Começou cedo e acabou cedo – João Benevides é o último ferreiro ferrador de São Miguel

Naquela que é a maior tenda de ferreiro ferrador da ilha, João Benevides fazia um pouco de tudo. Garante que da sua oficina saiam várias peças em ferro e até a cura de uma doença

Ferreiro Ferrador está localizado na Avenida Infante D. Henrique na freguesia de Nossa Senhora do Rosário © INÊS LINHARES DIAS/ DL

A placa que anuncia a presença do ferreiro ferrador quase entra pela estreita porta adentro. É na esquina da Avenida Infante D. Henrique com a Avenida Conselheiro Poças Falcão, bem no centro da Lagoa, que se encontra a tenda, onde, desde o século XIX, funcionou uma das maiores oficinas de ferreiro (se não mesmo a maior) da ilha de São Miguel.

O espaço amplo e escuro é hoje fresco, mas, em tempos, houve até quem o comparasse com o inferno, devido ao calor das fornalhas, sempre em atividade, tal era a procura.

Para além de espaço de trabalho, que chegou a empregar cinco homens, a oficina era também um local de convívio, que juntava os camponeses em dias de chuva, “em vez de estarem nas tabernas”, explica João Benevides.

O artesão conta que, uma vez, apareceu um senhor, “que já veio para aí com uns copinhos e sentou-se aí à porta e pegou no sono”. Acordou, horas mais tarde, esbaforido, gritando: “Os senhores demónios façam de mim o que quiserem!”

“Ele julgava, quando acordou, que estava no inferno, com o lume a arder, e os ferreiros eram os demónios… Isso foi rir, que misericórdia!”, recorda, retomando a gargalhada daquele dia.

Mas a procura amainou e ditou o fim da profissão. Agora, aquele espaço serve como um museu para um ofício obsoleto.

O núcleo museológico enchia-se de turistas, que vinham em “camionetas cheias”, mas, com a pandemia de covid-19 e a quebra no turismo, o fluxo de visitantes é menor.

“Um mal nunca vem só”, repete, por várias vezes, o último ferreiro ferrador da ilha de São Miguel.

Mal saiu da escola, com 13 anos, João Benevides assumiu o seu lugar naquele espaço, que já vinha do seu bisavô. Foi contra a vontade dos pais, que queriam que fosse “estudar ou para mecânico”. “Mas eu quis vir para aqui, para ao pé deles, com gosto na arte”, assevera Benevides.

“Hoje em dia, se pudesse, ainda trabalhava”, mas “a coluna já não deixa, nem a saúde”. “Foi de trabalhar muito – quando se trabalha desde muito cedo, tem de se acabar mais cedo”, explica entre risos. Reformou-se por invalidez, por volta dos 58 anos.

Não era trabalhar o ferro que lhe custava, mas antes “ferrar os cavalos, ferrar os bois, porque no tempo era tudo a tração animal”.

“Não havia camiões, não havia tratores, não havia nada. Vinham das Furnas carroças com lenha para as senhoras fazerem a comida, porque não havia gás, não havia certas coisas como hoje. A motor, não havia nada”, conta o ferreiro.

E foi precisamente a modernização da agricultura que ditou que o ofício que, com 13 anos, escolheu, se tornaria inútil.
Atualmente, “há muito poucos cavalos e os poucos que há já vêm com ferraduras feitas da Inglaterra, da Suécia”. São “cravos, ferraduras, eles mesmos em casa pregam. Eles pregam aquilo de qualquer maneira, desenrascam-se”, lamenta.
Ferrar animais era o ganha-pão de qualquer ferreiro, mas o ferro dava para muito: “Fazíamos as ferragens para os portões – dobradiças e aquelas aparelhagens todas –, utensílios de cozinha (as trempes, umas redondas, outras compridas), utensílios para a agricultura – as sachadeiras para sachar beterrabas e chicórias, fazia-se as foices, os pedões, as machadas para rachar lenha”, mas também se “arranjava os ferrinhos de correr a roupa, que eram a lenha, daqueles antigos”.

João Benevides tem 70 anos e assumiu o ofício do seu bisavô na oficina que atualmente possui © DL

Mas João Benevides sempre preferiu fazer ferraduras. “Ainda hoje faço porque gosto. Poder pegar no ferro e fazer dele o que a gente bem entender e com pouco esforço, porque aquilo sai a uma temperatura que eu faço com pouco esforço. Por isso é que me dá prazer fazer a ferradura.”

“Havia sempre muito serviço”, garante. “Hoje em dia, já vem tudo feito de fábrica, nem compensa estar aqui a fazer. Eu levo meio dia para fazer quatro ferraduras. Levo 20 euros, no mínimo. Aquilo não dá para o meu trabalho nem para o carvão. Vem de fora a sete ou oito euros… Um mal nunca vem só”, volta a frisar.

E o serviço era tanto, que não faltavam ferreiros pela ilha: “Só aqui, na Lagoa [no Rosário e em Santa Cruz], penso que havia quatro. Em Água de Pau, também havia dois. E por aí abaixo, em São Roque, no Livramento… Quando se ia à cidade buscar material para fazer ferraduras, havia muita tenda de ferreiro por aí abaixo”, narra, falando, mais tarde, de colegas de ofício na Ribeira Grande ou na Povoação.

“Havia espaço para tudo, havia muito serviço”, porque “aquilo era mais ou menos como os mecânicos de hoje – os ferreiros eram como os mecânicos”.

Ainda assim, a concorrência era feroz: “Aqui sempre foi a oficina maior da ilha. As outras eram tendas de ferreiro, eram muito pequeninas, vinha muito serviço para aqui”.

De tal forma, que os outros ferreiros “brigavam muito uns com os outros por causa dos preços. Eles para fazerem alguma coisa, tinham que puxar os preços para baixo, às vezes [tanto] que nem compensava. Depois havia zaragatas uns com os outros – chapada para cá, chapada para lá”, conta a rir-se.

Era também curandeiro da ‘cobrêla’, uma doença de pele que “dava como umas bexiguinhas” e para a qual não havia outra cura que não o óleo de trigo, destilado com o ferro quente.

“Dava-se ali e aquilo, quatro, cinco, seis dias, sarava. Hoje em dia há medicamentos para aquilo, mas, naquela altura, a gente tinha de se desenrascar”. E “resultava!”, exclama o artesão. “Vinha muita gente, da freguesia e de fora, porque nem todos os ferreiros sabiam fazer aquilo”.

Agora, é tudo mais calmo. A arte “não vai desaparecer”, afiança João Benevides, acrescentando que, “pelo menos como museu, não vai desaparecer”.

“Eu tinha muito orgulho [em] que não desaparecesse, para mostrarem ao turismo, aos nossos netos e filhos, o que no nosso tempo se fazia aqui”.

Mas não acredita que haja gente disposta a reavivar a arte. “Para aprender, é preciso ganhar. Quem é que vai pagar?”, questiona.

Se houver quem pague, João está cá para perpetuar o ofício. “Então não estava disponível para ensinar? Então não gostava? Quando eu não estiver cá neste mundo, tem o meu filho que sabe. Quando eu for para Jesus”, concretiza aos risos, “ele desenrasca-se, porque tudo quanto eu sei, ele sabe fazer”.

Por enquanto, com 70 anos, é João Benevides quem olha por aquele espaço, entre as 14:00 e as 18:00. “Da parte da manhã, tenho um quintalinho e estou entretido lá, a sachar couvinhas para a gente comer, umas alfaces, umas batatinhas”, remata.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2021

Categorias: Reportagem

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