História da Porca que furou o Pico chegou ao Brasil no séc. XIX

Roberto Medeiros

“(…) “patrão” Ignácio de regresso ao Brasil, contou a inédita história de uma porca que tinha furado o Pico, em Água de Pau, enquanto lá estivera no gozo das festas da Senhora dos Anjos…”

A família de Ignácio José de Medeiros emigrou de Água de Pau para o Rio de Janeiro, Brasil, na década de 1880 © D.R.

Corriam os dias, nos subúrbios do Rio de Janeiro, e naquela manhã de segunda-feira, do mês de maio de 1897, o José Pereira e o Emílio Silva, entravam com o pé direito no portão lateral do “Armazém de Ignácio José de Medeiros”, mercador, recetor e venda de café, açúcar, e muitos produtos para mercearias. O Pereira e o Silva tinham tido a sorte de encontrar trabalho, assim que chegaram dos Açores à cata da sua ventura no Brasil.

Eram netos de cristãos-novos, descendentes de judeus convertidos à força, já se sabe, que, nem por isso padeceram em S. Miguel, as perseguições que outros em terras de Portugal continental sofreram, com a Inquisição. Foram os seus avós encontrar a paz desejada das suas vidas, quando saíram do Minho engrossando as levas de colonos para os Açores.

Não foi por isso que emigraram da ilha de S. Miguel para o Brasil, mas pela ambição de melhores dias de vida e pelas histórias que ouviam contar os mais velhos na sua vila de Água de Pau, nos serões das desfolhadas de milho, na casa da eira-alta da “terra-de-reis”, na coroa da rua do Boqueirão, de onde eram vizinhos.

E, tiveram sorte em encontrar quem lhes desse trabalho e cama para dormir, porque ainda no barco que os levara de Lisboa ao Rio de Janeiro, viajara com eles Ignácio José de Medeiros, o futuro patrão, que quinze anos antes, se aventurara primeiro, em sair de Água de Pau em busca de melhores oportunidades no Brasil.

Medeiros, estava regressando ao país que o acolhera como imigrante, viera pela terceira vez do Brasil aos Açores como patrono assumido do dispêndio com a realização das Festas de Nossa Senhora dos Anjos, na sua vila de Água de Pau, cujo dia maior era e ainda é o dia 15 de agosto, dia da Assunção de Maria e feriado nacional em Portugal.

Os avós de Ignácio de Medeiros, foram donos da “casa-grande”, sua por herança, situada em frente à ermida do convento da Caloura. Portanto, ele viveu ali e sua família antes de emigrar, e ficou ali enquanto regressou a Água de Pau.

Na primeira vez que regressara à ilha a mulher, Luzia da Conceição, o acompanhara, mas nunca mais nas seguintes. Apreciara as primeiras vezes que o marido viera em promessa assumir as festas da sua Senhora dos Anjos, mas depois achou que devia o marido deixar aquela tarefa para os que lá viviam.

Nos serões de família em que eu, criança e ainda muito jovem, sentei-me com meus pais, segundo ouvi dos primos “Vieira” da Praça [emigrantes regressantes do Brasil], à volta da mesa do quarto de jantar e de serão, que a mulher de Ignácio Medeiros cansada de o ver todos os anos a atravessar o Atlântico, não o convencendo a dar por realizada a sua promessa, dizia-lhe sem intencionalidade “e…não vai p’ró fundo esse barco!”. Até que um dia se consumiu o “aleive”. A família nunca regressou à ilha nem a Água de Pau e a Casa Grande só foi vendida cerca de oitenta anos depois [em 1978] e dividido o valor da venda pelos primos e sobrinhos herdeiros em Água de Pau. Meu pai foi um dos herdeiros e seus irmãos. Foi seu procurador, seu sobrinho António Inácio “cabeça-de-malho”, que era solteiro e faleceu na segunda década do século XX.

No Armazém dos filhos herdeiros do pauense Ignácio J. Medeiros, no Brasil, festejando o dia de Festa de Nª Sª dos Anjos © D.R.

Regressemos então aquela manhã de segunda-feira, do mês de maio de 1897, quando o José Pereira e o Emílio da Silva, entraram pelo portão lateral do “Armazém de Ignácio José de Medeiros”. Queriam saber notícias de como tinham decorrido as Festas de Nª Sª dos Anjos na sua vila de Água de Pau, de onde regressara, naquele fim-de-semana, numa das suas viagens à terra natal, o seu patrão e conterrâneo Ignácio Medeiros.

Foi então que “patrão” Ignácio contou-lhes a inédita história de uma “Porca que tinha furado o Pico” em Água de Pau, durante o período em que decorriam as Festas de Nossa Senhora dos Anjos. E, continuou…

“Vive na Boavista, [rua do Pico], um casal com um filho franzino. São gente de poucas posses. No quintal, tinham uma linda e mansa porca de criação, à espera da boa hora para ter os seus “marrãozinhos”. Com a sua venda, conseguiriam um dinheirinho que muito ajudaria na economia da família.

No dia 14 de agosto, andava a família a passear no arraial da festa da “quirida” Nossa Senhora dos Anjos, quando o dono da porca mandou o filho ir a casa tratar do animal. A criança, chegando ao local, não viu a porca e correu a avisar os pais que começaram a lamentar-se. O burburinho foi tão grande, que logo apareceram alguns amigos e familiares decididos a ajudar a encontrar o animal desaparecido. Procuraram nas redondezas, mas não a encontraram. Com a noite, decidiram procura-la no dia seguinte.

Lembrou-se então o franzino do filho de subir o Pico e, qual não foi o seu espanto, ao olhar para o caldeirão que ficava na cratera, ver em baixo a porca deitada e rodeada de “marrãozinhos”, mesmo em frente a uma furna. Radiante de felicidade, e não sabendo como teria a porca ido ali parar, começou a descer Pico abaixo em direção à vila, gritando, por entre a multidão forasteira que se encontrava na festa:

– A porca furou o Pico! A porca furou o Pico!

O animal regressou ao pátio com a sua enorme prole e tudo voltou à normalidade. Afinal a porquinha simplesmente tinha procurado condições melhores do que as que tinha para aumentar a sua família. Já o franzino do rapazote pensara ter a porca furado o Pico, para passar do pátio para o caldeirão.”

O Pereira e o Silva olharam de boca aberta e queixo caído para patrão Ignácio, incrédulos!

Passaram-se os tempos, mas a frase, ingenuamente pronunciada e repetida, nunca mais foi esquecida e, durante muitos anos, até ao fim do século XIX e por todo o século XX, as pessoas que ali passavam de carro ou de camioneta, principalmente excursionistas, perguntavam ironicamente:

– Foi aqui que a porca furou o Pico?

Os habitantes da vila, sentindo-se apelidados de ingénuos ou parvalhões, reagiam, soltando pragas e fazendo gestos de revolta e fúria.

Atualmente, esta história faz parte do folclore local e tem sido aproveitada pelo grupo de Folclore “Jovem Pauense”. Eis uma das suas quadras mais conhecidas:

I
Eu fui a Água de Pau
Onde o pobre parecia rico
E o vinho não era mau
Diga-me lá Tia Maria
Se foi nessa freguesia
Que a Porca furou o Pico?

Crónica publicada na edição impressa de julho de 2021

Categorias: Opinião

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