Dos Açores à costa leste dos EUA: norte-americano apanha ondas FM que viajam 3.827 kms pela ionosfera

Bryce Foster mora em Massachusetts e conseguiu apanhar o sinal do Pico da Barrosa, na Lagoa do Fogo, e ouvir a Antena 3. O fenómeno é raro

Emissão captada em Massachusetts, EUA, foi transmitida da antena do Pico da Barrosa © DL

A estática é muita e grande parte é ininteligível, mas é possível, aos 23 segundos, ouvir distintamente que “a primeira vez é sempre na 3”. Ao longo do excerto da emissão de 1 de julho de 2021, por volta das 14 horas nos Açores, torna-se claro que se trata da rádio portuguesa.

Para Bryce Foster, a paixão pela rádio “bateu” aos 15 anos. “Sempre amei a rádio, a minha mãe tinha rádios pela casa a passar notícias locais e música. Para uma criança, era confortante”. Só mais tarde é que encontrou na internet “pessoas que tinham este hobby” e percebeu que também o podia assumir, apesar de não haver um nome para o que faz. “Pus uma antena no telhado, depois outra, depois outra… Aqui estou”, com “três ou quatro” antenas instaladas em casa, conta ao Diário da Lagoa (DL).

Para ‘apanhar’ a emissão açoriana da Antena 3, um fenómeno que “é muito, muito raro”, usou duas. “Antes disto, não havia nenhum americano, que conheçamos, que alguma vez tenha reportado ter apanhado rádio FM através do oceano”. A descoberta atraiu a comunidade, “com pessoas interessadas em saber a que soava, em saber como foi possível”.

Bryce suspeita ter apanhado, em 2014, uma emissão, mas não conseguiu confirmar de onde vinha. Mora em Massachusetts, pelo que a língua portuguesa na rádio não lhe é estranha. A princípio, pensou que pudesse ser uma estação portuguesa emitida a partir dos Estados Unidos, mas cedo se apercebeu de que naquele país “não há estações na frequência 87.7”. Ainda assim, a ligação aos Açores não foi óbvia, até porque “ouvir música inglesa lá foi meio estranho”.

“Havia uma voz bem fraca, portuguesa, e pensei ‘ok, será que isto é uma emissora não autorizada de Portugal que arrancou?’. Eliminei essa teoria, e depois explicaram-me que a RTP tinha muitos canais, e experimentei ‘streams’ das rádios 1, 2 e 3. Então, na 3, ouvi que o ‘stream’ na Internet era o mesmo que apanhava na estática da rádio”, conta.
Bryce é engenheiro na Dell. Chegou a trabalhar “numa estação muito pequena, durante a faculdade, com muito pouco salário, para pagar os livros”, mas hoje em dia “é uma carreira muito difícil, especialmente nos EUA, onde a indústria está a sofrer”.

Agora trabalha de casa e tem sempre os seus rádios atrás de si. “Tenho sempre um ligado, a ouvir enquanto trabalho, e definitivamente não esperava ouvir aquilo naquele dia”. Mas a esperança de encontrar algo novo está sempre lá: “é raro, mas às vezes aparece. É como atirar o isco à água. Habitualmente, nada morde, mas às vezes mordem e é muito divertido, nessa forma rara e imprevisível. É essa natureza que o torna fixe”. O fascínio é também alimentado porque permite “ouvir culturas diferentes”.

“Depois de ‘apanhar’ este, pude ouvir e aprender sobre as comunidades nativas e as ilhas do Ártico do Canadá, e nunca pensarias nisso a menos que sejas um ‘nerd’ de geografia. A atmosfera traz-te esses bocadinhos das vidas e das culturas de pessoas diferentes. Na nossa comunidade, dá para aprender e conhecer muitos sítios diferentes, a língua que falam, a população que lá há, a música que ouvem…”

“Descobri o Pico da Barrosa,
onde o transmissor está.
Fui ao Google Street View e
fiquei ‘wow’ com a vista”


Por causa desta ‘captura’, aprendeu “muito sobre os Açores, só à procura de onde ficaria a estação”.

“Descobri o Pico da Barrosa, onde o transmissor está. Fui ao Google Street View e fiquei ‘wow’ com a vista, e agora quero ir aos Açores. É uma forma de fazer um ‘tour’ auditivo pelo mundo, através da estática”. A rádio açoriana abriu caminho para outras descobertas. Poucas semanas depois, conseguiu apanhar uma rádio da Colômbia e outra da Guiana Francesa. “É quase tão longe como os Açores”, que ficam a 3.827 quilómetros.

O engenheiro e aficionado pela rádio acredita que pode também ter apanhado naquele dia ondas vindas da ilha das Flores, mas não conseguiu confirmar, porque “era só música”. Para Bryce, “algo pouco comum está a passar-se na atmosfera”. O acontecimento é discutido na comunidade, mas não se conhece uma “explicação científica sobre porque é que acontece”, embora o saber empírico leve a dizer que “só acontece no verão”, ainda que se fale de um fenómeno chamado ‘sporadic E skip’.

Para perceber o que se passou, o DL falou com o engenheiro Luís Santos, especialista em eletrónica e telecomunicações, que explicou que, para uma emissão de ondas FM chegar tão longe, têm de se reunir “características muito específicas na ionosfera”, uma “camada eletricamente muito forte”, localizada na alta atmosfera.“Essas características não acontecem todos os dias, nem têm uma explicação lógica”, mas estão “associadas, principalmente, a cargas eletromagnéticas que resultam da proteção natural que o planeta tem”.

Um fator importante é “o local de transmissão”, que, “se tiver elementos refletores, pode influenciar na orientação da propagação do sinal”.

“Junto ao Equador, a propagação do sinal é mais difícil”, por exemplo, “porque tem de percorrer um caminho maior. Quanto mais a norte estivermos, maior será a probabilidade dessa receção acontecer”. Nesse sentido, o cientista considera que a captura das emissões colombianas e guianense “é muito mais impressionante, sem dúvida nenhuma”.

Os Açores têm ainda a seu favor “a proximidade ao mar, porque as ondas de sinal de rádio refletem” no corpo de água. “Alguns fenómenos climáticos podem afetar a propagação das ondas de rádio, afetando, não só as distâncias da transmissão, como a potência. (…) As gotas de água nas nuvens funcionam, mais ou menos, como um isolante eletromagnético”, explica. Por isso, traça um cenário: “Quase que aposto que, nesse dia, as nuvens eram baixas, que o dia estaria seco, e teríamos uma carga de plasma, na alta atmosfera, muito grande”. Mas o que mais conta é a radiação solar e “o nosso Sol entrou num ciclo novo”.

“De 11 em 11 anos, o nosso Sol começa a ter uma atividade maior, depois tem um pico de atividade e depois começa a descer outra vez. Neste momento, está a iniciar um ciclo novo, de maior atividade. Agora vamos ver maiores explosões solares, maiores emissões de plasma, maiores emissões de raios gama”. Sobre se esse novo ciclo facilitará novas capturas, Luís Santos não se adianta, porque não faz “futurologia”, mas admite que “a radiação solar tem muita influência” e que, “nessa camada eletricamente carregada, tipicamente, há alterações na capacidade de propagação do sinal”.

Com mais ou menos probabilidades, Bryce Foster, que gosta de “colecionar países” no seu rádio, está “feliz” com o que ouviu e “à espera de ouvir de novo”. “Vou ter uma antena só para esse lado, no próximo ano. Agora estou viciado”, confessa.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de outubro de 2021

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