Empresa lagoense diversifica negócio e aposta nas casas modulares

Estão a ter uma procura cada vez maior e são a aposta de dois empresários do concelho que se dedicam há mais de 40 anos ao ramo automóvel

Ricardo Pereira já foi piloto de rally e até hoje mantém-se ligado ao setor automóvel FOTO DL

Ricardo Pereira, 55 anos, e Paulo Mariano Pereira, 62, são irmãos e gerem vários negócios. A paixão pelo rally, durante vários anos, fê-los pilotos nas competições da modalidade, mantendo-os até hoje agarrados ao ramo automóvel. Para além da AutoCentral, são proprietários de um centro empresarial com 24 mil metros quadrados – que sub-alugam a outras 16 empresas – na zona dos Portões Vermelhos e gerem 34 funcionários. Fazem ainda revenda de peças auto, possuem um pequeno stand de venda de automóveis usados e apostaram num ramo completamente diferente: o das casas modulares. Criam do zero, a casa dos sonhos de quem os procura. Em conversa com o Diário da Lagoa, o mais novo dos dois irmãos, Ricardo Pereira, explica como se gerem diferentes negócios em pandemia e como tudo começou.

DL: Fundou a empresa-mãe com o seu irmão?
O meu irmão começa primeiro porque é mais velho. Eu ia acompanhando mas estava a estudar e mais tarde junto-me a ele. A AutoCentral existe há 42 anos.

DL: Como é que começou?
Com uma pequena oficina no espaço que ocupamos sempre até à seis meses, no Rosário. Primeiro estávamos sozinhos depois fomos aumentando e fomos sempre acarinhados pelos vários executivos camarários que nos ajudaram porque de facto sabíamos que estavamos congestionados ali a nível de espaço e de estacionamento.

DL: Quantas e que empresas estão instaladas neste vosso novo espaço?
Temos no edifício 16 empresas. Criámos aqui também sinergias. Os nossos inquilinos também são nossos clientes. As pessoas que vêm cá às empresas também nos ficam a conhecer e é bom para todos. São empresas de segurança, arquitetos, contabilidade,construção civil, publicidade e marketing, temos um restaurante vegetariano, também. Nós quisemos criar aqui uma forma das pessoas terem um bocadinho de tudo e é agradável para quem vem aqui e para quem trabalha aqui.

DL: Como correu a adaptação a este novo espaço de trabalho?
Correu um bocadinho melhor do que perspetivámos porque de facto qualquer mudança é sempre complicada. O edifício embora já tivesse as características atuais de construção mas estava adaptado para outro negócio. Nós tivemos que o adaptar para o nosso negócio.

DL: Diversificar o negócio, num meio pequeno, é uma mais valia?
Acho que sim mas tem de haver alguma dimensão porque senão fica-se muito fragilizado.
Nós trabalhamos com as companhias de seguros na substituição de pára-brisas. As pessoas, por exemplo, desconhecem que têm incluído no seu seguro automóvel a possibilidade de substituir o seu pára-brisas de forma gratuita. Se têm um vidro partido podem-no substituir de forma gratuita e somos só nós e mais duas empresas na ilha que o fazem. O que também acabou por ser interessante para nós foi o facto de sermos parceiros com a PSA, um grande construtor automóvel. Eles têm uma vertente de oficinas autorizadas e somos a única empresa PSA na ilha. Desde 2010 é possível que as garantias dos carros novos que as pessoas compram possam ser prestadas por agentes autorizados que não os concessionários. Antes durante os anos de garantia do carro, as pessoas eram obrigadas a ir à marca fazer a manutenção. Atualmente, quem paga manda, portanto é o dono do carro que escolhe fazer a manutenção e não pode ser penalizado por essa decisão, ou seja, não pode perder a garantia. Em contrapartida, a pessoa tem que escolher uma oficina que seja certificada, e nós somos uma delas com o apoio da PSA, temos é de utilizar materiais certificados pela marca. É importante que as pessoas saibam que têm essa possibilidade.

