“Em nome de Deus e do lucro” – A taberna do Ti Chico Inácio D´Água de Pau

“(…) respeitador de Deus e da sua igreja benzia-se sempre que abria os seus livros comerciais e dizia sempre consigo – “em nome de Deus e do Lucro!”

Roberto Medeiros

Houve em tempos idos na Praça de Água de Pau uma taberna que vendia bom vinho de cheiro da Caloura, adquirido a vários produtores das diversas regiões vinícolas da Galera, do Cerco, do Cinzeiro, do Jubileu, do Castelo e da Portela. Era a Taberna do Ti Chico-Inácio que depois de sua morte deu lugar à “Casa Benfica” e hoje é o restaurante “Casa do Abel”.

Meu pai dizia que não dava com a conta das tabernas que havia na nossa vila de Água de Pau no seu tempo, tendo em conta que até as mercearias tinham também a sua taberna. Tudo isso se devia à grande quantidade e qualidade do vinho de cheiro da Caloura que se produzia nesta terra.

Em 1936, meu pai abriu o seu primeiro estabelecimento de mercearia e ferragens, “A Cova da Onça”, na esquina da Praça com a canadinha do Pico. Também ele tinha a sua taberna nos fundos da mercearia. E, para lá também vinham os “provadores” de vinho de cheiro, que é como quem diz, os apreciadores da boa-pinga, especialistas na função-de-goela, ou vulgarmente conhecidos por bêbedos!

Mas, regressemos ao Ti Chico-Inácio que era quem tinha sempre a melhor pinga da Caloura e por isso atraía mais gente para a referida função de goela. A sua taberna tinha alguma categoria comparada com as outras, que muitas vezes apenas tinham uma pipa e uma cartola de vinho com as suas torneiras de madeira e um balcão com uma bica de fonte numa das extremidades daquele, que corria para uma pia encardida de sujidade e seis copos de vidro grosso que iam se revezando, lavados à vez, assim que os clientes iam emborcando o seu conteúdo. Nestas, o taberneiro não permitia grandes conversas enquanto o copo não era despejado para depois passa-lo por água, para servir outro sôfrego cliente.

A taberna do Ti Chico não era assim, tinha dois balcões separados por uma portinhola de entrada e a parede do fundo estava bem ocupada com armários e um renque de cartolas identificadas com a origem do lugar na Caloura de onde viera o vinho de cheiro. Em cima do balcão havia sempre alguns petiscos provenientes da última matança do porco. Num dos balcões havia uma pia lava-louças de mármore com escorredouro e uma torneira de latão, com uma variedade de copos de vidro, alguns mais grosseiros, outros finos e ainda aqueles mais sorvedouros, os de quartilho. Estes estavam muitas vezes destinados a quem dava um dia de trabalho com patrão que incluía no pagamento da jorna um quartilho de vinho, ao fim do dia, na taberna do Ti Chico Inácio.

O povo vivia da agricultura e o dia a dia dependia de quem arranjasse trabalho na Praça Velha de Água de Pau, que hoje é conhecida por Praça da República, mas que antes da república entrar em 1910 já a praça tinha uma vida intensa, dia e noite.

Portanto, com tanta gente sempre na Praça o negócio do Ti Chico Inácio sempre foi de vento-em-popa e por isso ele tinha os seus “livros comerciais”. Neles, anotava o “deve e haver” com o valor daquilo que comprava e vendia e até havia os dos fiados, já se sabe e bem entendido!

Muito respeitador de Deus e da sua igreja benzia-se sempre que abria de manhã a porta da taberna, e a fechava à noite. Tinha também outro ritual, sempre que abria os seus livros comerciais ou os dos fiados dizia sempre consigo – “em nome de Deus e do Lucro!”

Tal como em todas as tabernas, de vez em quando cabeças quentes cometem asneira e alguém sai sempre mal da história. Um dia o Alvarim Papendeira encosta-se ao balcão da taberna e pede um quartilho de vinho de cheiro enquanto, mesmo ao lado, três rapazes faziam conversa de gargalhada pegada e de cabeça inchada, ou seja, com alguns copinhos de vinho no bucho.

Na altura em que o Papendeira levanta o copo de quartilho à boca, para beber de uma golada só, o Zé-Solêta, um dos três rapazes, dá uma “talisca” de mão pesada na cabeça do Papendeira que mete pela cara dentro os estilhaços de vidro do copo, abrindo-lhe cortes fundos na face. O pobre do Papendeira ficou num “Cristo” cheio de sangue.
Os três rapazes continuaram na sua caçoada, escarnecendo, com o Zé-Solêta a rir a bandeiras despregadas de costas para o Papendeira e ignorando o sofrimento e a ação que lhe fizera. Nisso, assim que o “má-home” se volta para o Papendeira a rir-se, este enfia-lhe uma navalha no bucho deixando-lhe as tripas dependuradas na cintura.
Acudiram logo, os presentes ao Zé-Soleta, chamando uma ambulância ao hospital de Vila Franca do Campo. Enquanto isso, o Papendeira, ignorado por todos, sai da taberna do Ti Chico Inácio irreconhecível com tanta sangueira a escorrer-lhe pela cara e encaminha-se para o Fontenário da Praça.

Durante esse trajeto, o povo na Praça açoutava-o com palavrões, maldizendo-o pelo que ele fizera ao Zé-Soleta, ignorando o seu sofrimento. Papendeira meteu a cabeça debaixo duma das bicas do Fontenário e deixou-se ficar ali um tempo a ver se estancava o sangue que lhe escorria pela cara.

Entretanto, os assobios e os impropérios continuaram dirigidos ao Papendeira até que ele, de repente, volta-se para a Praça e para o povo. Houve-se um silêncio, que é como quem diz, ninguém ousou falar, preferindo toda a gente calar-se e ouvir o que tinha a dizer ou iria fazer o Papendeira. Este, olha para a esquerda e depois varre com os olhos toda a Praça até à sua direita e sem mais nem menos, prega um grande manguito, cujo estalo, ouviu-se nos quatro cantos da Praça. O Povo, impávido e estupefacto abre a boca e vê o Papendeira caminhar em passo de soldado, em direção à rua da Trindade, de cara lavada, desaparecendo na curva da igreja, para nunca mais o verem durante uns tempos.

Tuna do Papendeira de Água de Pau. Em cima, da esq. para a dta: – Desconhecido, Antero Matos Amaral, Urbano
Carreiro, Rodolfo Pamplona, Alvarino Papendeiro (regente). Em baixo, da esq. para a dta: – Jaime Monteiro, José
Correia Miranda, Manuel Egídio de Medeiros, Manuel de Amaral, José Luís Germano.
© D.R.

Mas, quem foi o Papendeira? Era cesteiro de profissão, mas autodidata na arte de tocar todos os instrumentos de corda. Ensinou e organizou vários grupos musicais entre 1930 e 1950 e esta tuna de jovens pauenses que se vê nesta foto, numa atuação durante uma festa de entrudo em Água de Pau, em 1936.

Em frente à taberna do Ti Chico Inácio, no antigo largo do barracão, pelas festas do S. João da Praça, os populares costumavam saltar à fogueira, tradição que se perpetuou por toda a primeira metade do século XX até ao fim da década de 1960, quando a Taberna do Ti Chico Inácio já dera lugar à “Casa Benfica”, casa de pasto e taberna de Artur Pimentel, também conhecido por Artur Benfica.

Crónica publicada na edição impressa de novembro de 2021

Categorias: Opinião

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