Encontro de clássicos reuniu dezenas de viaturas, participantes e curiosos na costa sul de São Miguel

Iniciativa organizada pela Associação Louco por Clássicos consistiu num passeio em família, onde os automóveis puderam ser apreciados e fotografados por quem passava

Encontro de Clássicos teve início na marina de Vila Franca do Campo © D.R.

Pelas 10 horas começam a ouvir-se os motores de carros antigos, na marina de Vila Franca do Campo. Fora dos carros, o grupo com cerca de 50 participantes distingue-se pelas t-shirts azuis com o logótipo da Associação Louco por Clássicos, a organizadora do encontro.

Os sócios, que já não se reencontram há algum tempo, cumprimentam-se e recordam as atividades de anos anteriores, como viagens a outras ilhas. A associação que costumava dinamizar meia dúzia de iniciativas ao longo do ano, passou a realizar apenas um encontro anual desde o início da pandemia.

Depois de colocarem a conversa em dia, 22 clássicos seguem rumo às Furnas. Pelo caminho, o sol esconde-se e dá lugar à chuva. Apesar do mau tempo, os participantes não se deixam intimidar. Quem tinha iniciado viagem com descapotável, rapidamente trata de pôr a capota. À chegada às caldeiras, com os carros alinhados frente a frente, de um lado e do outro do parque de estacionamento, recomeçam as conversas entre sócios. O tema é sempre o mesmo: automóveis. Além das novidades do mercado, José Martins do Vale, fala sobre o recente leilão dos carros do ator Tom Hanks que, como realça, “estão fora do alcance regional e nacional”.

Clássicos alinhados no parque das Caldeiras das Furnas © D.R.

A falta de uso dos carros antigos traz alguns constrangimentos

Enquanto convivem, uma breve contagem permite perceber que nem todos os veículos conseguiram chegar às Furnas. Um ou outro ficaram para trás com avarias resultantes do pouco uso destes carros antigos. É também devido a uma pequena avaria que alguns participantes se reúnem à volta do capô do Mercedes 240D, de 1989, de Sérgio Oliveira, que tenta remendar um fusível rebentado. Com a chuva que se fazia sentir, os vidros do Mercedes começaram a embaciar. “Como o carro não trabalha muito, o motor da sofagem prende e há uma taxa de esforço maior, acabando por queimar o fusível”, explica Sérgio, acrescentando despreocupado que isso não é impeditivo de continuar o encontro. “Posso é continuar com o vidro embaciado, mas com um pano limpa-se à mão”, refere sorrindo.

Sócios reunidos à volta do Mercedes 240D, de Sérgio Oliveira © D.R.

Ao mesmo tempo que vai resolvendo o problema com um arame, Sérgio conta que adquiriu o Mercedes há 6 anos. Como a maioria dos fãs de clássicos, está sempre atento às oportunidades que vão surgindo. “Vi-o na internet e fui propositadamente a Braga para confirmar se estava nas condições em que era apresentado nas fotografias do anúncio. Vi, gostei e mandei-o para cá”, desvenda. Segundo Sérgio, para dar asas à paixão por estes veículos é preciso, acima de tudo, disponibilidade financeira, pois a sua manutenção acarreta custos elevados. “Estes carros têm mais avarias parados do que a andar. Se estiverem parados os travões colam, a bateria vai embora, o motor do limpa pingas deixa de funcionar. Tudo por falta de uso”, assegura.

Ainda assim o Mercedes 240D é apenas um dos clássicos que enche a sua garagem. Aos 23 anos, Sérgio transformou o seu primeiro carro, um Volkswagen Carocha, num buggy. “Retirei a carroçaria fora do chassi, cortei 40 centímetros do comprimento do chassi e voltei a soldá-lo. Adquiri a carcaça em fibra de vidro e o resto fui montando e adaptando”, descreve. Apesar do orgulho com que relata a experiência, confessa que foi um projeto bastante arrojado. “Toda a gente dizia que eu era maluco. Foi muito difícil transformar um carro numa altura em que não havia internet disponível para procurar o que era suposto fazer. Hoje qualquer jovem com o mínimo de aptidão para isso consegue fazê-lo”. É pelos anos de história e dedicação a estas viaturas que é assertivo quando diz que “não há negócio que não se faça, mas de casas e terrenos. Destes carros não! Não há dinheiro que os pague, porque eu não os quero vender”.

