Como era e como vai ser o Natal na Lagoa?

Toda a gente sabe como é na sua casa mas muitas vezes não sabe como é na casa do lado. O DL falou com habitantes de diferentes freguesias do concelho de Lagoa para perceber o que vai mudar este ano

Urânia (cima à esq.), Margarida (cima à dir.), António (baixo à esq.) e Laudalino (baixo à dir.) FOTOS DR

“Eu vou buscar a lista para a menina ver, tive fazendo as contas e somos 91 pessoas, estão vivos 88”, exclama Margarida Cruz, 64 anos, doméstica, logo depois de nos abrir a porta de sua casa. É a maior família de Água de Pau, certamente será a maior do concelho e uma das maiores da ilha. Margarida é a irmã mais velha da família Cruz e fala dos seus com o maior entusiasmo que consegue. “Para mim o mais importante no Natal é a saúde, uma paz e a família junta”, garante. Para esta pauense de gema, não há nada que substitua ter quem gosta por perto. “O Natal na minha casa é pobre e alegre”, conta a rir ao Diário da Lagoa. Diz que na noite da consoada são oito a jantar lá em casa, os mais chegados, e não pode faltar o bacalhau cozido, o grão, o repolho e o famoso bolo de Natal. O assado misto fica para o dia 25 mas antes disso há muita casa para correr. Margarida diz que tem por hábito ir à missa do galo. Depois volta a casa para “mudar o sapato, menos o vestuário”, conta, para depois seguir com o resto da família de casa em casa a anunciar e a cantar, o Natal. “Nós temos um grupo, os Animadores do Divino, só com a nossa família e vamos a casa uns dos outros, a noite toda é para correr as ´mijinhas´ do menino jesus”, conta Margarida. A noite do dia 24 é seguramente a mais longa para a família Cruz e as horas são poucas para chegar a todos: “são só bocadinhos em cada casa, não dá para tudo, para fazer um serão bem feito não dá para todos, a gente nem sequer se senta, bebemos a ´mijinha´ para aquecer e alá para cima outra vez”. Margarida diz que os vizinhos das casas onde entram também os convidam para fazerem lá a festa: “a família Cruz onde entra há sempre alegria”, garante a pauense, mas este ano por causa da pandemia, vai ser tudo diferente. “Espero pelo menos poder ir à missa do galo, se isso não fechar tudo, está muito complicado”, lamenta.

“Em todo o lado há um menino Jesus”
Quem também não sabe como será o seu Natal este ano é Urânia Almeida, 61 anos, natural do lugar dos Remédios. A assistente operacional diz que, por esta altura [novembro], já se sentia a aproximação da época festiva: “vivíamos aquela alegria, aos sábados à noite íamos para o coro ensaiar. Este ano está sendo diferente, eu gosto e vivo tanto isto mas este ano não tenho o espírito natalício e nem sei se vou enfeitar a casa”, lamenta. Para esta habitante dos Remédios há sempre o acessório e o verdadeiramente importante: “é a missa do galo, sempre, nunca falho, a festa de Natal para mim não existe sem missa do galo. Abrimos os presentes antes da missa, é uma alegria”, garante. Na casa da família Almeida, são sempre seis pessoas à mesa no dia 24 e no dia 25 de dezembro. Na mesa da consoada, os pratos são variados: há o peru, um assado, filetes, bacalhau de natas – porque o cozido não é muito apreciado pelo patriarca da família – recheio e pudim de atum. A comida, feita na véspera de Natal, vai unindo a família nos dias seguintes. O que também nunca falta é o famoso bolo de Natal, típico de quase todas as mesas lagoenses – e micaelenes – que Urânia costuma fazer quando faltam 15 dias para o Natal. Em cada divisão da casa costuma haver um presépio: “tenho uns seis ou sete, tenho de garrafas, reciclados, de cetim, de louça, muitos feitos pela minha filha, em todo o lado há um menino Jesus”.

