“Emigrar de Penedo” d´Água de Pau para a Ámérica

Roberto Medeiros

O José Luís «mata-gatas», sonhava acordado com um vapor que passava em frente à Ponta da Galera, em viagem para a América. O sonho dele era embarcar… ele ia para cima da rocha e acenava, para dar nas vistas, para quem fosse no barco, o quisesse levar.”

Depois da missa das cinco e antes das Trindades da manhã, ainda inverno, principiavam os homens e rapazes da nossa vila de Água de Pau a acorrer à Praça Velha, onde todos os dias se procurava e encontrava trabalho de braços nas nossas terras de cultivo, até quase ao cume da serra.

Todas as ruas iam lá dar, justificando o ditado popular de que todos os caminhos da nossa terra vão dar à Praça. Por regra era assim e por muitos anos, poucos se livravam desse castigo, a não ser que aprendessem outro ofício, seguissem os estudos – o que era milagre -, ou embarcassem para o Brasil, a América, Argentina ou Curaçau, em cata da sua ventura.

O José Luis «mata-gatas», sonhava acordado com um vapor que passava em frente à Ponta da Galera, em viagem para a América.

A antiga canada da Galera quando só se descia a pé ou de burro © D.R.

O sonho dele era embarcar “de penedo”, pois sempre que passava um daqueles barcos baleeiros ele ia para cima da rocha e acenava, esticando-se nas pontas dos pés, pulando mesmo, para dar nas vistas, para quem fosse no barco, o quisesse levar.

Nem que fosse para trabalhar, no barco, na faina do óleo da baleia para abastecer os candeeiros que iluminam as cidades da América, como lhe dissera um tio da América ao ti Chico da Helena “torta”.

Ele não gostava nada de ir para a Praça: “A Senhora dos Anjos me livre do castigo do sacho, da arrematação da praça para ir dar o dia por aqui e por ali nas terras de cada um”.

Na escola, um dia, recorda-se ele, o professor mandou fazer uma redação subordinada ao tema: O que gostarias de ser quando fores grande?

Dos mais ladinos e espertos da cachimónia, pôs-se o José Luís a matutar, lápis na boca, olhos pregados no teto, como havia de sair daquela tarefa. Depois de refletir por algum tempo, retirou o lápis da boca e entregou-se ao labor da escrita. Passado algum tempo, tinha já escrito já mais de uma dúzia de linhas, o que era suficiente, pensou. A caligrafia, então, nem se fala. Das melhores, senão a melhor de todos quantos frequentavam a Escola do Outeiro. O professor costumava apontá-lo como exemplo aos alunos e à outra colega professora em Água de Pau. Pena que o José Luís tivesse bicho carpinteiro, era muito irrequieto.

Depois de corrigidas as redações, entregou-as o professor aos alunos, mas, ao chegar à vez do José Luís, não se conteve e leu-a em voz alta para todos:
– “Quando eu for grande, gostava de ser bispo, como o da diocese de Angra na Terceira. Diz meu pai que é uma rica vida. Come-se do bom e do melhor e pouco ou nada se faz. O pior é falar latim. Mas, o que mais interessa é livrar-me da Praça, que é uma lástima de vida. Oxalá que o consiga, mas ando cá desconfiado que não vai ser nada fácil porque os empregos de bispo e mesmo outros estão muito escassos. Diz meu pai que são sete cães a um osso. Mas também diz que tudo isto há de acabar, há de haver uma reviravolta e então desaparece do mapa a arrematação do trabalhador na Praça…”

O senhor professor agiu discretamente. Apenas pôs pontos e vírgulas, corrigiu um ou outro erro, mas declarou que havia gostado. E sorriu de escantilhão para não dar confiança.

José Luís chegando a casa, mostrou a redação à mãe, a senhora Lurdes Soleta, esta depois de ler, lançou um olhar doce sobre o filho, e passou-lhe a mão pela cabeça e os dedos pelos olhos e face em sinal de amor. Já a irmã Gorete “sola-grossa” não dava nada na escola e por isso redimia-se lançando um olhar matreiro de inveja ao irmão.