Volkswagen “pão de forma” faz parte da vida de Victor há 50 anos

Enquanto os locais e turistas curiosos se aproximam dos clássicos estacionados para os contemplar e fotografar, Victor Sousa, no interior do seu Volkswagen “pão de forma” cor de laranja, revela que também seria incapaz de o vender. Embora este seja um dos veículos mais cobiçados até entre os colegas da Associação, que o apontam como o mais valioso do encontro, Victor assegura que “se aparecesse uma pessoa a oferecer 100 mil euros, não vendia”. É notável o afeto que Victor, de 78 anos, tem pelo seu clássico: “este foi o primeiro carro que tive na vida. Comprei-o novo de fábrica quando fui morar para os Estados Unidos da América. Cheguei lá em 1970 e comprei-o logo no ano seguinte. Quando regressei trouxe-o comigo. Já o tenho há 50 anos e há de ser sempre meu até ao fim da minha vida”.

Tal como a grande maioria dos participantes do evento, Victor faz-se acompanhar da família. Consigo trouxe a esposa, que vem “sempre que o trabalho permite”, e a irmã, “que vive no continente, mas está de férias nos Açores”. Isabel, a esposa deste que é o sócio com mais idade da Associação Louco por Clássicos, acompanha-o na “pão de forma” para todo o lado e, por isso, em tom de brincadeira revela que “não só faz parte da Associação, como até já faz parte do carro”.

Volkswagen “pão de forma”, de 1971, de Victor Sousa © D.R.

Em frente à carrinha de Victor discutem-se as modificações dos carros presentes no encontro. Que ninguém conteste o nível de sabedoria destes aficionados por clássicos, porque eles sabem exatamente o que foi alterado. “Esses para-choques não são originais desse Volkswagen 1200”, garante Sérgio Oliveira sobre o carro de outro sócio, cujo dono o reconhece e acrescenta que “foi só isso e os piscas traseiros” que alterou. Com os carros em exposição, uns com capô levantado, outros com as portas abertas para proporcionar maior visibilidade para o interior, a conversa sobre clássicos não se esgota. Há até quem se ajoelhe para poder observar com precisão a parte de baixo destes veículos peculiares.

Filipe tem uma coleção de seis modelos clássicos

O presidente da Associação Louco por Clássicos, Filipe Ponte, assiste a toda esta dinâmica entre o carro que trouxe e um dos mais recentes que vendeu. Os clássicos fazem parte da sua vida há 25 anos e a sua esposa, Susana, já se junta a estas andanças há 20. Da coleção de Filipe fazem atualmente parte seis modelos da Volkswagen: um Split de 1950 (que inclusivamente tem tatuado), um Oval de 1955, um Cabriolet de 1961, um Buggy de 1963, um Karmann guia de 1969 e um Volksporsche de 1976. “Acreditam que são seis clássicos dentro da garagem e os nossos de uso diário é que ficam do lado de fora?”, pergunta Susana retoricamente.

Tatuagem do Volkswagen Split, de 1950, no braço de Filipe Ponte © D.R.

Com tanta opção, o difícil foi escolher qual deles trazer para o encontro. Quanto a Susana não havia dúvida. Embora confesse que não percebe nada de carros, o presidente da Associação comprou o Volksporsche especificamente para a esposa. Já Filipe optou por levar a passear o Oval. Demonstra gostar de todas as suas viaturas, no entanto tem-nas à venda, exceto o Cabriolet oferecido pelo pai, o qual aluga para casamentos. “A ideia é vender uns e comprar outros que já tenho em mente”, esclarece o apaixonado por clássicos. “Este Carocha que era o meu sétimo clássico foi vendido há pouco tempo. Agora já está ao gosto do novo dono, mas antes levava uma prancha de surf em cima e uma mala de viagem antiga atrás, por fora da bagageira”, recorda o entusiasta, mostrando fotografias de como era. “O carro mais requinho foi logo o que foi embora”, manifesta com tristeza o filho de 14 anos, também ele Filipe.

Filipe Ponte e a esposa Susana, junto ao seu Carocha recentemente vendido © D.R.

Ao ouvir falar sobre os negócios, Ludgero Medeiros, um dos sócios e grande amigo do presidente, anuncia: “se tu venderes tudo eu também vendo o meu e deixo isso tudo da mão”. Filipe, a sorrir, enfatiza que nunca vai acabar com os clássicos e deixa um aviso de volta: “ai de ti que vendas o teu por meia dúzia de patacas”.

Depois de duas horas a conversar, apreciar e avaliar clássicos, puseram-se de novo à estrada. A 40 km/h se vai passeando pelas Furnas e ninguém fica indiferente a estas relíquias. Quem as vê para, aponta, fotografa e acena. Em retorno recebem apitos e sorrisos. Os clássicos estão bem e recomendam-se.

Maria Leonor Bicudo

Categorias: Reportagem

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