É preciso não esquecer

Luís Furtado
Enfermeiro

Hoje assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e esta data, mais do que nunca, não pode passar-nos despercebida.

A memória histórica da nossa hora mais negra não pode deixar de ser assinalada, e dela não podem deixar de ser retiradas as necessárias ilações para que se perceba, em definitivo, os perigos da intolerância, do discurso de ódio, da propaganda e dos nacionalismos.

O Holocausto foi, sem dúvida, um acontecimento central ao nosso entendimento da civilização ocidental, do estado-nação e da natureza humana, tendo-se traduzido no assassínio em massa, premeditado, de milhões de pessoas inocentes, sob a égide de uma ideologia racista que considerava os judeus, e várias minorias, “vermes parasitas”.

Sobreviventes (órfãos) atrás de uma cerca de arame farpado no Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polónia

Estima-se que dois em cada três judeus que viviam na Europa antes da Segunda Grande Guerra Mundial foram mortos durante o Holocausto. Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, em 1945, mais de seis milhões de judeus europeus haviam perecido, entre estes mais de um milhão de crianças.

Olhar para o Holocausto, assim como para o presente perturbador que se nos apresenta com o avanço da extrema-direita, em Portugal e na Europa, não pode circunscrever-se ao choque da brutalidade dos números, é necessário levar em consideração, e compreender, a ideologia que esteve na origem do genocídio, a ideologia racial e a ideia patológica de supremacia de uns, em relação a outros, conceitos que, com roupagem mais cuidada, são novamente introduzidos no discurso corrente. Estas dimensões explicam, ainda que apenas em parte, o compromisso incansável de aniquilação total de minorias, mas também de todos aqueles que não se alinhavam com a sua ideologia.

Tal como naquela altura, hoje também, pela mão da extrema-direita (organizada por meio de estruturas partidárias ou grupos implantados na sociedade), se parte do perigoso princípio que as características, as atitudes, as habilidades e o comportamento das pessoas são determinadas pelas suas origens raciais/culturais, sociais ou, tão simplesmente, pelas características que lhe conferem unicidade. É disto exemplo o discurso racista, xenófobo, misógino e homofóbico da extrema-direita portuguesa, projetado pelo seu líder, e que radica no darwinismo social, por meio do qual se criaram estereótipos, positivos e negativos, sobre a aparência, o comportamento e a cultura de diferentes grupos étnicos e de indivíduos. Neste discurso ideológico, o valor fundamental de um ser humano não está na sua individualidade, mas sim no grupo social, cultural ou racial do qual faz parte.

A chegada de um grupo de judeus húngaros à rampa de Auschwitz-Birkenau, a 27 de maio de 1944

Muitos disseram, não sei se por convicção, se apenas por lhes conferir conforto (ainda que efémero, como bem se vê), que a extrema-direita em Portugal era uma coisa impensável, que era uma não questão, uma preocupação excessiva num País com uma cultura democrática madura e consolidada, apesar de recente.

A realidade, porém, parece tomar contornos substancialmente diferentes. O discurso de ódio e de intolerância do líder da extrema-direita portuguesa normaliza-se, de tal modo que as fileiras de seguidores parecem querer engrossar, funcionando como caixa de ressonância de uma mensagem pérfida que, lentamente, vai corroendo os valores que sustentam a nossa democracia. O filtro que a sociedade impunha a estas pessoas parece ter-se dissipado, sentem-se agora legitimadas, lideradas, detentoras de um propósito, e, claramente, livres para ampliar a mensagem de intolerância e ódio.

Até onde deverá ir o limite de tolerância da democracia para com aqueles que contra ela atentam? Esta é a questão que deve ser colocada.

Chegada de grupo de prisioneiros à rampa Auschwitz-Birkenau, momentos antes de se iniciar o processo de seleção e separação. As crianças, por forma a assegurar a calma e prevenir a agitação entre prisioneiros, eram mantidas com as mãe durante o processo de seleção

O descontentamento, o desânimo, a descrença que eventualmente possa existir entre alguns relativamente àquilo que é o desígnio e o funcionamento das instituições que suportam o Estado de direito democrático, não pode toldar a visão do todo, do coletivo, e do continuo esforço de construção de uma sociedade cada vez mais igual e tolerante. Não nos podemos deixar atemorizar por fantasmas que apenas existem no discurso e no projeto de poder de um grupo de pessoas que representa o pior de nós, que sabe, porque outros antes já o fizerem, que incutir o medo nas pessoas é a forma mais fácil de as fazer abrir mão de direitos, liberdades e garantias.

A história já nos mostrou, por mais vezes do que seria necessário, aquilo que a intolerância e o ódio encerram. Do Holocausto extrai-se que não existem limites à barbárie humana visando a própria espécie, os seus semelhantes. É, assim, tempo de parar e perceber para onde estamos a caminhar. É tempo de não aceitar o discurso de intolerância e de ódio. É tempo de dizer que para trás nunca mais!

Categorias: Opinião

Comentários

  1. sónia silvestre 27 Janeiro, 2021, 18:51

    A História havia de ensinar, mas nem sempre assim é. Os sinais do tempo presente, não deixam margem para dúvidas.

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