Em busca das raízes, Maria Lawton foi da Lagoa às casas americanas, pela televisão

“A história nunca muda, pois não? Vem sempre das minhas raízes. As minhas raízes são tão profundas”, afirma Maria Lawton, logo no arranque de uma longa conversa com o DL

Programa de cozinha da luso-americana Maria Lawton vai ser transmitido em todas as televisões dos EUA © D.R.

Nasceu na Rua Formosa, freguesia de Nossa Senhora do Rosário, mas com apenas seis anos rumou, com os pais, as irmãs e os avós maternos, para os Estados Unidos. Foi a partir de lá, de Massachusetts, que Maria Lawton se viria a religar às suas origens açorianas, mas não sem antes ter perdido muito do que a agarrava à sua terra.

“Começou com a perda. Não só por causa da perda, mas também porque queria preservar tudo, por razões egoístas, por mim, mas também pelas minhas filhas, pelos meus netos, sobrinhos e sobrinhas”, explica ao Diário da Lagoa.

O quadro é comum: uma família portuguesa que se reunia à volta da mesa e fazia das refeições um momento especial.

“Todos os domingos, com os meus pais, almoçávamos ou jantávamos com os avós. Havia sempre espaço para mais alguém. Cada festa, evento, era sempre na casa dos meus pais. Uma sala de jantar pequena, uma cozinha pequena, eram capazes de alimentar e servir um exército de pessoas. É uma maravilha que, muitas vezes, tomamos por garantida. Pensamos que vai ser sempre assim. Até quando somos adultos, não queremos pensar na possibilidade de aquilo não voltar a acontecer”, conta Maria, com a voz embargada.

Foi depois da morte da mãe que Maria começou a busca pelas receitas que lhe inundaram a infância e a vida adulta de recordações. Começou por fazê-lo porque sabia que o pai gostava mais dos seus cozinhados do que dos que as irmãs (ambas mais velhas) confecionavam.

“Eu queria fazer mais, porque sabia que ele adorava o que eu fazia. O meu pai era um dos meus melhores amigos. Queria fazer mais, porque estávamos todos a fazer o luto. Foi uma perda muito difícil para todos nós”, conta.

Lawton nunca aprendeu a cozinhar com a mãe. Passava horas na cozinha com a avó materna, que fazia mais bolos e doces, mas eram as irmãs mais velhas que ajudavam a mãe na cozinha, ainda que prestando pouca atenção. Tanto que, quando pediu ajuda às irmãs para recuperar as receitas, estas não a conseguiam ajudar.

“Cheguei ao ponto de perguntar a toda a gente que conhecia que era portuguesa, que tinha vindo dos Açores, família, primos, para me darem receitas”. E o cenário foi piorando. “Tive várias perdas seguidas na minha família – o meu cunhado, que era adorado por todos, depois foi a minha mãe, depois a minha avó, depois o meu pai… Foi um atrás do outro, e tudo misturado. Com todas estas perdas, nunca havia tempo para voltar a respirar. Ainda se estava a fazer o luto de um, quando se perdia o outro”.

O processo de luto “demorou vários anos, porque passa-se pelas fases do luto. Para mim, era sobretudo a raiva”, desabafa. Foi então que a busca se adensou. Uma busca em que tropeçou em alguns tesouros. “Quando o meu pai morreu e estávamos a fazer as limpezas da casa, encontramos um caderno que a minha mãe tinha escrito. Foi como encontrar ouro”, conta.

Nele, estavam “receitas de quando ela trabalhava na fábrica – eram receitas de pessoas que trabalhavam com ela, de São Miguel, mas também do Pico, do Faial, da Terceira, da Madeira, do continente…”

“Para as outras receitas que queria perceber, tive de voltar aos Açores, tive de voltar à Lagoa”, explica.

“Estive em São Miguel, durante três semanas, e tudo o que fiz foi andar de cozinha em cozinha com a minha família”.

De lista em punho, começou pela casa de uma prima e do seu marido, onde aprendeu “bolo de sertã, pargo assado e uma receita diferente de arroz doce”, uma das três que figuram no livro que viria, mais tarde, a publicar.

Depois de outras paragens, o périplo terminou em casa da tia Maria Inês. “Fui com as receitas que me faltavam e uma delas era abrótea guisada. Mais ninguém tinha a receita, ou, se tinham, quando a fazia, não batia certo”.

“Enquanto estávamos a fazer a abrótea guisada, os cheiros eram como se estivesse na cozinha da minha mãe. Naquele momento, comecei a chorar, porque era exatamente como a minha mãe faria. Ela fazia-o para o meu pai e para mim, especialmente às sextas-feiras, que eram dia de peixe”, conta.

“A minha tia Maria Inês perguntou-me porque é que estava a chorar. No meio das minhas lágrimas, expliquei-lhe que sentia que a minha mãe estava ali, parecia-me que estava a cozinhar com ela, pela primeira vez em tantos anos”, recorda a lagoense.

A história alonga-se em detalhes, e culmina no livro “Azorean Cooking: From My Family Table to Yours” (sem publicação em português), um sucesso de vendas publicado em 2014 e que já vai na quarta edição, no qual Maria Lawton partilha as várias receitas que foi descobrindo e redescobrindo quando procurava as da sua mãe.

Daí até à televisão foi um salto, mas não sem os seus trambolhões. Maria encontrou na estação de televisão PBS Rhode Island todo o interesse em emitir um programa dedicado à cozinha portuguesa, particularmente a açoriana, mas que mostrasse a cultura e a história de um povo que se estende muito além do seu território.

Com a ajuda do grupo de comédia “Portuguese Kids”, montou um episódio piloto que lhe deu o bilhete dourado para uma primeira temporada, que deveria ter entre oito e 13 episódios.

“O problema foi arranjar financiamento”, confessa. Depois da aprovação inicial, “foram pelo menos quatro anos de muitos nãos”.

Mas o “sim” finalmente chegou e Maria Lawton, com o orçamento que tinha, e os apoios que foi amealhando, conseguiu produzir precisamente oito episódios, que estrearam em 2019.

A primeira temporada de “Maria’s Portuguese Table” foi um sucesso tal, que, para além de ter sido várias vezes reposto pela PBS Rhode Island, foi também transmitido nos canais regionais da estação pública de televisão norte-americana, em zonas como Connecticut, Massachusetts, Buffalo e Toronto.

Com os planos para uma segunda temporada suspensos, devido à pandemia de covid-19, lançou-se na tentativa de que o seu programa fosse transmitido a nível nacional, um esforço que, contra todas as expectativas, acabou por resultar.

A mesa portuguesa da Maria chega, assim, a todas as televisões dos Estados Unidos, através do serviço público de televisão, que irá transmitir a primeira temporada.

Para a segunda, tem um plano A e um plano B, “dependendo do orçamento que tiver disponível para trabalhar”.

O desejo é ir a outras ilhas e, “quer seja na temporada 2 ou na 3, chegar ao continente”, começando por Trás-os-Montes, de onde veio a família da sua mãe.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2021

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