Estamos em 2021 com os olhos postos em 2027

Joana Simas
Museóloga

No meio de tantos noticiários em torno do Covid-19 e da vacinação, temas que estão inevitavelmente na ordem do dia, houve duas grandes notícias que, nos últimos dias, trouxeram uma lufada de ar fresco: a entrada em vigor da redução das tarifas áreas inter-ilhas para residentes, que peca apenas por não ter sido praticada há mais tempo, e a apresentação oficial da candidatura dos Açores a Capital Europeia da Cultura 2027, sob o mote “A Nossa Natureza é Humana”. Esta última, é sem dúvida, ao nível cultural, uma iniciativa louvável e nobre para o Arquipélago que encaro como uma nova viragem nesta área, que tem sido sacrificada constantemente em comparação com outras, sendo-lhe atribuída uma maior relevância há muito reclamada por todos os seus profissionais e que certamente trará inúmeros benefícios para todos.

Sumariamente, a Capital Europeia da Cultura é uma iniciativa da União Europeia surgida em 1985, em Atenas, denominada inicialmente de “Cidade Europeia da Cultura”, com o intuito de «valorizar a riqueza e a diversidade das culturas europeias, assim como as características comuns, e contribuir para um maior conhecimento mútuo dos cidadãos europeus», sendo o maior evento cultural anual existente na Europa, onde duas cidades de dois países europeus recebem o título, atribuído quatro anos antes, para desenvolverem intensivamente, durante esse ano, atividades culturais com vista à dinamização da cidade como centro cultural, social e económico.

Será a quarta vez que Portugal será anfitrião, partilhando o título com uma cidade da Letónia. Depois de Lisboa em 1994, do Porto em 2001 e de Guimarães em 2012, várias são as cidades portuguesas que estão na corrida ao título para 2027, entre elas: Aveiro, Braga, Coimbra, Évora Faro, Funchal, Guarda, Leiria, Oeiras, Ponta Delgada e Viana do Castelo, cujo resultado final será conhecido em 2023.

A candidatura de Ponta Delgada apresenta já uma dimensão arquipelágica, que abrange uma coesão e adesão de todas as Câmaras Municipais que apoiam a candidatura como municípios promotores, colocando de parte as diferenças partidárias entre ambos, em prol da promoção da cultura regional. A novidade nesta candidatura é o envolvimento de todas as ilhas criando um Pacto de Cultura como estratégia cultural de desenvolvimento da região.

A distribuição geográfica das ilhas permite, por vezes, o desenvolvimento de isolamento e bairrismos, que quer ser contornado com este envolvimento de todas as ilhas no projeto, transportando um sentimento de união em proveito da valorização da cultura açoriana nas suas nove ilhas.

Vários são os benefícios que a candidatura e, consequentemente, a possível aprovação da mesma acarretam, possibilitando a existência de uma atividade cultural revitalizada, que atingirá uma dimensão à escala global. Haverá, com toda a certeza, uma abertura de mentalidades e uma melhoria da imagem da própria cidade, em vários níveis, tal como aconteceu nas outras cidades portuguesas que já tiveram esse privilégio. Igualmente, irá gerar uma maior movimentação o que originará um aumento do fluxo turístico com forte impacto na dimensão económica.

É sabido que os Açores “vendem” a sua imagem em torno da Natureza, mas há muito para além desta “imagem de marca”, passo a expressão. Há pessoas, tradições, património e toda uma cultura que envolve as 9 ilhas – uma cultura marcada por uma identidade única que tanto as caracterizam como as distinguem umas das outras.

Caso Ponta Delgada seja a cidade eleita para tamanho evento, proporcionará ainda uma maior projeção para os Açores. Os Açores que, nos últimos anos, têm estado na “moda” ao marcarem presença na rota dos viajantes, deverão afirmar-se, igualmente, com uma imagem cultural.

Ser Capital Europeia da Cultura é muito mais do que apresentar ao mundo a cultura de uma localidade. É ter a responsabilidade de perpetuar no tempo as diversas dinamizações culturais de um sítio. Vai muito além da visibilidade e do prestígio. É um trabalho para e com a comunidade alertando-a e sensibilizando-a para a valorização da sua cultura, nas suas várias dimensões.

Sendo uma das iniciativas culturais mais cobiçadas da Europa, aguardemos que no meio de tão prestigiadas candidatas, esta candidatura ganhe asas e voe até nós. Demonstraremos que somos capazes de estar à altura de tamanho distintivo, demonstrando orgulhosamente o que de melhor distingue a cultura açoriana.

Esta candidatura acaba por ser um grito à valorização do setor cultural com provas evidentes que se pode desenvolver uma região a partir da cultura e que o investimento realizado na área garantirá um forte impacto, assim como um retorno económico.

Categorias: Opinião

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