Coronel Ângelo Manuel Albergaria Pacheco: o resumo de uma vida

Ângelo Manuel Albergaria Pacheco nasceu na Conceição, Ribeira Grande, a 26 de agosto de 1934, sendo filho de Ângelo Pacheco Alfinete e de Jacinta do Monte Albergaria. A sua esposa é Maria Antónia Mota Albergaria Pacheco.

Feitos os primeiros quatros anos da Escola Primária na Ribeira Grande, Ângelo Pacheco, não havendo Ensino Secundário naquele concelho, teve de se transferir para Ponta Delgada, para frequentar o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde passou sete anos da sua vida “em casa de uma tia minha, irmã da minha mãe, que me convidou para ficar lá em casa, e fiquei aqueles sete anos. Aquilo foi logo a seguir à guerra, em 1945, era muito difícil haver transportes. Só ia a casa de semana a semana, ou de quinze a quinze dias”, conta-nos, em declarações exclusivas ao jornal Diário da Lagoa.

Em 1952 ingressou na antiga Escola do Exército, em Lisboa, hoje Academia Militar, onde concluiu o Curso de Artilharia da Escola do Exército.

“O curso era de três anos: um ano de preparatórios, depois como tinha havido muitos concorrentes, eles fizeram um anexo da Escola Militar, ao invés de ser em Lisboa, na Amadora. Portanto, o primeiro ano foi na Amadora, os preparatórios. Depois, vim para a sede, em Lisboa”, tendo acabado o curso em 1955, a que se seguiu um estágio, de quase um ano, em Vendas Novas, na Escola Prática de Artilharia.

De abril de 1956 a outubro de 1958 foi colocado no Regimento de Artilharia Pesada nº3, na Figueira da Foz, onde recebeu louvores por parte do Comandante do Regimento de Artilharia Pesada nº3, bem como pelo Comandante da Região Militar de Coimbra. Mas foi colocado nesse RAP nº3 um pouco contra a sua vontade.

“Eu fui colocado na Figueira da Foz. Infelizmente”, frisa, acrescentando-se que Ângelo Manuel Albergaria Pacheco, ao fim de dois anos “contrariado” na Figueira da Foz, veio para os Açores, designadamente para o Grupo de Artilharia de Guarnição de Ponta Delgada, onde esteve de outubro de 1958 a outubro de 1960. Aí, foi Comandante Intº. de Bateria; Adjunto de Comando; foi promovido a Tenente a 1 de dezembro de 1958; foi Comandante Intº. de Bateria de Instrução em 1959; delegado da Comissão de Explosivos nos Distritos de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo; Comandante Intº. de Bateria de Instrução em 1960; condecorado com a medalha Comemorativa do V Centenário do Infante D. Henrique; louvado pelo Comandante do Grupo de Artilharia de Guarnição – Ponta Delgada e, por fim, acabando por ser transferido para o Quartel-general/Comando Militar do Arquipélago dos Açores.

No Quartel-General/Comando Militar do Arquipélago dos Açores, onde esteve de outubro de 1960 a janeiro de 1962, foi comandante da Formação de Comando; Ajudante de Campo do Governador Militar dos Açores; foi promovido a Capitão a 30 de junho de 1961, bem como, ainda, louvado pelo Governador Militar dos Açores.

Seguiu-se uma passagem por Vila Nova de Gaia, para onde foi mobilizado como Comandante de uma Companhia de Artilharia, com partida para Angola, a 12 de janeiro de 1962, havendo desembarque em Luanda em 25 de janeiro de1962. Esteve, assim, nesse momento, no Norte de Angola.

Passou, o, na altura, Capitão Ângelo Manuel Albergaria Pacheco por Luanda [Grafanil], de janeiro de 1962 a março de 1962, a que se seguiram passagens por Uamba; Santa Cruz; Quicua; Nassau, tudo entre abril de 1962 e março de 1964.

Receberia, posteriormente, a Medalha Comemorativa das Campanhas de Angola, bem como um louvor pelo Comandante da Região Militar de Angola. Mas antes: a partida para Lisboa, que se deu em Luanda, a 23 de março de 1964, e que marcou o fim da sua primeira comissão em África.

Passaria, depois, pelo Quartel-general do Comando Territorial Independente dos Açores, de abril de 1964 a outubro de 1964, como Chefe da 3ª Repartição e Comandante da Formação de Comando, bem como pelo Estado-maior do Exército, de novembro de 1964 a julho de 1965. Antes de novo embarque para África, passagens, a registar, pela Bataria de Artilharia de Guarnição nº1 – Ponta Delgada, onde foi louvado pelo Comandante Militar dos Açores, e pelo Regimento de Artilharia Pesada nº2 – Vila Nova de Gaia.

