“Eu faço o meu mundo em qualquer sítio ou lugar em que estou”

A ilha do Pico acolheu mais uma edição do Azores Fringe, festival internacional de artes. O evento é pretexto para uma conversa sobre a vida e a carreira do seu criador, Terry Costa

Terry Costa tem 47 anos e nasceu no Canadá mas escolheu o Pico para viver e trabalhar © DAVIDE SOUSA

Terry Costa, encenador, palestrante e apresentador de workshops, entre muitos outros mundos que abraçou na vida, nasceu no Canadá no ano da revolução dos cravos. Neste primeiro de julho celebra o seu 47º aniversário num tempo que classifica como “triste” para aqueles que vivem da cultura. Escolheu a Madalena do Pico para concretizar a mudança da sua vida, tendo-se fixado na ilha montanha para estar mais perto de quem o trouxe ao mundo. Fundou uma associação que conta com mais de 750 artistas das nove ilhas dos Açores e é um dos principais dinamizadores da cultura no arquipélago onde vive, promove e investe.

DL: Quem é o Terry Costa?
O Terry é um ser humano que veio a este planeta mas que talvez podia ser de outro planeta.

DL: Porquê?
Sou daquelas pessoas que facilmente me sinto em casa. Na minha chamada meia idade decidi voltar para os Açores e sempre me senti em casa nos lugares onde vivi. Desde o primeiro dia senti que os Açores fazem parte de mim e que os Açores são o Terry Costa e o Terry Costa é os Açores, é por isso que sinto que se morasse noutro planeta talvez o mesmo acontecesse. E por vezes as pessoas dizem-me ‘ah tu és mesmo fora desse mundo’ e até podia ser. Eu faço o meu mundo em qualquer sítio ou lugar em que estou.

DL: Quando surge a decisão de se instalar no Pico?
Estava a visitar os meus pais, mais regularmente, para os ajudar em termos de saúde com viagens a médicos e assim. Em 2011 vim muitas vezes. Os primeiros anos foram difíceis. Passei mais ou menos seis meses por cá e outros seis meses no Canadá e Estados Unidos.
Nos primeiros meses fiz questão de conhecer os Açores. Fui visitar as nove ilhas, que não conhecia. Pedi a todos os municípios para alocarem um espaço para uma conversa sobre artes. Conheci mais de quatro mil pessoas nos primeiros meses.
Foi assim que começou tudo, a título pessoal. E aí fundei a MiratecArts, uma associação cultural. Devido a estes encontros todos, com pessoas das várias áreas, foi aí que fundamos a associação e a plataforma discoverazores.eu dando a oportunidade para ser sócio-colaborador da associação. É uma rede que continua, temos mais de 750 sócio-colaboradores das nove ilhas dos Açores.

O Fringe, que começou no mundo anglófono, em 1947 em Edimburgo, na Escócia, é um movimento que apoia artistas para se apresentarem mesmo sem terem a participação do estado, da região ou municipal. A ideia de construir algo que dê oportunidades para pessoas fazerem o que querem fazer sem juris, na cultura artística. Foi aí que começou o nosso primeiro grande festival, o Azores Fringe festival que desde o primeiro dia teve como intuito ser um festival dos Açores para o mundo. Agora que já terminamos a nona edição, já passaram por cá mais de dois mil artistas de 74 países, tendo sido a primeira edição em 2013. No ano passado foi tudo online. Este ano já conseguimos fazer 40 eventos ao vivo, quase todos com açorianos mas também com continentais, franceses e belgas.

DL: Como foi vir de um país como o Canadá para uma pequena ilha no meio do Atlântico?
Sempre trabalhei com “change from the couche”, as moedas que encontramos no sofá, até projetos que envolveram milhões de dólares, por isso tenho experiência de um lado ao outro. Vir de grandes cidades para um meio tão pequeno, claro que é uma diferença drástica. Para mim a maior diferença foi não ter os recursos financeiros que tinha. Mas aqui tudo é muito mais bonito, é muito melhor viver nestas ilhas do que em grandes cidades. Aqui uma pessoa não se sente tão só. Temos sempre de fazer muitas coisas ao mesmo tempo para se conseguir viver nestas ilhas. Temos alguns artistas que conseguem viver da arte mas não são muitos nos Açores.

