“Há uma desvalorização total dos nossos produtos e não pode continuar assim”

Em entrevista ao Diário da Lagoa, Jorge Rita, 61 anos, volta a defender a valorização do trabalho dos produtores dos Açores e o aumento do preço do leite pago a quem o produz. O presidente da Associação Agrícola de São Miguel e da Cooperativa União Agrícola elogia ainda a produção que sai da Lagoa e quem a lidera. Garante que dorme pouco devido à luta que não larga: melhorar o rendimento dos agricultores

Jorge Rita, 61 anos, foi reeleito presidente da Associação Agrícola em maio passado © DL

DL: Que principais problemas enfrenta o setor que representa?
Muitos, mas o mais bem identificado tem haver com o rendimento dos agricultores, mais no setor do leite. O da carne também passa grandes dificuldades e também na área das outras produções regionais. Nalguns casos, teve haver com o efeito brutal da pandemia e noutros casos teve haver com a conjuntura — como no caso do leite — que já antes não estava fácil e que se agravou. Claro que neste momento, um ou outro produto regional começa a ter alguma alavancagem para alguns agricultores mas existem muitos com grandes dificuldades.
No momento atual houve a brutalidade do aumento dos custos de produção que são enormes — fertilizantes, combustíveis, matérias primas para as rações —, encareceu tudo. A parte da construção civil também subiu e vai subir cada vez mais derivado às matérias primas, os transportes estão a subir brutalmente. A conjuntura atual é a tempestade perfeita de forma negativa para os agricultores. O leite, no ano passado, baixou o preço de forma injusta e este ano as subidas nem compensaram as descidas do ano passado, que é uma situação que nos envergonha a todos. Continuamos a ter um produto com fama e prestígio no mercado, os laticínios dos Açores, mas continuamos a ter o leite mais mal pago de toda a Europa.

DL: Sendo o leite um produto de excelência, o que falta ser feito para o potenciar?
Falta valorizarmos o mercado. Continuar o trabalho que tem sido feito pela produção, de excelência, e a indústria transformar isso em produtos de valor acrescentado, que não existem, são residuais os que existem. E isso para nós é que é dramático. Se recebessemos o preço, no setor leiteiro, igual aos nossos colegas do continente — e eles estão em crise — a situação para nós não era tão grave.

DL: Os Açores não acompanham o cenário do resto do país?
Não acompanham. O leite, no continente, está neste momento com cinco cêntimos de diferença do leite dos Açores. Falando na moeda antiga são menos dez escudos por litro de leite. Numa exploração com quinhentos ou um milhão de litros é fazer a multiplicação para ver o que dá por ano. A crise que nós temos está muito mais acentuada derivado ao preço baixo do nosso produto e que se agrava este ano e no próximo ano com o aumento brutal dos custos de produção.

DL: Há esse braço de ferro entre a indústria e os produtores. São sempre o elo mais fraco?
O braço de ferro já não é só na indústria, o maior é a indústria com a distribuição. Se houvesse um bom entendimento entre a indústria e a distribuição em que a distribuição valorizasse mais a indústria, ela claramente tinha de pagar melhor ao produtor. Há uma desvalorização total dos nossos produtos e não pode continuar assim. Vivemos numa terra magnífica, falta-nos a valorização. Se não tivermos a devida valorização, nada feito. A carne está a ser alavancada em termos de preço, a área da diversificação agrícola tem algumas dificuldades mas tem vindo a melhorar. O único setor com maior dimensão é o leiteiro e para isso tem que haver medidas e coragem política para tomar decisões para se inverter esta tendência.

DL: Considera que o Governo regional está a acautelar os interesses dos produtores?
Este Governo regional o que tem feito é uma proximidade da produção nas ajudas diretas aos produtores, isso é bom e demos nota positiva dessa situação. O que nos falta é que o Governo regional consiga agarrar também com a indústria e distribuição – que também é o papel do Governo, ser o mediador de toda esta situação no sentido de valorizar os preços nos mercados para que isso tenha consequências no produtor. As ajudas são meros paliativos, são importantes e registamos com agrado, mas isso não é o suficiente. Aqui a indústria é que tem um papel importante na valorização do leite porque os custos de produção são inevitáveis, têm de ser anunciadas medidas de aumento do preço do leite.

DL: É o que esperam do Executivo?
Esperamos que o Executivo pergunte às indústrias o que querem fazer com o leite dos Açores. Se é para fazer o mesmo, não faz sentido. Se com esse leite é transformar e dar valor acrescentado para que toda a fileira ganhe e que toda a região fique bem suportada por essa via, o trabalho tem de ser diferenciado.

DL: O que satisfazia aos produtores?
Aumentar o rendimento. Tem havido um aumento de ajudas aos produtores, é uma reivindicação nossa, mas o que neste momento tem que haver é um aumento do preço do leite para que compense aquilo que são os aumentos que temos em matéria de produção.
Hoje, neste momento, em cada litro de leite que cada produtor produz está a perder dinheiro e isso é insustentável.

DL: Que fatia representa a Lagoa no todo da ilha em termos de produção?
A Lagoa é um concelho de excelência na produção agrícola, sempre foi e é. Nas áreas das hortícolas sempre foi e continua a ser, na produção de carne existem alguns criadores de carne muito bons, e na área do leite, tem dos maiores produtores a nível Açores.
Em matéria de agricultura, a Lagoa é um concelho muito forte, sempre foi e vai continuar a ser. Existem explorações leiteiras muito bem estruturadas, pequenas e grandes. Quais são as lacunas que têm ao nível do abastecimento? O da água tem de ser melhorado, o trabalho nos caminhos agrícolas tem de continuar a ser feito, manutenção e melhoria dos que existem, e são vários identificados.

DL: Qual é a parte mais difícil do seu trabalho?
A mais difícil é a luta constante, durmo com ela, e durmo pouco por causa dela, é melhorar o rendimento dos agricultores. Todos nós temos de olhar para os agricultores como sendo um setor de grande importância nos Açores no tecido económico e também social. Não há melhor setor para manter as pessoas nos meios rurais, preservar esta paisagem magnífica que temos e ainda potenciar outros na região autónoma dos Açores.

Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de dezembro de 2021

Categorias: Entrevista

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