Na Região de Militar de Moçambique, para onde partiu posteriormente, chegando a desembarcar em Marrupa em setembro de 1966, passou por zonas como Marrupa, inclusive; Maua e Ribaué. Acabou sendo louvado pelo Comandante de Sector, bem como, deixemos nota disso, pelo Comandante da Região Militar de Moçambique.

Deu-se o regresso a Lisboa, finda a segunda comissão em África, em agosto de 1968, passando a estar na Bataria de Artilharia de Guarnição nº1 – Ponta Delgada, isto de setembro de 1968 a 22 de outubro de 1969, onde foi Comandante e Presidente do Conselho Administrativo e Diretor de Instrução; promovido a Major em 1969 e louvado, novamente, pelo Governador Militar dos Açores.

A sua terceira comissão em África viria com a partida para o Comando Territorial Independente da Guiné, cujo desembarque, em Bissau, deu-se a 27 de outubro de 1969. Acaba louvado, antes do regresso à metrópole à 1973, pelo Comandante do Comando Territorial Independente da Guiné e pelo Adjunto Operacional do Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, bem como é condecorado com a Medalha Comemorativa das Campanhas da Guiné.

Voltando aos Açores, é condecorado com a Medalha de Mérito Militar da 2ª Classe, bem como recebe mais um louvor da parte do Governador Militar dos Açores. Mas viria nova incursão para Angola, regressando, definitivamente, à metrópole a 22 de junho de 1975, onde se instalou, por fim, no Quartel-General do CTI Açores – Ponta Delgada, quando é louvador pelo Comandante-chefe das Forças Armadas dos Açores.

“Cheguei, o 6 de junho tinha acabado de suceder em Ponta Delgada”, revela. 

O despacho de Ramalho Eanes, “de quem sou muito amigo”, o Comando Regional dos Açores da Polícia de Segurança Pública e a FLA

“Já cá, tive um episódio muito desagradável. Quando regressei do Ultramar, pensei que iria ter uma vida mais sossegada. Aqui, antigamente, havia três distritos e cada distrito tinha o seu comandante distrital da PSP. Três comandantes. Eram capitães, quando muito à beirita de Major. Quiseram convidar-me duas vezes, e recusei. Às tantas, veio um despacho do Ramalho Eanes, de quem sou muito amigo, a nomear-me Comandante Regional dos Açores da Política de Segurança Pública, para comandar a política de todo o Arquipélago”, tendo sido o primeiro comandante, isto de janeiro de 1977 a 12 de outubro de 1978.

“Liguei ao Ramalho Eanes”, assegurando-lhe, na altura, “que ia aceitar o cargo “só por dois anos”, mas “numa altura muito má, em que a FLA começou a pôr bombas. Montei um dispositivo, e às tantas comecei a apanhar muitos bombistas com a “boca na botija”, alguns num sítio em que estava já com a bomba na mão”, revela.

Houve, também, um outro episódio digno de registo.

“Nas Portas da Cidade, pelo Santo Cristo, a Câmara Municipal de Ponta Delgada pôs três bandeiras: uma da Europa, uma Nacional e uma da Região. Durante a noite, tiraram a da Região e puseram a bandeira da FLA. Bom, eu disse à Câmara: vocês é que puseram as bandeiras, corrijam a situação, mas a Câmara não queria”, tendo-se acabado por retirar a mesma bandeira da FLA por iniciativa de um colega do Coronel Albergaria Pacheco.

Sucedeu, contudo, igualmente, algo muito chato pela mesma altura.

“O Dr. Mário Soares veio cá fazer uma sessão de propaganda eleitoral no Coliseu, quando era candidato a presidente da República, e houve alguém, e eu não sei quem foi, que meteu o Coliseu todo às escuras”, sendo que, a partir daí Mário Soares “nunca mais encarou bem os micaelenses”.

Ora, a propósito, quando houve a situação atrás referida das bandeiras, “mandei vir uns polícias do Faial para reforçar o dispositivo”, e, aí, Mário Soares dá ordens ao Comandante Geral da PSP, querendo mandar para cá uma Companhia de Intervenção da PSP, tendo vindo um avião da TAP, “sem necessidade nenhuma, cheio de polícias de choque, perto de duzentos polícias de choque, para estar aqui, para criar, nitidamente, para espicaçar, para ver se isso prejudicava as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres”, tendo Albergaria Pacheco recusado comandar aquela companhia ordenada, por despacho, “do Mário Soares”.

Companhia, essa, que “acabou por fazer turismo”, num autocarro militar, conhecendo, à paisana, a ilha de São Miguel.

“Um período chato”, considera o Coronel.