“O Natal começa no dia em que chega a primeira filha”
Laudalino Almeida, 66 anos, aposentado, fala com brio e paixão do menino dos seus olhos: o seu presépio. Há mais de 30 anos, desde que casou, que costuma reservar a sala de sua casa, em Santa Cruz, só para ele. A avó, também da Lagoa, era bonecreira e ele não tem dúvidas de que o “bichinho”, como lhe chama, vem daí. “Começo a fazê-lo no dia 8 de dezembro, tiro as mobílias, tiro o lustre, a porta do quarto, tiro tudo, o presépio vem até à porta”. Da porta, passa a poder-se observar o presépio que demora vários dias a ficar concluído. Cada figura tem entre 30 e 35 centímetros e Laudalino orgulha-se de sublinhar que faz o que considera verdadeiramente tradicional com materiais naturais e o bonecos clássicos, acompanhados de castelos feitos na Cerâmica Vieira e inspirados em Belém. “O Natal começa no dia em que chega a primeira filha, para mim começa o Natal naquele dia. Estamos distantes e as saudades apertam principalmente nestes dias”, diz o santacruzense com duas filhas a trabalhar no continente.

Quem também tem um filho longe, na Escócia, é António Medeiros, 60 anos, aposentado, que este ano, as contingências provocadas pela pandemia vão obrigar a que não se possa juntar à família, no Cabouco. Os turnos que também vieram para ficar, em algumas profissões, impedem alguns reencontros: “nem sempre conseguimos juntar toda a gente no dia em que queremos mas arranja-se sempre forma de conciliar um dia com todos”.  Este ano António diz que se as coisas não piorarem “em vez de fazermos com a família toda, vamo-nos reunir por grupos mais pequenos talvez”, afiança, sem conseguir prever minimamente como será o Natal deste ano.
António, que viveu 11 anos na Bermuda, tem bem presente, na memória, as diferenças entre o Natal no estrangeiro e o Natal em São Miguel. “Não se vive a tradição do presépio, vive-se mais o consumismo e em família”, garante. O cabouquense garante que o presépio é tradição que também mantém com figuras com uns 100 anos, que guarda da tia-avó. “Tenho um pequeno castelo em barro que foi trazido da América. Quando crescemos toda a gente queria aquele castelo. A minha mãe não queria dá-lo a ninguém mas depois lá a convenci a dar-mo. Os meus irmãos quando vêm aqui dizem sempre ´ah lá acabaste por ficar com o castelo!´”, recorda a sorrir.

Na casa da família Medeiros, a árvore de Natal é artificial e é feita no dia 8 de dezembro. Para além desta, há outro ritual que também não muda: “mantenho a tradição de semear a minha ervilhaca no dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, põe-se de molho no dia de Nossa Senhora da Conceição, para ela ter o crescimento suficiente até ao Natal”, explica António.
Perguntámos a estes quatro lagoenses como era o Natal antigamente. As respostas, longas, revelam, em todos, saudade. Falam, sem exceção, em tempos bem mais pobres, mas mais felizes.

Margarida Cruz lembra-se dos cordões construídos com papéis de prata para pôr na árvore e das pequenas cestas de palhinha com figos passados.
Urânia Almeida também não esquece as mesmas cestas, que eram o seu presente, e as tangerinas com que enfeitavam a árvore.

Laudalino recorda-se dos postais que vinham do estrangeiro que ornamentavam a árvore e do melhor presente que teve: um carrinho elétrico com um fio ligado às pilhas, comprado com o dinheiro que uma tia mandou da Venezuela, expressamente para aquele fim.  António diverte-se ao falar do seu brinquedo mais especial: uma corneta oferecida pela avó que, no mesmo dia em que a ganhou, um miúdo partiu-a quando brincavam na rua.
Os tempos idos não voltam mas ainda adoçam a memória de quem carinhosamente os guarda e revive, ano após ano.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de dezembro de 2020)

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