Há cada vez mais jovens e raparigas a tocar viola da terra açoriana

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O interesse pela viola da terra, instrumento musical de cordas típico dos Açores, atrai cada vez mais jovens e raparigas, deixando de ser apenas tocado por homens, avançou à Lusa o músico Rafael Carvalho.

“Temos muitas raparigas a aprender, ao contrário do passado, quando quem tocava viola eram mais os homens. Era um instrumento que se usava muito nas ruas e nos impérios do Espirito Santo e as senhoras não iam tocar a viola para a rua, porque na altura não era hábito”, explicou o presidente da Associação de Jovens de Viola da Terra.

Músico e professor há 13 anos no Conservatório Regional de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, Rafael Carvalho descreve que a turma de viola da terra “tem tido sempre horário completo na última década”, sublinhando que “nunca a viola da terra esteve tão forte”.

“Inicialmente, só tinha sete alunos e o interesse aumentou bastante, ao ponto de termos conseguido ter o horário todo preenchido e temos todos os anos o horário completo para o curso de viola da terra”, assinalou.

Rafael Carvalho leciona o curso de viola da terra desde a iniciação, o básico e o secundário, um curso de 12 anos, à semelhança dos outros instrumentos lecionados no Conservatório Regional.

“Temos 14 alunos inscritos na classe de viola da terra que começam a aprendizagem aos seis anos de idade e até aos 18”, sublinha, assegurando que o interesse pela aprendizagem do instrumento “tem-se mantido e tem aumentado”.

Atualmente, existem “muitas raparigas a tocar a viola da terra”, até na aulas de iniciação, revelou

Segundo o músico, a apetência dos mais jovens, incluindo de raparigas pela aprendizagem do instrumento, está relacionado “com todo o trabalho de divulgação feito pelas associações, escolas de violas da terra” e várias entidades.

A viola da terra é um instrumento musical de cordas típico dos Açores, pertencente à família das violas de arame portuguesas, que teve origem no século XVIII e “sobreviveu graças ao povo”.

Tem a caixa em forma de oito e tem 12 cordas: três ordens duplas (seis cordas mais agudas organizadas aos pares) e duas ordens triplas (outras seis cordas graves e organizadas em conjunto de três).

O instrumento é também conhecido como viola de arame ou viola de dois corações, sendo semelhante ao violão, mas de dimensões mais pequenas.

No passado, a viola da terra fazia parte do dote do noivo e o seu lugar na casa durante o dia era em cima de uma colcha axadrezada, como adorno do quarto do casal, assumindo, desde o povoamento do arquipélago, um lugar de destaque nos festejos, bailes, cantorias e serões.

E, explica Rafael Carvalho, “a maior parte dos tocadores eram os mestres”.

Um cenário que se tem vindo a alterar ao longo dos tempos.

“Há mais gente a tocar. E não é só nos grupos folclóricos e nas cantigas ao desafio. Toca-se em grupos e formações musicais novas que estão a surgir com muitos intervenientes e muita gente nova para dar continuidade ao instrumento”, realçou Rafael Carvalho.

Tem vindo também a aparecer “uma nova geração de fabricantes” de viola da terra nos Açores.

“Nunca a viola da terra esteve tão forte. É uma coisa que nos devemos orgulhar. Obviamente que nalgumas localidades haverá sempre falta de tocadores e há sítios onde a tradição se poderá ter perdido, mas noutros locais reforçou”, explica.

Fundada em dezembro de 2010 na Ribeira Quente a Associação de Juventude da Viola da Terra, a que preside Rafael Carvalho, foi criada com o objetivo de promover e valorizar o instrumento e os seus tocadores, desenvolvendo inúmeros eventos e cursos.

Com a pandemia de covid-19 também a Associação se viu obrigada a adaptar-se à nova realidade.

“Tivemos que adaptar para ‘online’ toda a programação da temporada, o que não é a mesma coisa em termos de presença de músicos de várias ilhas dos Açores, como é o caso do encontro de violas açorianas, do encontro de violas de arame ou o festival da viola”, assinala o músico, destacando “a capacidade de adaptação” dos músicos a uma nova realidade imposta pela pandemia.

Lusa/ DL

Categorias: Cultura

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