A presidência da Câmara Municipal de Lagoa entre 1982 e 1989

“Pouco depois, há um problema com a Câmara da Lagoa, com o Raulino, com os vereadores, não sei bem o que se passou. Então, o Raulino pediu a demissão três meses antes do fim do mandato e eu recebo um telefonema do braço direito do Mota Amaral, do Natalino Viveiros”, com o convite para ir para o lugar do Raulino, substituindo-o nesses três meses, e, posteriormente, assumindo uma candidatura, apoiado, mas como independente, pelo PPD-PSD, à Câmara Municipal de Lagoa.

“Para não dizerem que eu não dou uma colaboração à terra que me acolheu, vou aceitar, mas no máximo dos máximos, dois mandatos, mais do que dois mandatos não”, disse, na altura, ao Natalino Viveiros.

Com uma equipa de vereação, pelo PPD-PSD, constituída pelo Prof. Jorge Amaral e pelo Sr. Manuel da Mota, Ângelo Manuel Albergaria Pacheco revela que, nesses anos de liderança, fez-se muita obra.

“Já se falava que a União Europeia ia começar a dar, dali a algum tempo, apoios. Informei-me. Os apoios podem ir até 90%, mas para dar era preciso ter o restante. Mas isso ainda não estava em vigor”, e, por causa disso, “não quis endividar a Câmara, para que o meu sucessor pudesse aproveitar os tais 10%”.

“No meu mandato não fui buscar um centavo à banca. Governei-me com o dinheiro que recebia de ano a ano do Orçamento Anual. Atenuei, até, um pouco, uma dívida de dez mil contos dos meus antecessores”.

Dedicou-se muito, durante a sua presidência, à questão da água.

“Faltava imensa água. Havia um abastecimento que funcionava bem, em Água de Pau, mas era só aquele bocado, que era absolutamente insuficiente para abastecer a Lagoa. Uma das minhas prioridades foi o abastecimento de água. Fui, então, ao mato ver o que é que se passava e aquilo estava uma coisa terrível. As nascentes abandonadas”, com tudo em muito mau estado.

“De modo que, fomos para as nascentes. Comprei uma máquina para abrir valas”, máquina essa que, todavia, não chegava até às nascentes, ficando a quase três quilómetros de distância. Esses quilómetros tiveram que ser, assim, abertos à mão.

“Eu dava-me muito bem com um Sr., que foi Secretário Regional do Trabalho, o Sr. Luís Arruda. E lembrei-me de lhe fazer uma proposta: eu precisava de mão-de-obra. E lembrei-me de lhe propor de, como havia muitos desempregados, se ele concordasse a continuar a dar-lhes o subsídio de desemprego, eu pagava a diferença para um ordenado normal a essas pessoas que quereriam vir trabalhar comigo. Portanto, teriam o subsídio de desemprego mais a diferença para um ordenado normal. Saía muito mais barato para mim e então criei uma quantidade dessa mão-de-obra assim mais barata, que foi trabalhar para as nascentes”, onde se meteu canalização toda nova. As nascentes começaram a produzir muito mais água e, na dúvida, construiu-se uma estação de tratamento de águas, e a água começou a chegar à Lagoa em bom estado.

“A Lagoa deixou de ter falta de água”, complementando-se esta obra com outras também importantes.

“Fiz também tubagem de esgotos em várias ruas”, somando-se, na Ribeira Chã, problemas de água resolvidos. Foi responsável pela construção de um campo de futebol na Vila de Água de Pau, entre outras obras de muito mérito e valor para os seus habitantes, como na Caloura, onde fez uma melhoria da água, também.

“No Rosário, ainda, encomendei um Plano de Urbanização da antiga Vila da Lagoa, que dava para a Lagoa toda”, tendo havido, assim, lugar à pavimentação, alargamento, correção e construção da rede de esgotos de várias ruas na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, precisamente.

No Cabouco, lugar à retificação e pavimentação da E.M. 516 entre o Rego d’ Água e o Cabouco – 1ª Fase.

Sobra a sua obra, maioritariamente, ser subterrânea e não à vista de todos e de todas, o Coronel diz que “as pessoas que não sabem disso julgam que não fiz nada, mas não me preocupo. Tenho a consciência tranquila”, remata. Sobre isso, e a propósito, foi eleito, em 1986, pelo jornal “Correio dos Açores, “O autarca do ano”.

É, até hoje, o último presidente da Câmara Municipal de Lagoa pelo PPD-PSD e, acerca deste ponto em particular, Ângelo Manuel Albergaria Pacheco diz que “julga” que poderá haver outro da mesma cor.

“Não é preciso fazer muita propaganda. É preciso é que a pessoa transmita confiança aos votantes”, concluindo-se que foi, ainda, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Ponta Delgada; o primeiro Diretor do Centro Regional dos Açores da R.T.P [de agosto a dezembro de 1976] e, finalizando, Tesoureiro da Direção do Instituto Cultural de Ponta Delgada.

DL/JTO
(Artigo publicado na edição impressa de dezembro de 2019

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