Funcionamento da Unidade de Saúde de Lagoa gera onda de críticas entre utentes

Desmarcação de consultas sem aviso prévio, meses de espera para obter novas consultas, linha telefónica sem atendimento e demora na obtenção de documentos são algumas das reclamações de quem usa os serviços desta unidade de saúde

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O relógio ainda não deu as 10 da manhã e António Lopes já está desesperado em frente à Unidade de Saúde de Lagoa. Tem em tribunal um assunto pendente por falta de um documento que só o delegado de saúde lhe pode passar. Trata-se de um certificado multiusos, que comprova os seus 75 por cento de incapacidade física que o levaram em 2000 à reforma por invalidez. Já vem pedindo o documento desde março, quando o antigo expirou a validade.
Oito meses volvidos continua à espera. “Acabei de falar com o delegado de saúde, que me disse que está à espera de uma resposta de alguém para poder passar o papel”, explica o utente. Frustrado retribui: “Oh senhor doutor, eu não quero uma resposta, quero a declaração”, mas é um “não posso fazer nada” que lhe é devolvido e o conduz, novamente, ao exterior da unidade de saúde, onde aguarda por um milagre.

Os meses vão passando entre várias chamadas do advogado para continuar a insistir no requerimento do documento que necessita. “Todas as vezes mandam-me esperar. O delegado diz que me vai dar o documento, só não me diz quando. Até lá, o meu advogado tem de ir pedindo a prorrogação do prazo para apresentar o documento em tribunal”, reivindica António.

O homem de 54 anos confessa já ter perdido a conta às vezes que se desloca a estas instalações para solicitar o documento. Vem saber do estado da situação presencialmente, porque telefonicamente nunca é atendido.
Esta é uma reclamação muito recorrente de quem tenta telefonar para a unidade de saúde. Não é só António que se queixa. É também Paula Gaspar, Sílvia Botelho, Paula Ponte e muitos outros utentes. São poucos os que saem sem se queixar. “Levei a manhã toda a ligar e ninguém atende. É uma vergonha. Tive de vir pessoalmente”, afirma Paula Gaspar. “A gente pode ligar que dá tempo de morrer até que alguém atenda”, reforça Sílvia Botelho, acrescentando que, até para marcar uma consulta é preciso vir a pé de longe. “Quando quero ligar e pedir uma receita, ninguém atende. Tenho de vir de propósito. Quando chego digo que liguei e os funcionários respondem que são muitos telefonemas, que não podem atender tudo. Arranjam sempre desculpa”, lamenta Paula Ponte.
Perante essas denúncias, o Diário da Lagoa fez o teste. Ligamos várias vezes, todas sem sucesso.

“Levei a manhã toda a ligar e
ninguém atende.
É uma vergonha.”

PAULA GASPAR

“A gente pode ligar que dá
tempo de morrer até que
alguém atenda.”

SÍLVIA BOTELHO

 

Outro protesto que muitos utentes nos fizeram chegar foi a desmarcação de consultas sem aviso prévio. Jéssica Aguiar sai do centro de saúde e desce a rampa com o seu carrinho de bebé. A mãe sente-se prejudicada depois de ter sido surpreendida. “Quando cá cheguei a consulta estava desmarcada. E esqueceram-se de me avisar. Entretanto, expliquei que o menino tinha de levar a vacina, porque já passou uma semana dos quatro meses e tem de ser levada nos períodos certos. Lá pediram a uma enfermeira que vacinasse o meu filho. Cheguei aqui antes das 9h e estou a sair às 10h20 só por isto”, expõe a mulher de 28 anos. “Ele hoje tinha consulta e vacina, mas só foi vacinado, porque o médico não veio. Já é a segunda vez que isto acontece”, esclarece indignada. O problema não fica por aqui, agravando-se no momento em que tenta fazer a remarcação da consulta adiada. “As funcionárias dizem que estão sem sistema [informático] e não conseguem remarcar a nova consulta, nem a vacinação para o próximo mês”. Por estes sucessivos imprevistos e pelos incómodos causados, o bebé de Jéssica “já está a ser acompanhado no privado”.

Outra jovem também sai sem que o filho de sete anos seja atendido. “Ele tinha consulta de dentista, mas quando cheguei informaram-me que foi desmarcada”. Contrariamente ao que aconteceu com Jéssica, a esta mãe não revelaram terem-se esquecido de avisar. “Disseram que me ligaram hoje, mas eu não recebi chamada nenhuma. E podiam ter ligado a desmarcar ontem uma consulta que era para hoje de manhã. A consulta era às 10h30 e iam avisar às 8h45”, manifesta com desagrado a mãe junto dos dois filhos. Também ela tentou a remarcação, mas sem sistema ativo, terá de esperar que lhe liguem de novo.

Remarcação esta que pode demorar longos meses até que volte a ter vaga. São os casos de Elvira e Beatriz, duas senhoras de 60 anos, que vão esperar meses até que sejam atendidas. “Marquei em fevereiro e só tenho consulta para novembro”, testemunha Elvira. Já Beatriz agendou em setembro e também só conseguiu para fevereiro do próximo ano.

Estas amigas contam que outra adversidade com que os utentes são confrontados é as consultas de urgência, alegando que são atendidas muito poucas pessoas por dia nesse serviço. “E temos de vir bem cedo de manhã para tomar vez”. Caso contrário, regressam a casa com as mesmas queixas que lá os levaram. “Se vamos à urgência do hospital de Ponta Delgada, eles mandam-nos vir para aqui para a médica de família”, manifestam Elvira e Beatriz.
Enquanto entram e saem todos estes utentes, o senhor António continua a esperar e desesperar pelo seu certificado. À entrada vai encontrando amigos com quem põe conversa. Neste passar de tempo vai ficando sozinho e senta-se enquanto espera. Ao final da manhã desiste. “O delegado continua sem responder. Ficou com o meu contacto para ligar quando tiver novidades. O problema é que já vim na semana passada e o delegado disse que hoje, quando eu viesse à consulta, já poderia ter. Mas diz que estão sem assistente técnico”.

De facto, à entrada do estabelecimento está afixado o aviso onde se lê: “pedimos a vossa compreensão. Temporariamente a delegação de saúde está sem assistente técnico”. Abaixo constam contactos como os números de telefone dos Recursos Humanos do Centro de Saúde de Ponta Delgada e a Direção Regional de Saúde. Entidades que em nada conseguem auxiliar António no seu caso.

Tentámos confrontar o delegado de saúde desta unidade, João Soares, com o conjunto de queixas que nos foi apresentado. Contudo, o delegado, que é antigo Diretor Regional da Saúde, recusou prestar declarações, justificando não ser da sua competência. Em contrapartida, remeteu-as para o presidente do conselho de administração da Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel (USISM), Pedro Santos.

Após várias insistências, o presidente da USISM não se disponibilizou a responder às questões do Diário da Lagoa até à data de fecho desta edição.

Maria Leonor Bicudo

Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2021

Categorias: Reportagem

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