Designer filha de emigrantes lagoenses cria desfile com peças de roupa em crochê

Vitória Rebelo Brum ensina a arte que aprendeu com a avó através de workshops e vende as peças que cria em Toronto, no Canadá

Vitória Rebelo Brum tem 26 anos e aprendeu a fazer crochê com a avó © CORTESIA VITÓRIA BRUM

Vitória Rebelo Brum nasceu em Toronto, Canadá, e tem 26 anos. É filha de emigrantes lagoenses e aos 12 anos aprendeu a fazer crochê com a avó Isaltina. No início a jovem admite que não sabia porque é que fazia esta atividade. Inicialmente ela “apenas aprendia”, até que começou a ver que, com aquele movimento contínuo era capaz de criar brinquedos, mantas, gorros para os invernos fortes que se fazem sentir no Canadá, e até lingerie.

Em conversa com o Diário da Lagoa (DL), em inglês, a partir de Toronto, através de videochamada, Vitória admite que o seu maior desafio até hoje no crochê foi precisamente a coleção de lingerie que lhe foi pedida por encomenda em fevereiro de 2020. “Foi feita em dois meses, trabalhando intensamente todos os dias da semana. Este tecido é muito delicado e requer muita atenção e tempo, sendo que tens de fazer com que seja sexy, com zonas onde se veja pele e padrões”. A designer recorda que, para além do fio ser muito frágil e a correria para acabar as peças ser grande “havia bocados de fio de crochê espalhados pela casa, na cama do meu gato, foi de loucos mas foi sem dúvida o desfile mais intenso que tive porque tinha pessoas a utilizar a roupa que fiz e não apenas exposta numa mesa”.

Os invernos no Canadá são conhecidos por serem muito frios com os termómetros a marcar vários graus negativos. A filha de emigrantes explica que as pessoas querem cada vez mais começar a fazer as suas próprias roupas até para oferecer no Natal e ela própria faz coleções temáticas para o outono tais como gorros, cachecóis, blusas, luvas, “coisas para a estação”.

A sustentabilidade é algo que a jovem canadense sempre foi apologista. Apesar de ter nascido numa grande metrópole não é fã das grandes cidades. O que gosta mesmo e a fascina é o oceano, a natureza e o sol. Uma das razões pelas quais quis prosseguir os bordados, não apenas como um hobbie, mas também como um negócio, foi a gratificação que diz sentir quando termina uma peça feita apenas por ela.

Em conversa com o DL, Vitória não conseguiu esconder o quão difícil é definir onde se sente em casa, se em Toronto ou São Miguel: “digo sempre que Toronto acaba por ser a minha casa. É difícil, sendo filha de emigrantes, dizer de onde é”, confessa. A jovem admite que, na verdade, o que quer é chamar aos Açores “casa” porque lhe faz falta o “oceano, as ondas, o sol, um espaço limpo e fresco e sobretudo”, garante, confessando um desejo: “quero muito ter fruta a crescer no meu quintal”.

Mas quem é e o que faz Vitória?

Para além de ser uma amante da natureza é também apaixonada por conhecer outras culturas e países. Admite que viajar contribui muito para a forma como vive hoje, onde cria e borda as suas próprias roupas e segue um estilo de vida ecológico, o que acabou por ser um dos conceitos da sua marca de roupa, “rebelandthread”. Vitória conta-nos que estudou na universidade de Toronto, onde fez uma licenciatura com duas temáticas: filmografia e estudos alemães. Atualmente trabalha em part-time, cinco dias por semana, num programa de um departamento internacional e cultural alemão. Explica que vai muito de encontro com o que estudou e comenta que o trabalho passa por fazer um planeamento e agendamento de vários eventos culturais em Toronto que estão ligados com a Alemanha e a cultura alemã. Na segunda parte do seu dia a jovem, de dupla nacionalidade, portuguesa e canadiana, explora a sua criatividade dedicando-se a dar aulas de crochê no parque, produzindo conteúdo online para lojas e até mesmo escrever para blogs de lojas. Vitória admite que as aulas de crochê são muito sazonais e que existe uma maior procura por esta atividade precisamente nesta altura, no outono.

Peças do desfile demoraram dois meses a serem feitas © SARA MALTESE

Empreendedora ensina o que aprendeu com a avó

“A escala mais baixa que costumo pagar por uma mesa, para ter as minhas peças expostas, são 100 dólares”, conta a jovem. O objetivo deste valor é contribuir para o pagamento da renda do espaço alugado, mas existem exceções em certas vendas: “se eu tiver pessoas que forem lá comprar os bilhetes e disserem que foram para me ver, eu recebo uma parte desses 100 dólares, depende do número de pessoas que forem”, conta explicando a dinâmica das suas exposições.

O principal objetivo da jovem com o negócio do crochê é implementar novos hábitos em quem quer aprender. E Vitória diz que costuma ser flexível com quem não tem muitas possibilidades para pagar os seus workshops. “Depende do projeto e dos materiais que estão incluídos. Já dei uma aula por 55 dólares canadianos, duas horas, com material. No final do projeto podias levar uma agulha apropriada para usar no crochê, o projeto final e um caderno para tomar notas sobre o que estou a ensinar”, conta. Vitória diz que a melhor forma de conseguir negociar o preço é quando olha “para o preço do material, vejo se tenho de alugar um espaço ou se posso fazer ao ar livre e depois procuro um produto que compense mais, mas sempre com boa qualidade, é muito importante encontrar um equilíbrio entre a qualidade e o que podes pagar”.

A jovem luso-canadiana tinha 12 anos quando a avó Isaltina, que vive no Canadá há quase 50 anos, a ensinou a fazer crochê. Admite que no início não percebia o que estava a fazer: “a minha avó aprendeu com a mãe dela, por isso ela ensinou-me em português”. Vitória comenta que, até hoje Isaltina não fala inglês fluentemente. Outrora diz ter ficado fascinada com uma arte tão simples mas que lhe dava uma liberdade incomparável. Quando a internet chegou Vitória já sabia o básico do crochê mas foi no Youtube que conseguiu expandir as infinitas técnicas da arte que lhe foi passada pela avó e onde a imaginação é o limite.

Sofia Magalhães
com Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2021

Categorias: Reportagem

Deixe o seu comentário