Dois jovens criaram um sistema para ajudar o turismo dos Açores a dar o “salto digital”

O InVisit é um sistema de inteligência artificial que permite controlar a afluência aos lugares turísticos. Em tempo real, o software apresenta a informação sobre o número de pessoas e o estado do tempo num determinado local

Luís Pimentel (à esq.) e Gonçalo Andrade (à dir.) criaram plataforma que permite saber em tempo real se locais estão cheios / FOTO DR

É certo que a pandemia da covid-19 paralisou o mundo e afetou, sobretudo, o turismo. Mas vamos recuar àquele tempo onde não ainda se falava do novo coronavírus e onde toda a gente circulava à vontade, seja dentro da sua terra, seja para o exterior. Todos nós já sentimos a experiência de um certo dia chegar a um sítio turístico e depararmo-nos com uma imensidão de gente. Não há como negar: a experiência é logo afetada.

Nos Açores, a intensa afluência turística foi sentida no auge do turismo regional que culminou no verão de 2019. Mesmo nos dias que correm, apesar de a ilha não andar entupida por turistas, é frequente alguns locais ficarem cheios facilmente devido à dimensão reduzida dos espaços.

Foi para terminar com essa experiência negativa que dois jovens açorianos, Luís Pimentel e Gonçalo Andrade, decidiram criar um sistema tecnológico que permite controlar a afluência aos locais turísticos. Chama-se InVisit e engloba um equipamento de monitorização a ser colocado no local, um software para os gestores do espaço e um mapa interativo para os visitantes. É feito tanto para os turistas ou locais como para os guias e responsáveis pelos espaços.

“O nosso sistema é inovador porque transmite, em tempo real, a qualidade da visita a um determinado ponto turístico. Isto é, um visitante, antes de se deslocar ao local, consegue obter a informação necessária, acerca da ocupação e das condições meteorológicas” começa por explicar ao Diário da Lagoa Gonçalo Andrade, um dos responsáveis pelo sistema.

Para o empreendedor, se já faz sentido controlar a afluência em todos os destinos turísticos, nos Açores ainda é mais urgente garantir que não exista a sobrelotação dos espaços. “Na nossa região a sustentabilidade é fundamental e devemos garantir que os nossos destinos naturais não são afetados pelo excesso de pessoas. Além disso, os turistas viajam para cá porque querem um local de tranquilidade”, corrobora Luís Pimentel, outro dos responsáveis, acrescentando: “se as pessoas chegarem cá e os sítios estiverem cheios de gente não vão gostar da experiência certamente”.

Em causa, muitas vezes, não está o excesso de turistas, mas sim a redistribuição das pessoas pelo território. “Há uma tendência para concentrar as pessoas em um ou dois locais uma vez que desconhecem pontos de interesse turístico ao redor”. Mas então faz sentido lançar um sistema para controlar os fluxos turísticos numa altura em que os turistas escasseiam? Luís Pimentel acredita que sim. E até reforça que “não havia altura mais importante” do que esta. “É precisamente neste momento de calmaria que devemos aproveitar para nos preparar para o turismo pós-covid que, certamente, terá outras preocupações”. Além de que o sistema também permite controlar o “distanciamento físico”, uma exigência dos tempos pandémicos. É a velha história: para uns o copo está meio vazio, para outros está meio cheio.

“O salto digital”

Os jovens, que já estavam ligados a serviços de turismo, começaram a identificar o problema em 2017. Mas a ideia começou a materializar-se nas mentes de Gonçalo Andrade e Luís Pimentel quando naquele verão pré-pandemia se depararam com vários locais da ilha de São Miguel congestionados: ou era a fila interminável de carros na Lagoa do Fogo ou o aglomerado de pessoas na poça da Beija – os exemplos são intermináveis, principalmente nos pontos mais conhecidos.

E foi assim que Gonçalo Andrade, engenheiro eletrotécnico de computadores, que vinha de uma experiência no iStartLab (laboratório do Instituo Superior Técnico em Lisboa), se juntou a Luís Pimentel, gestor e fundador da empresa WeAndYouMedia. Um gestor, outro engenheiro, dois empreendedores ambos com 29 anos, decidiram então criar o InVistit.

“A nossa preocupação é que a complexidade do sistema fica do nosso lado, apresentando ao utilizador a informação de uma forma rápida e intuitiva”, releva Gonçalo Andrade, que procura explicar como funciona o sistema. “Tudo começa com um dispositivo que é implementando no local”, começa por dizer, acrescentando que esse recetor permite “rastrear a ocupação do local e obter a informação meteorológica”. “Depois o sistema combina os fatores meteorológicos, a visibilidade e a ocupação do espaço, junta isso tudo, e transmite por um código de cores”. Esse código de cores – o “índice InVisit” – funciona como um semáforo: o verde significa que é a altura ideal para lá irmos; o laranja é o nível intermédio; se estiver vermelho é melhor adiarmos a visita. “Esse semáforo aparece tanto no dashboard do gestor como do utilizador”. Ou seja, quem gere um local pode depois disponibilizar o sistema em aplicações ou sites para que o visitante tenha acesso às condições do local que pretende visitar. Também o guia turístico poderá fazer uma “gestão diferente” dos circuitos pela ilha.

Trata-se de uma “ferramenta essencial” que apresenta vários recursos para os responsáveis dos espaços. “O nosso sistema é baseado em inteligência artificial, por isso, além de ter a informação em tempo real, são emitidos relatórios semanais, histórico de dados e vários alertas”. Entre esses relatórios, destaca, existe um que prevê quantas pessoas estarão no local dentro de um terminado período. “Por exemplo, são 10h da manhã e temos um índice verde na Vista do Rei. O sistema, mais tarde, será capaz de, por exemplo, prever que nesse mesmo dia às 15h estará um índice vermelho”. Bem-vindos ao admirável mundo novo da inteligência artificial.

O projeto foi iniciado, a empresa foi criada e o produto está em fase de testes. Entretanto, já viram o sistema ser reconhecido. Graças ao InVisti, foram os grandes vencedores da edição 2020 do Concurso Regional de Empreendedorismo, da organização da Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA). “Um orgulho”, dizem os jovens, satisfeitos por verem o trabalho reconhecido. “Natureza e tecnologia não são coisas impossíveis de se cruzar. Aqui podemos utilizar um sistema tecnológico para ficarmos todos a ganhar”, sintetiza Luís Pimentel.

Para o empreendedor, é tempo de os “Açores enquanto destino” darem um “salto digital” para se distanciarem da concorrência. E o InVisit quer ser o trampolim. “Temos de pensar em dar o passo seguinte e aproveitar a tecnologia para promover o destino, este é o nosso pequeno contributo”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de março de 2021)

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. Moisés Couto 21 Março, 2021, 18:53

    Só não percebo porque os projetos não são baptizados em Português.

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    • Moises não couto 21 Março, 2021, 19:31

      O turista estrangeiro não fala português e os outros destinos que podem vir a ser clientes também não. É um sistema para o mundo ao nível global. O inglês é o indicado.

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