Inteligente era o Luís “mata-gatas”, por isso, sabe-se lá porque diacho ganhou ele essa alcunha, mas julga-se que foi por terem associado o seu nome a um homem da terra, o Luís Fragata que havia matado uma ou mais gatas. A corisca da Helena “torta” é que começara a chamar-lhe assim e assim ficou… mas não para sempre, felizmente.

Na verdade, o destino sorriu ao Luís da tia Lurdes Soleta, que teimosamente continuou a descer a rua dos Ferreiros, e olhando sempre em direção ao mar, assim que via um barco a atravessar o mar da prata em frente ao Jubileu e Cerco, corria pela ladeira abaixo da Galera em direção ao seu penedo, na esperança de que o vissem a acenar, como alguém pedindo: – “Levem-me”!

Barco Baleeiro na sua faina entre Açores e New Bedford © D.R.

Um dia, finalmente, dum barco baleeiro arrearam um bote com alguém que o veio apanhar e levaram-no para a América! Durante quase oito meses andou o Luís com outros homens, a bordo, na faina baleeira, transformando a gordura do mamífero em óleo que ia enchendo o vasilhame disponível no barco. O fedor horrível daquela tarefa nunca o derrotou. Assim que todo o lote de barris ficou cheio, seguiram rumo a New Bedford, o maior porto baleeiro da costa leste dos Estados Unidos.

Quando ali chegou, com algumas patacas na algibeira que não lhe serviam de nada, pois o trato de o levarem no barco para a América foi de juntar-se com os outros até ao fim da faina naquela viagem, mas, sem pagamento. Por isso, apostou num trabalho no porto daquela cidade e então já com alguns dollars no bolso decidiu escrever uma carta aos pais que já o tinham por morto, desaparecido na apanha de lapas na ponta da Galera.

Um dia a senhora Maria Pamplona Ferreira da Estação dos Correios d’Água de Pau, mandou o seu filho Rodolfo entregar uma carta da América que viera em nome de Louis Soleta para a ti Lurdes Soleta que vivia na rua da Boavista [hoje rua do Pico de Baixo]. Pelo caminho, o Rodolfo não tirava os olhos das listras azuis e vermelhas estampadas no envelope.

– “Ti Lurdes Soleta mnha mã arrecebê essa carta d’Ámerca pá senhára”.

A ti Lurdes Soleta assim que abriu o envelope e reconheceu a caligrafia, bem feita, do seu filho, caiu no sofá de vimes quase desfalecida. Meu querido Luís, estás vivo, alma de Deus!

-Quirida Nossa Senhora dos Anjos, obrigada minha Santa, vou de promessa na procissão com um molhe de círios às costas. Ah isso é que vou!

A filha Gorete “sola-grossa”, comovida prometeu à mãe que a ajudava na tarefa de transportar os círios, durante a procissão no dia 15 de agosto próximo, pois a mãe nunca iria poder suportar tal castigo, coitada.

Mamã o Luis mudou de nome na terra d’Ámérica. Agora chama-se Louis. Sa-gente for p’Ámérica a mamã acha que vão mudar o meu nome também?

Gorete, olha-me, mas é para essas 500 «dólas» que teu irmão nos mandou. Estas e mais umas “pataquinhas” que teu pai foi guardando na algibeira do nosso colchão de folha, a gente vai todos mas é p’Ámérca, quésse dzê, quando teu irmão arranjar casa lá prá-gente todos!

Vai agora, minha filha, à grota dos cães, chamar teu pai que foi dar um dia com o António “chemiado” e diz-lhe que eu mando dizer que teu pai o mande ir cagar e alimpar o cú nas silvas e venha-se embora para casa! … E continuando…
Vamos p’Amérca e o António “chemiado” que s’inforque com o seu trabalho de escravo, de sol-a-sol, na raiz do passo que lhe vazou. Anda rapariga e não te esqueças de nada do que te disse para dizeres! Ala-pés!

Crónica publicada na edição impressa de junho de 2021

Categorias: Opinião

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