Consoamos aqui os três!

Alexandre Oliveira
Professor

E chegamos a dezembro! O mês do Natal! Parece mentira, mas mais um ano está a chegar ao fim e será certamente um ano que dificilmente cairá no esquecimento. Foram muitas as mudanças que se operaram em tantos contextos da nossa sociedade à escala global ou na nossa em particular e serão ainda também muitas as que poderão ocorrer. Sem pedir permissão, a covid-19 avançou em todas as direções e chegou a todos os continentes, a todos os países e não se preocupou se passava a fronteira de países mais ricos ou mais pobres. “Ninguém estava preparado para isto” foi uma das expressões que ouvimos com frequência e que tentava talvez desculpabilizar o facto de nenhum país ter conseguido desenvolver uma ação eficaz, fosse na primeira fase, ou na segunda, ou em qualquer outra que venha. Nunca, com esta simultaneidade global, o planeta foi tão semelhante num problema e nas suas consequências.

Mas não era diretamente sobre a pandemia que queria falar…
Desde há algum tempo que se vem falando do Natal, de como se vai ou poderá viver o de 2020. É esta época um tempo forte de vivências familiares, de relacionamentos vários onde os sentimentos de solidariedade, de convivência, seja no grupo familiar ou profissional estão mais presentes, os amigos são mais amigos, em suma, todos desejam alimentar a sua vivência do tão falado “espírito de natal”. Sejam quais forem as restrições e as vivências de cada um, o Natal será neste mês, e nas mesmas datas de sempre, e não há pandemia que o mude. Sempre ouvimos que “Natal é quando o Homem quer”, é verdade, e este ano muitos quererão testar esta verdade.

São muitos os apelos que antecipam o comércio de natal e todos se multiplicam em esforços para que nada falte, para que à semelhança de todos os natais, cada família se possa reunir, num contexto muito diferente, onde se não podem esquecer os cuidados sanitários devidos à pandemia. A incerteza é grande e já se antecipa a tristeza de um tempo que poderá ser marcado pelas limitações. Quaisquer que elas sejam o Natal acontecerá!
Desafiava cada um a ler o conto NATAL, de Miguel Torga. O velho Garrinchas, no meio de uma vida simples, de pobreza, de dificuldades, de privações e de solidão, arranja companhia para a sua ceia de Natal, onde não faltou sequer o aconchego do lume. A capela onde se abrigou do vento e do frio foi a sua casa, uma imagem da Virgem e do menino foram a sua companhia.

…“ É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou nela trouxe-a para junto da fogueira. Consoamos aqui os três disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. A senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.” NATAL, in Novos contos da Montanha, Miguel Torga.

As adversidades da sua existência não foram impeditivas de viver o seu Natal!

É verdade que a incerteza que carateriza este tempo reina e tende cada vez mais a apoderar-se de nós, condicionando tantos aspetos da nossa vivência do quotidiano , mas cada um saberá reinventar-se para também viver o seu Natal!

(Artigo de opinião publicado na edição impressa de dezembro de 2020)

Categorias: Opinião

Comentários

  1. Alexandra 13 Dezembro, 2020, 22:03

    Bonito cenário de Natal. A sua verdadeira essência retratada de forma simples…como deve ser. Bom Natal!

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