DL: Chegaram a ter funcionários em lay-off?
Sim, mas já não temos. E felizmente não tivemos necessidade de despedir ninguém e até contratamos mais duas pessoas por causa de uma outra atividade que temos, a construção das casas modulares.

DL: Que tipo de casas constroem?
Qualquer tipo. São sempre casas mais pequenas, t1, sessenta metros quadrados ou t2 e podem ir até aos 120 metros quadrados. Estamos a terminar uma em Vila Franca que já é uma casa com alguma dimensão.

DL: Quanto tempo demora a construir uma casa dessas?
Depende. Há a parte do projeto, da construção, dentro de uns sete a oito meses consegue-se terminar uma casa modular.

DL: Consegue ser mais barata que uma casa convencional?
Sim, muito mais. Um t1 fica-lhe em 55 mil com tudo, chave na mão. Depois depende dos acabamentos.

DL: Qual é a durabilidade de uma casa modular?
É feita em construção metálica, não é aço leve. Os revestimentos a pessoa escolhe. Tem uma eficiência energética de topo, tudo com novos materiais. Utilizamos cortiça no interior das paredes que cria um ambiente mais agradável. A pessoa compra a casa, vive lá a sua vida toda e não tem problemas, com manutenção claro, mas sem problemas estruturais. E tem uma vantagem, podemos fazer a casa e transportá-la, dependendo das dimensões. As mais pequenas podem ser transportadas num daqueles camiões grandes.

DL: As pessoas estão a recorrer mais a este tipo de casas?
Sim. Os nossos primeiros potenciais clientes eram de alojamento local. Entretanto estamos a terminar uma casa em Vila Franca, outra que já terminámos na zona das Socas, fizemos só até uma certa parte e depois ficou por conta do cliente. Temos uma aqui fora que estamos a construir para instalarmos aqui dentro e estamos a começar outra nos Valados. Num meio pequeno é bom ter mais do que uma atividade. As casas estão interligadas com a serralharia.

DL: Estão a ser muito afetados pela pandemia?
A nossa área nunca foi obrigada a parar, foi sempre permitido funcionar a reparação automóvel. E aproveitamos isso da melhor forma. Houve alguns meses em que nos dedicámos mais à adaptação do nosso espaço porque fizemos isto tudo com o nosso pessoal. De uma forma geral podemo-nos sentir privilegiados por estar nesta área porque para quem está ligado ao turismo ou à restauração é complicado.

DL: Mas sentiram quebras?
Sim e continuamos a sentir. Chegamos a ter quebras de quase 50 por cento em algumas áreas. A parte dos reboques, uma área muito importante para nós, teve quebras de 60 a 70 por cento alguns meses, recuperou mas não totalmente. Quando existe muito reboque significa que as oficinas vão ter muito trabalho. E quando os reboques começam a diminuir significa que os carros estão mais parados, as pessoas estão a trabalhar mais a partir de casa e nao precisam de sair.

DL: A paragem das rent-a-car influencia muito o trabalho das oficinas, certo?
Trabalhamos com duas empresas de rent-a-car e neste momento temos zero casos de reparação deles porque os carros não circulam. No total devem ser uns 3 mil carros a menos a circular e eram carros que estavam a andar, a consumir travões, etc. A recuperação vai ser lenta.

DL: Como é que olha para o futuro pós-pandemia?
É uma situação muito imprevisível. Quando há uma crise económica ou financeira conseguimos perspetivar as coisas. Nesta situação é muito complicado porque não sabemos quando as coisas podem complicar. Tenho esperança que as coisas venham a melhorar porque já aprendemos a lidar com a situação, há a ajuda das vacinas. Acho que temos que estar esperançosos.

Sara Sousa Oliveira

Entrevista publicada na edição impressa de abril de 2021

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