DL: A pandemia afetou muito esses artistas?
Tem sido um bocadinho triste. Nós somos uma grande rede na MiratecArts e há de tudo, há pessoas que perguntam se não há nada que possam fazer por 50 ou 100 euros só para ajudar com a casa ou comida porque para quem só vive da arte é muito difícil. A pandemia veio encerrar todas as oportunidades para as pessoas criativas. É triste ver pessoas tão talentosas e com tanta experiência chegarem a um ponto em que não tinham o que comer.

DL: Isso dificultou estes dois últimos Azores Fringe?
Este ano tivemos mais participação açoriana. 600 mil euros para dividir
por todos não dá muito mas para alguns é mais do que receberam nos últimos seis meses ou um ano.

DL: Em que espaço decorre o Fringe?
Acontece em todo o lado, nas casas e ateliers de artistas, online, em vídeo, em auditórios, museus, bibliotecas, jardins, na nossa sede, a MiratecArts. É um espaço com mais de 25 mil metros quadrados com vinhas, pedra, florestas, zona costeira, onde os artistas são incentivados a criar arte mas também uso como palcos para apresentar o seu trabalho. O nosso espaço já tem mais de 40 instalações de arte, um quilómetro de arte na natureza.

DL: Que projetos se seguem?
O Cordas Music Festival que acontece em setembro na Madalena e é um festival galardoado internacionalmente porque é de nicho, é muito específico, em que os artistas se apresentam com instrumentos de cordas. O Montanha Pico Festival, que acontece em janeiro, sobre a cultura montanhosa, desde fotografia, pintura. E ainda temos o AnimaPix que é um festival de animação do Pico que vai desde o livro à tela em termos de ilustração. Estes são os nossos grandes festivais e depois temos muitos projetos comunitários, que vão desde o tricot à pedra basáltica. Pessoalmente, estou a desenvolver uma peça que se chama “Monstro” entre o Canadá, o Japão e a ilha do Pico e contínuo o meu projeto da Néveda que é a personagem que criei baseada na flor da Nêveda que é uma menina muito viajada. Na primeira fase ela encontra os Açores e viaja pelas nove ilhas e na segunda haverá um novo livro e novos produtos à sua volta. A Néveda aí vai às Américas e aí haverá mais conexão com as comunidades açorianas mas também artísticas porque esta personagem serve para incentivar para a arte na educação e a educação com a arte e para conhecermos o mundo de forma diferente.
Gostava de por de pé uma casa de pedra que temos na MiratecArts Galeria Costa para fazer um centro de interpretação, uma loja e um café onde os artistas podem conviver e vender os seus trabalhos como também constituir um centro internacional de indústrias criativas, uma escola profissional dedicadas às artes. Nós temos o espaço, o que necessitamos é de um bom projeto para avançar com estas obras.

DL: Está otimista quanto ao futuro pós-pandemia?
Temos de nos adaptar, está mais que visto, é uma realidade global. Temos de pensar em outras formas de criar e apresentar o nosso trabalho. Em certas artes consegue-se adaptar para a internet sem problemas, mas não todas, por isso as artes que não se podem adaptar, que é algo que não incentivo como artista, porque o mundo já está muito virtual. Isto vai durar muitos anos e mesmo que sejamos muito otimistas, as coisas não vão mudar rapidamente e quando mudarem não vai ser para o que conhecíamos antes.

DL: Para terminar, como é que costumam ser os seus dias?
Durmo pouco, talvez deveria dormir mais neste momento da minha vida. Os meus dias são sempre preenchidos com ideias. Eu sou um maníaco de ideias, de criação e às vezes não consigo me expressar da forma que estou a pensar porque é ideia em cima de ideia.
O que mostro é 10 por cento daquilo que eu sonho com os olhos abertos, por isso quando estou com os olhos fechados imaginem o que posso sonhar.

Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de julho de 2021

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