a saída da casa dos pais, em média, por volta dos 30 anos. No norte da Europa, observamos um cenário distinto: os jovens são incentivados a saírem de casa aquando do ingresso nas universidades para serem confrontados com a realidade da partilha de quartos em casas comuns ou em residências universitárias, e, recebem apenas uma mesada. São, assim, “obrigados” a gerir o seu próprio fundo de maneio. Cá, em Portugal, a realidade é outra — já lá vai o tempo que se saía da casa dos pais por necessidade, para trabalhar e colocar o pão na mesa —, ainda existe muito vincada a ideia, na sociedade portuguesa, de que os pais têm a obrigação de “bancar totalmente os meninos”, enquanto estão na faculdade, para não falar dos casos em que as oportunidades não são aproveitadas pelos próprios.

Apesar de uma gradual e tímida mudança na nossa sociedade, parece que nada se alterou e, em bom rigor, segundo as estatísticas, de facto os jovens portugueses continuam a permanecer em casa dos pais até aos 30 anos. Ainda que se adote um modelo durante a faculdade, muitos regressam à casa dos pais. E, agora, vejamos: os fatores e as causas podem dever-se à realidade do mercado de trabalho, à pouca oferta de emprego, aos baixos salários auferidos, aos problemas com as dependências, à falta de maturidade, etc. No entanto, não se verifica qualquer mudança ou melhoria, nem tampouco se espera que tal aconteça, até porque a própria conjuntura não o permite, nem o Estado o tem proporcionado. O problema está nos últimos Governos que nada fizeram no sentido de alterar este cenário, nada têm feito para nos aproximar dos padrões e modelo dos países do norte da Europa, onde persistem economias saudáveis e em constante mutação.

Passamos por dois anos terríveis, em pandemia, e quando pensávamos que iriamos conseguir respirar de alívio, surge outra crise gerada pela guerra na Ucrânia. Os efeitos desta nova crise serão avassaladores para a economia, sobretudo para as famílias que não irão suportar as sucessivas escaladas dos aumentos de preços de produtos de primeira necessidade. Na verdade, vamos assistir a um retrocesso na emancipação dos jovens e, noutros casos, testemunhar o regresso dos jovens à casa dos pais.

Urge implementar políticas locais para assegurar a habitação acessível permanente para os jovens, bem como uma adequação do mercado de trabalho para os mesmos. E, atenção, medidas que devem passar pela criação de sinergias entre as universidades, promovendo a criação de novos empregos como fator principal para evitar o regresso à casa dos pais após o término dos cursos. Em vez disso, nos dias que correm, observamos à contínua oferta educativa em áreas do mercado de trabalho já saturadas.

Esta minha reflexão é nada mais do que uma preocupação, enquanto pai… Um pai que olha para um futuro não muito distante, onde preparo dois seres para enfrentarem esta realidade. E, confesso que me preocupa que não lhes reste alternativa a não ser regressar um dia à casa do pai ou da mãe. Enquanto isso, o meu objetivo é que tenham a iniciativa e que procurem ser independentes, e, mais, que o próprio Estado (a quem cabe o ónus) o proporcione, a eles e a tantos outros jovens que têm o direito à sua autonomia, à sua liberdade, sem medos ou retrocessos.

Categorias: Opinião

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