É com um aperto no peito que os Impérios do Espírito Santo olham para segundo ano sem festa

Mordomos do concelho de Lagoa lamentam a ausência das celebrações. Alguns optam por entregar porta-a-porta as tradicionais sopas e pensões em honra do Divino Espírito Santo

Daniel e Rita Cabral são mordomos do Império de Pentecostes de Água de Pau há cerca de 25 anos © ILD/ DL

“Eu vejo os dias a ficarem cada vez maiores… Nesta altura, já estava aí a enfeitar tudo”, afirma Daniel Cabral, antes de a sua mulher, Rita Cabral, corroborar o lamento: “a casa já estava um leilão”, como obrigam as lides das mordomias. O casal assume o controlo do Império de Pentecostes de Água de Pau, mais conhecido como o Império da Festa, “vai fazer já 25 anos”, diz Daniel, esclarecendo que, nos primeiros dois anos, assumiu a liderança daquele Império, enquanto presidente da Banda Filarmónica de Água de Pau.

“Saiu um, saiu outro, eu fiquei sozinho com o Império. Isto em ’96, vai fazer para o ano 25 anos”, recorda.
Com mais de duas décadas dedicadas ao culto e à festa do Divino Espírito Santo, no segundo ano consecutivo em que as festas não se realizam, Daniel e Rita estão “esmorecidos”. “Porque não é só o Império… É o Império, é a festa, é tudo. A gente já deu as Domingas todas às pessoas. A primeira Dominga já está há dois anos na mesma pessoa”, explica Daniel ao Diário da Lagoa.

E mais um ano se passará, porque, sem festa, não há sortes e, sem sortes, não há Domingas. “Já falei com o padre nesse sentido e o padre diz que não – tem de ser coroado e, para coroar a primeira Dominga, tem de coroar a segunda, terceira, quarta, quinta… Tem de haver Império para a gente depois se gerir. Agora vai esperar outra vez para o ano”.

Mas a espera pesa para uma festa que é feita em família e em comunidade, explica Rita: “A gente tem quase 55, 60 pessoas a ir ao vaso buscar quatro Domingas, porque a primeira é dada a uma promessa e a sétima é do mordomo”.
Para além disso, tem uma filha que “está à espera da primeira Dominga. Ela tem o mesmo direito que os outros”, assevera.

“Ela já deu lugar a um, porque ficou grávida e disse: ‘já agora, fico quando a Emília estiver maior. Vou dar lugar a uma e passo para a frente’. A minha neta já está grande… Se isso não houver, Jesus!”

Tem também um filho emigrado na América, que teria assumido a mordomia em 2020, não fosse a covid-19. “Se isso continua assim, não há Império, mas ele está inquieto para vir para cá”.

Rita diz que, quando a família “pegou” no Império da Festa, “nunca pensou que isso ia custar tanto a deixar”.

“Os meus filhos crescem, os meus netos já estão nisso…”

Cátia Melo tem um quarto dedicado ao Espírito Santo montado o ano inteiro na freguesia do Rosário © ILD/ DL

A responsável tem “medo” que se passe mais um ano sem poder celebrar. “A gente está falando disso aqui e eu arrepio-me toda, sempre”.

Daniel tem “fé” e os olhos postos no próximo ano. “Tenho de ir ver o que é que falta ainda, se está tudo em condições…”

A vontade de fazer a festa é tanta, que Daniel chegou mesmo a admitir abrir exceções: “O ano passado eu estava para fazer o bodo de leite. Mas depois disse ‘peloê’, a gente vai todos p’rá cadeia. Mas eu queria fazer, eu queria fazer”.
Também Cátia Melo pensou em formas de contornar a pandemia, mas encontrou soluções menos arriscadas. Natural de Rabo de Peixe, a cabeleireira, que vive no Rosário há oito anos, assumiu a mordomia do Império da Santíssima Trindade da Rua Formosa há três, ainda que dois deles tenham sido sem festa.

Agora, recorda o ano em que trouxe até à Lagoa algumas das tradições que aprendeu em Rabo de Peixe.
“Já nem sei há quantos anos que já não havia uma relanda pela rua e, depois, o quarto ficou mesmo lindíssimo, magnífico, as pessoas ficaram super satisfeitas”, conta com orgulho.

À semelhança do que acontece na sua freguesia natal, optou por “manter o quarto [do Espírito Santo] aberto todo o ano”.

“Como tinha um quartinho disponível, achei por bem ter tudo exposto, para também as vizinhas verem, a irmandade também ver”.

Numa divisão à entrada da sua casa, com janela virada para a Rua Formosa, tem “tudo exposto – as bandeiras, a coroa” e conta que “há pessoas que contribuem às vezes, deixam flores, deixam azeite para acender ao Espírito Santo, porque o Espírito Santo quer é isso – quer estar sempre bem iluminado, bem apresentado”.

Ao contrário do que aconteceu em Água de Pau, onde encalhou na mesma casa há já dois anos, na Rua Formosa, a coroa “roda pelas promessas. Às vezes há pessoal que vem buscar para ter em casa um mês, depois vai passando”.
E, mesmo sem o convívio, Cátia Melo vai voltar a entregar sopas do Espírito Santo à irmandade. “Ao menos bater de porta em porta na rua, deixando uma sopinha do Espírito Santo, acho que não tem grande problema”.

Para Santiago, de dez anos, o mais novo dos mordomos do Império de São João, o Espírito Santo “é a melhor coisa” © ILD/ DL

Na vizinha freguesia de Santa Cruz, o Império de São João, mais conhecido como Império da Rua da Cadeia, faz contas ao prejuízo.

Foram “dois mil euros para o lixo”, conta António Manteiga, esclarecendo que, no ano passado, teve uma vaca que “morreu dentro do pasto”.

Agora, com quatro cabeças de gado, está longe das “20 e poucas” que teria em anos normais, das quais “matava 12, 13 cabeças”.

“Em anos normais, mato três, quatro mil quilos de carne”, para depois distribuir em 300 pensões. “Este ano, tenho dois ou três que tenho de matar, se não, tenho mais prejuízo”, assevera.

Espera, com essa carne, distribuir “umas 100 pensões. Menos de um terço, de repente”, do que faria normalmente.
Fundado em 2001, por António Manteiga e pelo seu cunhado, este Império está agora nas mãos dos filhos dos fundadores, Santiago, de dez anos, Leonardo, de 15, Amadeu, de 17 e Rafael de 29 anos.

Ao Diário da Lagoa, António Manteiga diz que faz a festa por “fé” e continua, “principalmente, para manter vivo” o culto naquela zona.

“Por isso é que a gente está a tentar puxá-los para isso, porque eu já tenho 50 anos e eles são novinhos, e a gente está a tentar criá-los assim, para ver se ficam com essa tradição da festa”, explicou.

Para Santiago, o mais novo dos mordomos, o Espírito Santo “é a melhor coisa”.

“Queria era estar fazendo a festa”, reforça, mas a festa volta a não acontecer este ano e, para 2022, a esperança é pouca.

“Para fazer aquilo que a gente fazia, acho que vai ser muito complicado ainda”, afirma António. Vai, por isso, sonhando com uma versão “com menos quantidade, com menos pessoas” a ocuparem o passeio marginal, na zona da Relvinha. Mas é sempre com um aperto no peito, que tem dificuldade em exprimir, que olha para o que se passou e para o que está por vir: “Para mim, quando chega a altura do mês de maio, eu sinto, sei lá… Sei lá até o que é”, diz, visivelmente emocionado.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de junho de 2021

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