Filipe Andrade. O craque de Água de Pau que está a fazer história no futebol nacional

O maior goleador do Campeonato de Portugal é um filho da terra: Filipe Andrade, natural de Água de Pau. Aos 28 anos, representa o Torreense, mas não esconde a ambição de chegar à primeira liga

Filipe Andrade tem 28 anos e está no Torreense tendo começado a jogar em Água de Pau © CORTESIA TORREENSE

A face mais visível do futebol são os craques globais dos escalões mais altos, mas o desporto-rei não vive só disso. Aliás, a essência do futebol também fervilha em escalões inferiores, fora dos clubes mediáticos, onde craques mais ou menos desconhecidos constroem gloriosas carreiras à força do suor e sacrifício. Tudo por amor ao futebol. É o caso do maior goleador de sempre do Campeonato de Portugal: Filipe Andrade, de seu nome. O avançado de 28 anos, que representa o Torreense, é nascido e criado em Água de Pau, a terra que o viu dar os primeiros pontapés na bola. “Tudo começou na minha freguesia, em Água de Pau, havia torneios no polidesportivo, para adultos e crianças. Eu entrei nesse torneio e havia pessoas que pertenciam à direção do Santiago que me viram a jogar e fizeram-me o convite”, recorda agora ao Diário da Lagoa (DL) o jogador do Torrense, que tem tido sobre si os holofotes da comunicação social nacional desde que se tornou o máximo goleador do Campeonato de Portugal.

Naquele torneio amigável entre crianças iria nascer um goleador. Tinha então 10 anos. Começou a jogar no Santiago e nunca mais parou. Aos 16 anos, trocou, pela primeira vez o clube da sua terra, para jogar no Marítimo da Calheta. Foi aí que percebeu que poderia fazer do futebol vida. “No Marítimo fomos campeões regionais de juvenis e pudemos disputar o nacional contra as melhores equipas do país como o FC Porto”, explica. Ao jogar contra os melhores, percebeu que era capaz de os enfrentar. “Foi a partir dai que comecei a pensar ‘se eles conseguem eu também consigo’, porque aí vi que era capaz”.

E foi mesmo capaz. Voltou ao Santiago, para os juniores, e foi se entrosando progressivamente com os seniores. Na primeira época como sénior, começou logo a marcar golos e despertou atenção de clubes de escalões superiores. A começar pelo Santa Clara: fez um estágio nos ‘encarnados’ de Ponta Delgada e só não assinou por mudanças no contrato à última da hora. Com a “grande ajuda” do amigo Clemente, antigo avançado também natural da Lagoa, apareceu então o Desportivo de Chaves (clube que Clemente representou na carreira).

Mas, meia época depois, voltou ao Santiago e acabou, logo de seguida, por experimentar o outro clube do concelho, o Operário. Nos fabris, teve uma época, onde não jogou tanto quanto queria. Regressaria novamente ao Santiago porque “senão era para jogar no Operário preferia ir ajudar o clube da terra”. Após isso, chegaria, então, à ilha Terceira, na época 2014/15, para representar o Praiense. A partir daí a sua carreira começou a progredir a passos largos. “O Santiago e o Praiense são dois clubes diferentes, mas são os dois especiais em diferentes sentidos. O Santiago é o clube da minha formação e do meu coração, eles é que me deram tudo para ser o que sou hoje”, assinala Filipe Andrade, reconhecendo, também, uma dívida de gratidão para com o clube da Praia da Vitória. “Depois o Praiense acreditou em mim e deu-me a grande oportunidade para disparar e começar a minha carreira no Campeonato de Portugal”, acrescenta.

O homem-golo

No estádio de Alvalade, o cronómetro de jogo ainda não tinha chegado aos dois minutos. Filipe Andrade aproveitou a bola longa para voar entre os centrais do Sporting, deixou a bola cair uma e outra vez, encheu o pé e fuzilou Beto. Um golaço em qualquer parte do mundo. Filipe Andrade correu para festejar o golo, bateu no peito duas vezes e ergueu uma bandeira dos Açores onde se lê: “Água de Pau, Família e Amigos Pauenses”.

 

O Praiense acabaria por perder o jogo da Taça de Portugal frente ao Sporting, então orientado por Jorge Jesus, mas ninguém pode retirar aquele momento histórico a Filipe Andrade. Aquele é o golo mais especial da carreira, diz. “Esse foi um golo especial. Foi o marcar ao Sporting, foi o golo em si que foi bonito, foi em Alvalade, a um minuto e trinta segundos e depois mostrar a bandeira e estar ali escrito Água de Pau. Foi muita coisa envolvida”.

Acabou por ser o momento de ouro nas cinco épocas no Praiense – com uma pausa pelo meio para representar o Real SC durante uma temporada. Foi com a camisola listada de vermelho e branco do clube de Praia da Vitória que viria a marcar uma parte significativa dos golos no Campeonato de Portugal. Mas seria já ao serviço do Torrense que ira chegar aos 80 golos – e o marcador continua a contar. 80 golos na prova, que fazem dele o máximo goleador da história da competição.

“É um orgulho imenso porque estou a ser recompensado pelo esforço e por todo o sacrifício que eu tive ao longo desses anos, é um momento único e muito especial”, afirma. Uma marca que não é para todos: “ao menos eu posso dizer que bati o recorde de golos e posso dizer que atualmente sou o melhor marcador de todos os tempos no Campeonato de Portugal”.

E para o futuro? Que metas tem Filipe Andrade? Para já, é “subir de divisão com o Torreense”, afirma, uma vez que a equipa de Torres Vedras está sempre a lutar pelos lugares cimeiros da sua série no Campeonato de Portugal. Aliás, a subida de divisão é uma meta constante na carreira do avançado açoriano, que tem alternado entre diferentes clubes precisamente devido aos objetivos da subida: “eu tenho andando por vários clubes por causa dos projetos que me apresentam. Sou um jogador ambicioso, gosto de projetos para subir”.

Depois, em termos de planificação a médio prazo, logo se vê: o sonho comanda a vida – e Filipe Andrade tem o sonho bem definido. “Estou com 28 anos, mas ainda tenho o sonho de chegar à primeira liga”. Mas, independentemente do escalão, Filipe Andrade quer aproveitar o resto da carreira para garantir o futuro da sua família. A intenção passa por ir para um “clube bom financeiramente”, porque o futebol não dura para sempre. “Tenho de pensar no meu futuro e da minha família, porque também depende de mim. Quero dar uma boa estabilidade à minha vida e o futebol acaba aos 35, 36 anos”.

Mesmo que para tal tenha de ir para o estrangeiro. Uma dificuldade grande para um pauense orgulhoso, que faz questão de levar o nome da sua terra para qualquer lado que vá. “Quando acaba o futebol, volto logo para casa. Até é raro ir fazer viagens, e quando faço, passo sempre primeiro pela minha terra, porque preciso de estar com a minha família e com os meus amigos”, diz, entre risos, acrescentando em seguida: “eu estou sempre com saudades da minha terra”. E a terra com saudades dele.

Rui Pedro Paiva

Reportagem publicada na edição impressa de abril de 2021

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