E se nascêssemos de novo?

João Ponte
Padre

Caminhamos a passos largos para o final de mais um ano. As folhas vão caindo das árvores e o frio vai chegando, anunciando o advento do inverno. Ornamentam-se as ruas e as casas para a tão desejada Festa de Natal que, este ano, será marcada pela nuvem negra do COVID.

Quando iniciamos o ano de dois mil e vinte, quem haveria de imaginar que este seria marcado por uma Pandemia que obrigaria o mundo a abrandar o seu ritmo e a refazer muitos dos seus projetos. Para muitas famílias, o inverno chegou bem mais cedo. Mas há esperança!

Talvez este ano o Natal seja com menos luzes e menos prendas e a mesa não seja tão farta como nos anos anteriores. Muito provavelmente, não se ouvirão pelas ruas as vozes de alegria a entoarem os cânticos natalícios, próprios das cantatas e ranchos de Natal, anunciando o nascimento de um Menino. Os sorrisos estarão ofuscados pelas máscaras de proteção e os abraços serão evitados, mesmo que custe. Mas há esperança!

Como escutaremos na noite de Natal, por meio do Profeta Isaías, o povo que andava nas trevas, viu uma grande luz. Podemos até pensar que trevas, há muitas, mas luz nem tanto. Também o povo daquela altura só via trevas, mas o profeta antevê a luz que brilhará. Há esperança!

Contemplemos o ano que agora termina e reavaliemo-lo. Aparentemente apenas trevas, entulhadas de COVID, com várias consequências: mortes, desemprego, fome de pão e de amor e solidão. Mas se virmos bem, dessas trevas também surgiram luzes e poderão surgir ainda mais, se nos unirmos todos com vista ao bem comum. Pensemos nos profissionais de saúde e em tantas outras pessoas, profissionais e voluntários que se juntam todos os dias para dissipar as trevas de quem sofre, quer pela doença ou pela perda de um familiar ou amigo, quer pelo distanciamento físico que conduz tantas vidas à experiência da solidão. Mas há esperança!

Muito provavelmente o Natal deste ano será mais próximo do primeiro. Do relato do nascimento de Jesus, segundo o Evangelista São Lucas, surge na noite um menino que não tem lugar para nascer. O Menino é envolto em panos e deitado numa manjedoura. Esta é a descrição do primeiro Natal: um menino nasce sem qualquer adorno. Quando nasce uma criança, há sempre esperança. E se nascêssemos de novo? E se nascêssemos uns para os outros, acolhendo as orientações de quem nos quer bem e valorizando e cuidando das vidas daqueles que arriscam a sua vida para que possamos estar vivos? E se nascêssemos de novo, como construiríamos a nossa vida? Ainda há esperança!

São muitas as mensagens de Natal que recebemos e enviamos, umas mais poéticas do que outras, mas todas com a intenção de marcar uma época festiva, repleta de brilho e de magia. Talvez esta seja a hora de nos levantarmos do sono e olharmos a realidade necessitada de cura, mas também aberta à generosidade de quem se sinta capaz de arriscar a sua vida para colaborar como curador. Daqui a dias é Natal e cada um deposita o olhar no outro. Que cada um se assuma como missão.
Afinal, ainda há esperança!

(Artigo de opinião publicada na edição impressa de dezembro de 2020)

Categorias: Opinião

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